A saída «corajosa», as expetativas dos adeptos e o adeus de CR7: tudo o que disse Marco Silva
— Que análise faz do jogo, tendo em conta que o Benfica, sobretudo na segunda parte, acabou por sofrer um bocadinho mais do que estaria à espera? E quando o Prestianni entrou, foi para o lado esquerdo e o Schjelderup para o lado direito. É algo que poderemos ver mais no futuro?
— Primeiro lugar, uma vitória totalmente justa da melhor equipa, a equipa que fez mais por ganhar o jogo. Sabíamos que tínhamos algum favoritismo antes do jogo, jogando em casa, sendo a equipa que tem vindo a ganhar os jogos da Liga Europa como temos vindo a ganhar. Dá-nos mais uma vez... eu disse também ontem que tínhamos que prová-lo dentro do campo e acabámos por fazê-lo. De uma forma geral durante o jogo, após o 2-0, no momento até que começámos a fazer algumas alterações... Primeira parte praticamente toda controlada, com alguns bons momentos da nossa equipa, algumas ligações muito boas, com algumas oportunidades criadas também e fomos, não com muitas oportunidades, mas de uma forma consistente fomos criando as nossas aproximações à área com muito perigo, alguns remates muito perigosos. Lembro-me de dois do Durán, mais do que isso sobre o nosso corredor esquerdo, a grande oportunidade do Andreas também, além do golo que fizemos.
A segunda parte começou mais ou menos no mesmo sentido, com outro momento em que podíamos ter feito o 2-0 mais cedo, com outro ataque rápido que deveríamos ter definido muito melhor quando algumas vezes até estávamos em superioridade para o fazer; acabámos por não fazer. E há um momento depois em que começamos a fazer algumas alterações, porque alguns jogadores, mesmo nós tendo vindo a rodar, já começaram a cair fisicamente; alguns jogadores já com amarelo também que nós, por precaução, começámos a fazer algumas alterações. No momento colocámos o Enzo, o Prestianni, como falou, e depois o Freddy também para dar alguma tranquilidade, alguma calma aí no momento. E o Cláudio já estava a cair um pouco fisicamente, mudar o Sudakov de posição... e é o momento em que depois fazemos o segundo golo.
E a equipa acaba por abanar depois de cometermos o erro que dá o 2-1. Abanámos um pouco no momento em que não deveríamos ter abanado. Eu também, possivelmente, logo após o 2-0 não ajudei muito a equipa com a alteração que fiz. Comecei a pensar no jogo já de domingo. Jogámos na segunda, jogámos hoje, jogamos no domingo e quis não correr risco nenhum com o Tomás para que ele não jogasse outra vez 90 minutos. Esta noite não tínhamos o Clément Lenglet e comecei a pensar um pouco mais à frente e acabei por adaptar o João naquele momento. Coincidiu depois com o 2-1 e ali atrás abanámos um pouco. Não tem a ver só com o João, como é lógico, mas no momento em que estamos a jogar com o Circati, a jogar com o Banjaqui, com o Souffian, que praticamente não tem jogado muitos jogos... Ter um central de raiz acaba por dar-nos ali alguma tranquilidade e o Tomás é o central que tem jogado mais naquela posição.
Possivelmente, eu, pensando mais à frente, não ajudei muito a equipa naquele momento e a equipa abanou um pouco. Reencontrámo-nos novamente, acabámos por fazer o 3-1, ainda tivemos mais uma ou outra oportunidade em que podíamos ter feito mais golos e uma vitória totalmente justa, com aqueles 10 minutos em que abanámos, começámos a querer jogar de trás como temos que jogar, mas depois não encontrando o momento certo para quebrar a pressão e levar o jogo para meio-campo ofensivo, que é onde nós nos sentimos bem e sabemo-lo fazer bem. De uma forma geral, mais uma exibição, quatro jogos, quatro vitórias, o que é muito importante. É muito importante para nós manter esta mentalidade, esta capacidade de jogar segunda e depois na quinta-feira mudar um pouco o chip e o mindset para estarmos outra vez, independentemente de estarmos em primeiro ou não, a querer ganhar jogos. E isso acabou por ser muito importante.
A outra parte da questão: sim, é algo que nós temos vindo a falar, é algo que temos pensado também. A concorrência é grande quer à esquerda, quer à direita, e entrando o Prestianni, nós sabemos onde ele tem estado a render de uma forma extraordinária. Hoje em pouco tempo demonstrou mais uma vez aquilo de que é capaz, todo o seu potencial, aquilo que ele dá à equipa, a agressividade que mete com bola e mesmo sem bola, a sua capacidade de decidir cada vez melhor, não só finalizando as ações, mas com passe, com tomada de decisão. Vê-lo a defender como defendeu também depois de entrar... O plano hoje passava também pelo nosso ala esquerdo acompanhar o lateral até ao fim se tivesse que acompanhar. O Andreas fez isso durante toda a primeira parte e parte da segunda e o Prestianni também o fez.
