Em entrevista a A BOLA, António Oliveira recorda um episódio insólito da passagem pelo Irão, como adjunto do pai, Toni

«Amir, sabes o que é uma pá? Diz ao presidente para pegar numa e tapar o buraco»

Antes de se aventurar como treinador principal e de rumar ao Brasil, António Oliveira foi adjunto do pai, Toni, no Médio Oriente. E revela um episódio particularmente... caricato!

Vamos puxar atrás a fita do tempo. No Tractor, do Irão, foi adjunto do seu pai [Toni]. Quão difícil foi dissociar o aspeto profissional do familiar?

— Já o disse anteriormente: foi nessa altura que conheci realmente o meu pai. Conheci-o no sentido de ter vivido um Big Brother com ele. Tivemos de partilhar coisas que até então não tínhamos partilhado. Tive conversas que nunca tinha tido com ele. O meu pai, fruto do seu trabalho, era uma figura pouco presente. A minha mãe é que fez de pai e de mãe. Por isso, ele era uma figura que eu via como um ídolo, quase inalcançável. Viver só com ele sob o mesmo teto foi totalmente diferente de viver em regime familiar. Partilhámos tudo: rimos, chorámos e celebrámos. Tivemos poucas frustrações e vários momentos muito felizes. Conquistámos o primeiro troféu da história do Tractor, algo que guardo com muito carinho. Conquistar um troféu daquela dimensão, ao lado do meu pai e para um povo como aquele... Naquele momento, já podia morrer feliz. O Irão é um país riquíssimo, que, infelizmente, atravessa um período crítico. Mas posso dizer, ainda que às vezes as palavras sejam perigosas, que mais de 90% das pessoas gritavam por algo que lhes fazia falta há 40 anos.

Foi nessa altura que conheci realmente o meu pai, no sentido de ter vivido um 'Big Brother' com ele

Nesse já vasto percurso, qual a situação mais insólita ou caricata que viveu?

— Vivi várias situações, principalmente no Irão. Desde situações para rir até terramotos. Houve um dia em que eu, o João Vilela e o Anselmo dormimos na rua, com medo de réplicas. Mas são experiências enriquecedoras. Há um episódio engraçado que se destaca. O presidente do Tractor tinha um grau hierárquico militar alto. Uma vez, empatámos em casa e o presidente convocou uma reunião técnica para questionar a competência do meu pai. O presidente começou a falar em persa e o tradutor, que era o Amir, disse: «Míster, o presidente diz que a equipa tem um buraco no meio-campo». O meu pai ficou 30 segundos em silêncio e lá perguntou: «Amir, sabes o que é uma pá, para escavar? Então diz ao presidente, com todo o respeito, para ele pegar numa pá e ir tapar o buraco que vê no meio-campo.» Quando a tradução foi feita, o presidente ficou sisudo e respondeu: «Mas sou eu que lhe pago!» E o meu pai ripostou: «Diz-lhe que ele não me paga, deve-me quatro meses! E diz-lhe que, para falar comigo, tem de pagar primeiro. Em segundo lugar, que não convoque mais estas reuniões, porque ele não tem competência técnica para debater futebol comigo!» Se fosse um treinador com menos estatuto, tinha sido despedido na hora, certamente… São realidades diferentes.