Rui Borges pode ser o problema. Mas o Sporting também
A reunião da direção da SAD do Sporting para avaliar a continuidade de Rui Borges aconteceu e terminou com uma decisão: a estrutura leonina decidiu manter o treinador e dar-lhe um voto de confiança. A decisão prolonga, para já, a permanência de Rui Borges no banco, mas não altera a realidade que o conduziu até à reunião: seis pontos perdidos no campeonato, quatro nas duas últimas jornadas e dois empates com vantagens desfeitas nos minutos finais deixaram o treinador numa posição extremamente fragilizada.
O voto de confiança evita, neste momento, a saída. Não devolve, porém, a Rui Borges a margem que tinha antes. Pelo contrário: o facto de a direção ter sentido necessidade de reunir para discutir a sua continuidade e, depois, ter decidido mantê-lo traduz a dimensão das dúvidas que já existem em torno do treinador. Se a sua posição estava fragilizada junto dos adeptos, está agora ainda mais debilitada. A relação com as bancadas parece profundamente degradada, e cada novo jogo será, inevitavelmente, uma avaliação à sua capacidade para recuperar autoridade.
Mas há uma velha doença do futebol português que importa não esquecer: o treinador como culpado universal. Gonçalo Inácio errou gravemente em Famalicão. Debast cometeu frente ao Arouca um erro inadmissível e deixou a equipa em inferioridade numérica. Quando o Sporting ganha, o mérito é de todos; quando não ganha, a culpa é quase sempre de Rui Borges. O treinador transformou-se no mágico que deveria resolver erros individuais, desequilíbrios do plantel, falta de liderança e até a incapacidade de uma equipa controlar vantagens.
Rui Borges não está acima da crítica. Mas a eventual saída não pode esconder uma questão maior: a revolução no plantel foi uma decisão muito mais difícil de explicar.
Trincão renovou com a promessa de uma venda, Pote e Bragança saíram, chegaram vários reforços e desapareceram referências, rotinas e hierarquias. Depois pediu-se a um treinador que construísse rapidamente uma equipa com identidade e automatismos. Qualquer treinador teria dificuldades. É impossível perder tantos titulares e esperar que uma equipa nova apareça feita.
O Sporting quis fechar um ciclo sem medir completamente o preço dessa mudança. E agora pode estar a pedir ao treinador que pague a conta.
A falta de liderança também é evidente. Gonçalo Inácio, capitão, disse depois do Arouca: «Se continuarmos assim vai correr tudo bem». A frase ficou mal. Coates e Hjulmand tinham uma presença diferente, uma exigência que ultrapassava a braçadeira. O Sporting mudou o ciclo, mas ainda não encontrou esse perfil.
E depois há Rui Borges. Antes do Arouca, queixou-se de que os jornalistas lhe retiravam parte da humildade por ser transmontano e insistir nas suas raízes de Mirandela. Mas o problema não são os jornalistas. São os adeptos. E estes já construíram uma imagem do treinador: demasiado brando, pouco convincente na comunicação e sem a autoridade que entendem necessária para liderar o Sporting.
Quando essa perceção se instala, dificilmente uma conferência de imprensa a desfaz.
Rui Borges ganhou tempo com este voto de confiança. Mas tempo não é o mesmo que estabilidade. A decisão de o manter não apaga os resultados recentes, não recupera automaticamente a confiança dos adeptos e não resolve as dúvidas que se instalaram em torno da sua liderança. Pelo contrário, deixa o treinador ainda mais exposto: a partir de agora, cada resultado será lido à luz da decisão que a direção acabou de tomar.
E, sobretudo, não resolve os problemas que o Sporting criou na construção deste novo ciclo.
Porque é sempre mais fácil mudar o homem do banco do que admitir que talvez se tenha planeado mal a mudança.
Essa é a pergunta que o Sporting terá de responder, mesmo com Rui Borges no cargo: se o treinador fica, quem garante que não se está apenas a adiar o problema? E, se ele acabar por sair mais tarde, quem vai garantir que não se muda apenas o culpado, sem mudar a equação?