José Maria Pedroto, um treinador marcante na história do FC Porto e do futebol português - Foto: A BOLA
José Maria Pedroto, um treinador marcante na história do FC Porto e do futebol português - Foto: A BOLA

(Re) visitar Pedroto — o profeta

'Tribuna Livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de José Neto, Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto; Formador de Treinadores FPF/UEFA; Docente universitário – Universidade da Maia; Embaixador Nacional para a Ética e 'Fair Play' no Desporto

Uma vez mais (como ao longo do tempo tem acontecido), o dia 7 de janeiro é objeto duma singular, mas significativa atividade no Auditório Dr. Sardoeira Pinto — Museu do FC Porto.

Como referia, ao longo do tempo, já lá contam 41 anos de despedida de Mestre José Maria Pedroto, procuramos cultivar a memória com um sentimento de gratidão e muita saudade. Este ano o tema em apresentação e debate focou-se nas profecias do treinador, viajando em paralelo com algumas das notas expressas no livro recentemente por mim publicado, Em Nome da Vida, e cuja editora já colocou nas bancas.

A primeira profecia tinha a ver com a qualificação do treinador, não apenas nos aspetos de ordem técnica, mas fundamentalmente na qualidade intelectual e académica.

Para tal se verificou a qualificação académica escolar do Mestre, com fundamentos de ordem superior, mas sobretudo quando inserido num dos cursos mais prestigiados do mundo, promovido pela Federação Francesa de Futebol nos anos 60, onde atingiu a nota máxima.

Verificamos hoje a importância das bases teóricas do conhecimento no sentido de validar de forma mais credível as suas competências dum saber sustentado. Eram bem evidentes para Mestre Pedroto a premissas que agora se ajustam à conquista do êxito: a) ensinar o que se sabe — dignidade moral; b) aplicar o que se ensina — a prática como critério da verdade; e c) questionar o que se duvida — humildade intelectual. De facto, o mestre Pedroto era uma pessoa que fazia do conhecimento uma dúvida permanente e da resposta uma incerteza que necessitava de ser justificada.

Fui testemunha destas temáticas bem referenciadas por outro dos meus mestres (pai de afetos) Professor Doutor Manuel Sérgio, que tinha com Mestre Pedroto uma afiliação de exemplar compromisso e proximidade. E até confesso que foi através do Sr. Pedroto que fiquei a conhecer esse outro dos profetas a quem o desporto em Portugal (e não só) tanto deve e que ao longo do tempo jamais me cansarei de aludir. O então e saudoso filósofo referia que «teoria sem prática é uma pura especulação e prática sem teoria uma mera repetição; só com a conjugação destas duas vertentes é que poderemos sustentar a hipótese para a aquisição do êxito».

A segunda profecia tem a ver como sendo o primeiro treinador a constituir equipas técnicas, ultrapassando a generalidade conhecida por apenas um treinador e um adjunto, geralmente na função de treinador de guarda-redes. Com Mestre Pedroto iniciou-se uma nova era de multiplicidade de funções: Metodólogo de treino; Assessor técnico/tático; Médico especialista em medicina desportiva; Observador e análise do Jogo.

Neste último domínio fiquei a assumir essa função, novidade em Portugal (e não só), encontrando a resposta da eficiência e tratamento do jogo para o treino, sendo este adaptado às circunstâncias para um rendimento do adivinhado sucesso.

Observar e analisar o jogo, elaborando dados estatísticos, recolhendo os fenómenos de jogo de forma relacionada e inteligível, desproblematização de hipóteses explicativas e justificada transferência para a metodologia de treino semanal, ensaiando notas explicativas para o rendimento, tendo o sucesso como limite ou talvez o princípio para a administração dum novo ciclo. Sem recorrer a câmaras de filmar, nem às atuais técnicas de uso do GPS, se fez uma parte da história do meu temp(l)o sagrado.

Isso está tudo documentado quer na imprensa nacional, quer na imprensa internacional, como refere a France Football, personalizando em mim a tarefa de investigação, quando eu era apenas e somente um simples servo. Mais uma prova internacional das profecias do Mestre, já que hoje se torna uma área absolutamente necessária numa estrutura técnica, com mestrados a ser constituídos nas universidades com base na tal doutrina de Mestre Pedroto (1982): «OLHA PARA O JOGO QUE ELE TE DIRÁ COMO DEVES TREINAR.»

A terceira profecia advém da anterior, isto é, a convocação para a instrumentalização das várias ciências para a construção do êxito, atualmente referenciadas, tais como: biomecânica, fisiologia, nutricionismo, psicologia, antropologia, neurociência, análise do jogo, comportamento e scouting, treino específico de recuperação de lesões e investigação personalizada de rendimento, medicina desportiva, mentorização, etc…, sendo o treinador como gestor de todas estas competências, capaz de apelar à participação e responsabilização de todos, obtendo várias soluções para o mesmo problema, transferindo para o princípio do coletivo coeso, absolutamente indestrutível, fazendo da equipa um modelo solidário, emocionalmente resistente e potencialmente imaculado.