É importante perceber que o jogador que está no momento em que ele está dá isso à equipa também e está completamente aberto a fazer o que tem que fazer, que é o plano da equipa. Dar-lhes o mérito por isso e depois acabou por resolver bem. Se podem jogar um à esquerda e outro à direita, claro que sim. Precisamos de mais tempo para trabalhar. O Andreas não é novo, vocês viram-no há pouco tempo a fazê-lo ao nível da sua seleção, portanto não é novidade. E hoje optámos por testar: o Rafa já estava um pouco mais desgastado, o Cláudio jogou o último jogo, tem vindo a jogar mais tempo agora e optámos por gerir desta forma com o Andreas à direita.
— Queria falar sobre este regresso às competições europeias, após dez anos, também fruto da competitividade que existe na Premier League. A nível sentimental, como tem sido este regresso a um clube que lhe diz muito? E em termos de gestão e a nível tático, qual tem sido o maior desafio para fazer com que o Benfica, a meio da viagem, esteja em primeiro lugar?
— Acho que é a ambição de qualquer treinador. Quando comecei a minha carreira, passado dois anos já estava a disputar competições europeias porque conseguimos com o clube onde estava, neste caso o Estoril, participar nelas, conquistar esse direito de participar nas competições europeias. Naturalmente, a partir daí criei esse hábito, não só a nível de Liga Europa, mas também de Champions. Quando jogas a nível europeu é um ponto alto poderes participar em competições europeias e poderes ter ambições a esse nível. Portanto, é sempre bom sentir, independentemente da competição que estás a jogar, é sempre algo diferente.
Eu disse aos jogadores hoje e disse-vos a vocês: teres a capacidade, como clube grande que és, de mudar o chip, mudar o mindset de um jogo para o outro; teres a capacidade, independentemente da qualidade que possamos ter ou não, de estarmos em primeiro ou não... Chegamos contra adversários de culturas diferentes, que têm uma forma de jogar diferente, uns jogam mais direto, outros de outra forma. E esta equipa é um bom exemplo disso, que no seu campeonato é totalmente dominante, é uma equipa que tem capacidade de manter a bola, como se viu hoje também, e que depois nós conseguimos explorar outras situações que analisámos no adversário. Isto só é bom para a equipa, só faz a equipa crescer e prepararmo-nos, os jogadores e nós enquanto equipa técnica, sempre para o próximo desafio. Tendo a capacidade de mudar de um jogo para o outro rapidamente e ajustarmos algumas coisas, como nós ajustámos esta noite quase sem treinar, porque esta é que é a realidade: como vocês devem calcular, não há tempo quase nenhum para treinar. Temos várias ferramentas para tentar fazer com que os jogadores percebam isso, mas quase sem tempo para treinar.
E a parte de estarmos em primeiro: sim, como falou, estamos a meio da viagem, essa é que é a realidade. Antes de começar esta fase de liga já tivemos seis jogos que nos deram aqui para ir percebendo e entendendo melhor os jogadores, conhecer os jogadores em competição mais rápido. Mas também estamos a falar de chegarmos a este momento já com jogadores com muitos minutos e que nós temos de ter a capacidade de ir gerindo. Porque quando acontecem estas paragens internacionais, por exemplo se chegámos na segunda-feira passada, esta semana fica com um desgaste muito grande. Mas é importante estarmos a conquistar vitórias, estarmos a conquistar pontos, a sentirmos que estamos... Não nos dá nada neste momento estarmos no topo da tabela, mas nós queremos a qualificação direta. Este sempre foi o nosso objetivo desde a primeira hora: queremos evitar mais dois jogos num momento que pode ser crucial da temporada, com muitos jogos também. Essa é a nossa obrigação, lutar para que isso aconteça. E só assim o iremos conseguir: conquistando vitórias, não interessa o adversário, jogando fora ou em casa. Temos esta capacidade de, sendo ou não favoritos no jogo – e esta noite, com o respeito que temos pelo adversário, tínhamos de nos considerar favoritos –, depois temos de provar dentro do campo.
— Durante várias partes do jogo, o Sudakov não só construía, mas também dava muitas indicações aos colegas. O Manu Silva também gesticulava muito sobre a forma de construir. O próprio Durán pediu várias vezes calma a Trubin. A esta altura da época, os próprios jogadores já compraram a ideia de Marco Silva e são autênticas sombras do mister em campo?
