«Veria Portugal com bons olhos»: é capitão do carrasco do Real Madrid e tem origens lusas
Eis mais uma surpresa genealógica vinda de Espanha! Depois de A BOLA ter revelado, na semana passada, que Ángel Algobia (do Aves SAD) tem origens na aldeia de Rabal (Bragança) e é primo afastado do primeiro-ministro, Luís Montenegro, chegou a vez de descobrir as raízes lusitanas de outro atleta castelhano: Kike Barja.
O capitão do Osasuna - clube em especial destaque depois de, no sábado, ter derrotado o Real Madrid (próximo adversário do Benfica na Liga dos Campeões), por 2-1 -, também tem sangue transmontano e, curiosamente, no distrito de Bragança, tal como Algobia.
A A BOLA esteve à conversa com Kike Barja, depois da vitória «memorável» dos rojillos diante los blancos: «Aqui há uma rivalidade muito grande contra o Real Madrid. Os adeptos e os jogadores tinham muita vontade jogar contra eles. Acho que foi essa motivação extra que fez com que tivéssemos feito um grande jogo. E, depois, ganhar com um golo para lá do minuto 90... imagina a euforia que é! Foi super especial e bonito, ainda por cima estávamos há 15 anos sem lhes ganhar no nosso estádio.»
Mas, antes de mais, percebamos a ligação do extremo, de 28 anos, a Portugal. Kika Barja Afonso é filho da portuguesa Maria Afonso, que nasceu em Cerdedo (uma pequena aldeia do concelho de Vinhais), a 16 de outubro de 1965, e cresceu na Moimenta da Raia (povoação ali ao lado), como contou a A BOLA. «Éramos 12 irmãos. Em Cerdedo não conseguíamos viver todos e os meus pais foram para a Moimenta para trabalhar nas terras.»
Maria, a 11.ª dos 12 irmãos da família Afonso, emigrou para Espanha com apenas 15 anos, «para trabalhar num hotel, n'O Pereiro», localidade em Espanha, perto da fronteira com Portugal, pela Galiza. «Foi lá que conheci o meu marido. Começámos a namorar, casámos e, depois, ele arranjou um emprego melhor em Pamplona e mudámo-nos», recordou.
Foi já em Navarra que nasceu Kike, o único pamplonica da família e aquele que viria, anos mais tarde, a ser uma dos ídolos do clube cidade: «As minhas duas filhas nasceram, antes, na Galiza, em Ourense. O Kike já veio nascer em Pamplona. É o único Navarro da família.».
Navarro, pamplonica e rojillo
Na entrevista, Kike Barja expressou o amor que sente pelo clube da sua vida. É um rojillo dos de certo - daqueles que, como diz o lema do clube, nunca se rinde - e, em toda a carreira (de formação e profissional), nunca carregou outro emblema a não ser o do Osasuna. Não é por acaso que o extremo é um dos capitães do conjunto de Pamplona.
«O sentido da minha vida gira à volta do Osasuna. Estou aqui desde os 8 anos, vivo do que mais gosto de fazer. Jogo na minha cidade, com os meus amigos, para a minha gente e família. Estão aqui todos os ingredientes que fazem de mim um privilegiado. Estar há tantos anos aqui é a coisa mais importante da minha vida, claramente», salientou.
Ainda assim, desde a chegada de Alessio Lisci (ex-Mirandés) ao comando técnico do emblema espanhol, no início da temporada, o extremo tem tido menos minutos de jogo (já participou em 19 jogos, mas foi titular em apenas cinco).
A quatro meses do fim do contrato, o craque espanhol (que representa a seleção do País Basco) não descarta totalmente uma eventual saída: «Gostava de ficar no Osasuna, porque é o clube da minha vida. Tenho na cabeça o desejo de jogar aqui a vida toda, mas também estou aberto a outras possibilidades. O futuro dirá. Faltam poucos meses para acabar a época e o contrato. Veremos…»
Kike a Portugal?
Questionado sobre a possibilidade de jogar no campeonato português, dada a ligação, o avançado admitiu que a veria com agrado: «Nunca sabemos o futuro, mas a verdade é que se Portugal fosse uma boa opção a veria com bons olhos, porque tenho essa conexão, que ajuda. Ir jogar para Portugal é uma ideia da qual já falei com a minha família e amigos. É claro que não descarto, porque a nossa carreira é curta e não sabemos o que se pode passar no futuro.»