Para Mestre Pedroto, ai de quem não funcionasse com bases dos princípios de lealdade e responsabilidade partilhada, na reunificação das ideias para a consolidação desta causa, mais tarde interpretada por um código sagrado: SER PORTO!...

Na quarta profecia poderemos reunir os dois aspetos, quer no âmbito da liderança e comunicação. Neste âmbito, Mestre Pedroto distintamente evocava o capítulo da liderança como um conjunto de valores onde a inteligência, a visão, a empatia, a resiliência, o altruísmo e o poder da linguagem (verbal e sobretudo não verbal) se assumiam como foco energético que sustentava as suas convicções. Nem imaginam como funcionavam as palestras indiciadoras de remoção de atitudes que ora a palavra problema era omitida, ora o termo desafio era enfatizado, transportando na alma as pegadas da experiência vivida e no rosto o certificado da esperança. Por vezes sentia que os intervalos do seu longo silêncio se transformavam numa arte, para preparar para quem vai para a luta para GANHAR!...

Em termos de comunicação, a sua relação com os demais era sempre com base na confiança e no otimismo: as suas mensagens eram sempre diretas; assumia com coerência o que pretendia dizer; comunicava sempre com base na formulação de objetivos quer de ordem positivos, quer ao nível da dificuldade de obtenção, mas sempre encorajadores e realistas. Rompia conceitos, desafiava o erudito e encorajando o intranquilo. Para quem entrava em desespero e agonia e se deixava deprimir mais facilmente, usava compromissos de honra, sem caráter público depreciativo. Regra geral chamava-os ao seu gabinete e… confiava neles!...

Ainda hoje, as reflexões para as modernas pedagogias de assunção de lideranças para a construção do êxito, assim o confirmam. No entanto, para alguns que julgam que, e nomeadamente no Futebol nada mais há a aprender, ou tudo já está inventado, a profecia do Mestre Pedroto, releva para a circunstância de que a não obediência a esses valores, pode ser o precipício da causalidade para o insucesso.

Por último a referência à quinta profecia. Aqui deverá ser enquadrada a filosofia comportamental de outro Mestre por quem Pedroto nutria uma proximidade plenamente justificada de permanentes contactos e que devotadamente referia: «Antes de conhecer o jogador que joga, devo conhecer o homem que nele habita. O que se deve estudar é o ser humano, num movimento intencional de transcendência, porque não há remates, mas pessoas que rematam, nem defesas, mas pessoas que defendem, nem fintas, mas pessoas que fintam. Se não conhecer as pessoas, não sou capaz de compreender nem os remates, nem as defesas, nem as fintas.»

Continuando a doutrina do Professor Doutor Manuel Sérgio, sendo também este considerado por Mestre Pedroto um PROFETA: “No jogador deveremos encontrar o estudo do corpo em ato onde a carne, o sangue, o desejo, o prazer, a rebeldia, as emoções, os sentimentos, a imaginação, o raciocínio, a capacidade intuitiva, tudo apontando para uma lógica de consciência, que deve orientar o indivíduo no seu todo (físico, técnico, tático, social, mental e espiritual), tudo isto visando a solidária transcendência pela superação.»

De facto, para Mestre Pedroto, que me confirmava as ideias que o PROFESSOR defendia, e até considerava este filósofo como um profeta, pois lhe parecia sem dúvida que no Desporto e em especial no Futebol, a primazia do humano na sua globalidade deve estar presente, adiantando que não pode haver preparo de ordem física, independente do modelo de jogo e porque o todo deve ser uma referência constante pela sua complexidade, a ciência e a consciência não se pode limitar aos gastos neuromusculares e energéticos. Daí a origem a uma nova ciência, da motricidade humana, em que não se investiga um movimento qualquer, mas movimentos intencionais com significado e sentido renovado, fazendo de «cada gota de suor, um grão do pensamento».

Tão distantes no tempo e tão próximos nas ideias. Teria porventura muito mais para dizer, não sendo, contudo, nada fácil articular muitas das palavras com o que o coração se nos oferece. Vou aprendendo que na vida, por vezes, temos de enfrentar uma longa viagem, feita de saudade e que só o silêncio saberá explicar!...

Foi deste modo que, perante distintos convidados e colegas, que muito nos honraram com a presença, estiveram selecionados nesta AULA ABERTA os melhores alunos do 1.º semestre de cada turma dos cursos de Educação Física e Gestão de Desporto da minha Universidade da Maia que atingiram elevados níveis de avaliação neste 1.º semestre 2025/26, tendo de seguida feito, como habitualmente, uma visita a um dos museus mais representativos e cuja funcionalidade foi considerada de nível mundial. Um prémio que jamais deixará de ser recordado!...

Resta-me agradecer ao Presidente do FUTEBOL CLUBE DO PORTO, André Villas-Boas, e aos responsáveis diretivos do Museu, Eng.ª Mafalda Magalhães e Dr. Jorge Maurício, pela excelente prestação de apoio habitualmente concedido, sem esquecer o ex-Diretor, mas sempre presente, com a magnitude da sua competência, o meu distinto amigo Fernando Rola, esta oportunidade de continuar a cultivar a MEMÓRIA, GRATIDÃO E SAUDADE de MESTRE JOSÉ MARIA DE CARVALHO PEDROTO.