— Eles sabem que é uma exigência que nós temos de ter uns com os outros. Nós sabemos bem aquilo que queremos no jogo. Por vezes os adversários conseguem contornar aquilo que nós queremos, ir por caminhos diferentes, fazerem outro tipo de situações. E é algo que eu lhes peço e que é bom que consigamos exigir uns dos outros: estamos no campo, não podemos parar o jogo, há dinâmicas diferentes. Hoje o nosso adversário tentou em alguns momentos, por exemplo, construir um pouco mais à esquerda com o médio, montar com o médio à esquerda, e nós temos de ter a capacidade dentro do campo de resolver problemas que não podemos parar.
Podemos tentar dar algum feedback de fora e damos, mas por vezes não é tão fácil assim os jogadores conseguirem ouvir e terem tempo de analisar. É importante, principalmente quem joga naquela zona central do terreno – hoje era o Manu e o Sudakov –, no nosso momento de pressão em 4-4-2 terem uma capacidade muito grande de orientar quem está à frente e terem a capacidade de comunicar. É isso mesmo que eu quero deles. Eu disse-lhes isso, temos vindo a falar sobre essa questão. Quando comunicamos uns com os outros é sempre mais fácil – ou menos difícil; fácil não é nada, mas é menos difícil. Para mim é muito importante. E depois, como em todas as equipas, há jogadores que têm um entendimento e uma leitura mais rápida daquilo que está a acontecer. É importante que esses jogadores que têm essa capacidade de entender o jogo, se puderem ajudar o colega, muito melhor para nós. É isso que nós exigimos uns aos outros.
— Como está a ver o regresso de Jakub Kaminski à equipa após lesão e se perspetiva que possa ser titular nas próximas semanas?
— Sobre o Kaminski: desde que chegou ao nosso clube, ele jogou numa altura importante da pré-temporada em que estávamos claramente a começar a preparar jogos muito importantes que vinham para a equipa. Não estava a fazer pré-temporada no momento em que chegou e acabámos por ter de colocá-lo nos últimos jogos de pré-temporada para estar disponível e a tentar estar perto do seu melhor para os primeiros jogos. Acabou por começar a época a titular. A concorrência é grande, acabaram outros jogadores também por ter a oportunidade e agarraram o lugar de uma forma que é difícil para a concorrência conseguir batê-los. E isto é uma concorrência pelo lugar que nós queremos: termos quatro ou cinco alas de grande qualidade, todos eles diferentes, com a posição em que temos vindo a usar o Rafa também. Daí eu falar em cinco alas que temos na nossa equipa, alguns dos jogadores em momentos muito bons na temporada, a serem incisivos, e exige aos outros que continuem a trabalhar forte para quando tiverem oportunidade de mostrar.
Ele teve a oportunidade em alguns momentos também. Um bom exemplo foi o jogo da Liga Europa com o Milan fora de casa, em que jogou a titular com uma função muito específica que nós lhe demos. Teve um jogo muito bom e acabou por ser decisivo naquele jogo, com assistência e com golo, e isso deu-lhe confiança. Infelizmente para ele, no momento em que vai à seleção, uma semana após esse jogo da Liga Europa, acaba por ter uma lesão que quebra um pouco aquele momento ascendente que estava a ter, mesmo em termos de confiança, que nós sentíamos. O bom sinal que nós tivemos após esta paragem, nos últimos dias em que começou a treinar com a equipa, é que sentimos que ele está com aquela confiança ao mesmo nível. E agora é competição, é mostrar que pode ser opção, é demonstrar que tem qualidade – e nós sabemos que a tem – e ele estar preparado para quando tiver a chance poder jogar. Ele sabe perfeitamente, e acho que vocês todos sabem, que tipo de concorrência tem neste clube para poder jogar, e depois compete-me a mim decidir.
— Uma equipa com as aspirações do Benfica não pode jogar no «chutão para a frente», mas não sente que os jogadores arriscaram em demasia na saída de bola em alguns momentos?
— Percebo a questão. Eu não diria tanto «chutão para a frente», mas podemos jogar um pouco mais direto. Uma coisa é jogar chutão para a frente, outra coisa é jogar um pouco mais direto; são coisas diferentes. Se tivermos de jogar direto, iremos jogar direto. Nós temos uma ideia clara e os jogadores sabem perfeitamente a ideia que temos. Posso dizer, numa análise minha do que vi no jogo, que praticamente todas as decisões que o Trubin tomou durante o jogo com os pés foram acertadas. Quase todas as decisões do Trubin foram acertadas esta noite, em ligação mais curta, em ligação mais longa, portanto tomou praticamente as decisões todas. Nós temos caminhos para ir e para chegar onde queremos e depois temos é de ter atenção à tomada de decisão que temos.
