Abel Ferreira: seis anos de glória no Palmeiras

Treinador português chegou a São Paulo vindo dos gregos do PAOK e pouco tempo depois estava a conquistar a Copa dos Libertadores. Daí para cá, o verdão chega discute todos os títulos internos e continentais. Um casamento muito feliz

Quando Abel Ferreira aterrou em São Paulo no final de outubro de 2020, o Palmeiras vivia em estado de emergência desportiva. A demissão de Vanderlei Luxemburgo gerava uma crise de rumo e de resultados num balneário pesado, desconfiado e sob protestos veementes da bancada. Do outro lado do Atlântico chegava um técnico português jovem, com passagem pelo SC Braga e pelos gregos do PAOK, mas cujo currículo exibia uma folha em branco no que tocava a troféus de topo. Naquele cruzamento de destinos, a carência mútua parecia desenhada à medida: o Verdão precisava de um método; Abel precisava de um palco. Faz hoje precisamente seis anos e esta é uma história de superação, de muito trabalho e de glória constante.

O impacto foi quase instantâneo. Em poucos meses marcados pelas restrições da pandemia, o Palmeiras ergueu a Copa Libertadores de 2020 no Maracanã frente ao Santos e arrecadou a Taça do Brasil. Meses volvidos, no relvado Centenario de Montevideu, a vitória épica contra o Flamengo de Renato Gaúcho selou o bicampeonato continental consecutivo.

A equipa ganhou alma, pragmatismo e um lema que extravasou os relvados: «Cabeça fria, coração quente». Seguiram-se dois títulos do Brasileirão (2022 e 2023), uma Recopa Sul-Americana, a Supertaça e uma série de conquistas do Campeonato Paulista. Com 11 troféus oficiais no bolso, Abel descolou de lendas como Luiz Felipe Scolari e bateu a marca histórica de Oswaldo Brandão, tornando-se o treinador mais laureado dos 112 anos do clube.

Diante de números que rivalizam com as maiores dinastias do futebol mundial, a imprensa brasileira já não hesita em colocar o treinador português no patamar mais alto da história do Palmeiras. Mas a grande particularidade de Abel Ferreira reside no facto de esta obra ainda se encontrar em aberto.

ASSOBIOS EM TEMPO DE FARTURA

Ainda assim, no futebol sul-americano a rotina do sucesso nem sempre é suficiente, a arte é uma exigência, ganhar nunca é demais. Como têm documentado crónicas recentes, os últimos tempos trouxeram ruído incomum ao Allianz Parque.

Mesmo com o clube a disputar todas as frentes de topo, surgiram assobios da bancada e cobranças públicas de setores organizados, motivados por períodos de oscilação exibicional e pela saturação em torno de opções táticas.

Abel, conhecido pela frontalidade, homem e treinador que vive a linha lateral com intensidade, tem deixado alguns desabafos sobre o calendário e as arbitragens no Brasil, vê-se perante o paradoxo dos grandes vencedores: transformou o excecional na obrigação de todos os dias. Mas lado lado sempre a presidente, Leila Pereira, líder de um projeto e apoio constante de um treinador que sabe que é o homem certo e que merece esse suporte pela glória que levou ao clube paulista.

Aos seis anos de casamento, entre o amor eterno das taças e o desgaste das exigências imediatas, Abel Ferreira continua a responder onde sempre fez a diferença: no banco de suplentes, à procura de fechar a temporada a reescrever, mais uma vez, o livro dos recordes.

Ainda é cedo para festas (as que vão além dos seis anos de uma ligação de sucesso), mas por esta altura o Palmeiras discute com o Flamengo a conquista do Brasileirão, está na final da Copa dos Libertadores com os argentinos do Estudiantes, e ainda pode chegar ao triplete, já que nas meias-finais da Taça do Brasil está em vantagem sobre o Vasco da Gama ao ter vencido por 1-0 na primeira mão.

Tudo isto com a capacidade de formar jogadores para depois os vender por verdadeiras fortunas para os mais ricos clubes do Mundo.

Veja-se como exemplos Endrick (vendido ao Real Madrid por 47,5 milhões de euros), Estêvão (Chelsea, 45 milhões), Allan (Manchester City, 37,5), Vítor Reis (Manchester City, 37) ou Richard Ríos (Benfica, 27).

E com mestria, o treinador soube manter a equipa competitiva e não deixa de ser relevante que da equipa que conquistou a Copa dos Libertadores, apenas dois jogadores permanecem (Piquerez e Gustavo Gómez).

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