Kike Barja assumiu que tenta seguir de perto a liga portuguesa, onde até tem alguns amigos: «Há muitos jogadores que conheço da liga portuguesa, como o Barbero (Arouca), Xabi Huarte (Tondela), que é da formação do Osasuna, e Fran Navarro (SC Braga). Também sou amigo do Toni Martínez, que jogava no FC Porto, e, por isso, tento acompanhar.»
Curiosamente, o número 11 do Osasuna não sabia quem era o seu o conterrâneo transmontano, Ángel Algobia (ex-Levante, Getafe e Rayo Vallecano), de quem as respetivas origens maternas - Rabal e Moimenta da Raia - distam de apenas cerca de 30 quilómetros.
Dos 12 irmãos, mais nova do que Maria só Adelina, mãe de Paulo, que é, por seu turno, primo de Kike, e com quem A BOLA também conversou. «Da última vez que fui a Pamplona vê-lo jogar disse-lhe, na brincadeira, para vir jogar para Portugal, e ele disse que até gostava.»
Mas «o Osasuna significa tudo para ele. A sua casa dele é aqui, foi aqui que esteve sempre, não conhece outra coisa. Por ele, acabaria aqui a carreira», garantiu a mãe.
Paulo, de 25 anos, que em janeiro assistiu ao Osasuna 1-1 Athletic Bilbao, no El Sadar e com quem Kike jogava em criança quando ia à Moimenta, revelou que o primo «anda com vontade de vir a Portugal», coisa que não tem conseguido fazer, desde que o futebol entrou na sua vida mais a sério.
«Gosto de ir à aldeia da minha mãe ver a minha família, que vejo pouco. Apesar de ir menos do que gostaria, estou sempre unido a Portugal, porque tenho lá os meus tios e os meus primos», confirmou o internacional pelas seleções jovens de Espanha.
Queixou-se de Vini Jr. em 2023
Kike Barja fez parte de um dos momentos mais bonitos da história da formação de Pamplona: a final da Taça do Rei de 2023, contra o Real Madrid. O Osasuna perdeu 2-1, tendo sofrido dois golos de Rodrygo (Lucas Torró marcou para los rojillos), mas este não foi o único internacional brasileiro do qual os de Pamplona tiveram queixa.
Dois dias depois da final, no podcast El Larguero, da Cadena SER, Kike Barja lamentou as atitudes de Vinícius Júnior para com os jogadores do Osasuna: «Moncayola [amarelado na primeira parte] disse que ele estava constantemente a dizer-lhe coisas para o provocar e tentar arrancar-lhe o segundo amarelo.»
«É um jogador que tem este tipo de problemas com todas as equipas. Quando assim é, também tens de olhar um pouco para ti e ver o que podes melhorar e corrigir. Devia concentrar-se mais em jogar, porque tem um talento incrível, mas acho que sai muito facilmente do jogo e entra em provocações… Provoca, faz gestos para a bancada, celebra na cara dos adversários sem qualquer sentido, com fez ao Lucas Torró num dos golos [da final supramencionada]… Tem de ser mais humilde e reconhecer que também tem parte da culpa neste problema maior que não favorece ninguém», considerou.
Agora, quando questionado sobre o caso de alegado racismo a envolver Vinícius Júnior e o benfiquista Prestianni, o jogador espanhol sublinhou, desde logo, que não sabe o que se passou, referindo apenas que condena todos os tipos de discriminação: «A única coisa que posso dizer é que não se pode permitir nenhum comportamento discriminatório, seja racista, homofóbico, sexista, ou de outro tipo. O desporto tem de representar valores positivos para a sociedade e para as crianças. Eu não estava lá, não sei o que se passou, mas há comportamentos que não podemos ter. Temos de dar o exemplo.»
Ainda sobre a eliminatória que opõe águias e madridistas, para a Liga dos Campeões, o jogador (que representa a seleção do País Basco) antevê uma segunda mão muito emocionante, especialmente para os benfiquistas: «Se há competição onde o Real Madrid é forte e tem história é na Champions, ainda mais no seu estádio. Será um jogo difícil para o Benfica, mas nunca se sabe... Equipas grandes, como o Benfica, são capazes de ir ao Bernabéu ganhar. Vai ser um jogo bonito de se ver e acredito que para os adeptos do Benfica será muito emocionante.»