Percebo a questão. Possivelmente, após o erro que cometemos, continuarmos a tentar jogar da forma que queremos jogar... Percebo que você diga que é arriscado; eu posso pensar que é corajoso. Mas depois é arranjar o equilíbrio necessário entre uma coisa e outra: continuarmos a ser corajosos, mas ao mesmo tempo sermos realistas e termos uma boa leitura daquilo que são os momentos. Possivelmente, se não tivéssemos sofrido o golo daquela forma, não me estava a perguntar isso. Independentemente dos riscos que corremos, na primeira parte tivemos algumas saídas sob pressão dessa forma. Lembro-me, antes do golo, de uma muito boa saída que quase nos dá golo nosso. Uma ligação do Trubin com o Sudakov, que a bola vai ao Tomás e o Tomás conduz a bola e é uma grande oportunidade nossa, acho que do Banjaqui, que nasce dessa forma corajosa como começámos a sair.
É óbvio que depois cometemos um erro muito grande no golo e criou alguma instabilidade na equipa. Depois começámos, se calhar, a usar em demasia passes atrasados e a usar o guarda-redes em demasia. Irmos ao guarda-redes muitas vezes faz parte da nossa ideia, queremos atrair em alguns momentos a pressão e faz parte da nossa ideia. Temos de ter o equilíbrio necessário. Falando diretamente do golo, e a equipa sabe perfeitamente aquilo que nós pensamos – não é crucificando ninguém –, sabem quem é o responsável naquele momento. É um momento para nós sairmos limpos, não havia quase pressão nenhuma no portador da bola, o Enzo dá uma ação em que até podia ter girado. E nós, para irmos depois ao jogador livre, temos de perceber de onde é que vem a pressão. Tão simples como isso, e era um momento que podíamos ter resolvido de outra forma. Entendo o que está a dizer. Posso ver dos dois lados: em vez de risco total, também coragem da nossa equipa.
— Como se faz a gestão das expectativas dos adeptos ao verem um Benfica que nem sequer apresenta o onze teoricamente mais forte a passear nesta Liga Europa? E pedia-lhe também um comentário ao fim da era-Cristiano Ronaldo na Seleção Nacional.
— Em relação às expectativas dos adeptos, nós compreendemos e sabemos o que é que pretendem. Acima de tudo, sempre que vêm ao Estádio da Luz, ou sempre que vão fora apoiar a equipa em muito bom número e sempre presentes, querem ver o Benfica a ganhar, querem ver boas exibições se possível e uma equipa a dar tudo. Eu sei que é importante para eles verem um futebol que os entusiasme, mas é sempre mais importante termos a capacidade de ganhar jogos. Isso é o que nos vai alimentando enquanto grande clube que somos, vai alimentando e fazendo crescer a nossa confiança enquanto grupo e equipa.
Como eles não estão satisfeitos, nós também não estamos nada satisfeitos com o golo que sofremos, como é lógico, e com aqueles 10 minutos a seguir ao golo pela forma como não reagimos. Eu sou o primeiro a reconhecer isso e os jogadores também. Mas olhando de uma forma global para a competição até hoje, quatro vitórias em quatro jogos, tirando os outros seis que jogámos antes, é muito bom. As expectativas podem estar mais altas ou menos, nós temos é de olhar para o jogo seguinte como o mais importante. Confiamos em nós. Percebemos que há grandes equipas nesta competição. Não é o mesmo nível de grande competição de clubes a que o Benfica está habituado a estar, mas há grandes clubes e muitos para os quais não é fácil ganhar jogos consecutivamente. Por isso é que até hoje só três equipas ganharam os jogos todos na fase de liga. Só demonstra que não é assim tão fácil ganhar jogos, independentemente da grandeza do clube em que estamos. Compete-nos a nós fazer o nosso trabalho e, se os adeptos criam expectativas à nossa volta, é porque estamos a fazer alguma coisa bem também, e isso é um bom sinal.
Em relação ao Cristiano, não querendo entrar muito em detalhes porque não me compete a mim: é um jogador que foi grandíssimo para este país e para todos os clubes que representou ao longo da sua carreira e continua a representar. Tomou uma decisão que todos nós temos de respeitar enquanto portugueses e dar-lhe os parabéns por tudo aquilo em que ajudou o nosso país a ser cada vez melhor e maior no futebol. Para quem trabalhou no estrangeiro, sabem aquilo que estou a dizer: quando falamos de Portugal e da nossa Seleção, já temos grandíssimos jogadores a jogar nos maiores clubes e nos melhores campeonatos do mundo, mas a dimensão do Cristiano é enorme e não há como falar de Portugal sem falar do Cristiano. Eu posso testemunhar isso. Dar-lhe os parabéns por tudo o que fez pelo nosso País e pela nossa Seleção, e é uma decisão dele que todos temos de respeitar.