Que Vitória queremos?
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A imprevisibilidade do futebol assenta num conjunto de fatores que as mais das vezes escapam ao adepto, que os não compreende ou domina. Os fatores de psicologia coletiva escapam-me ao nível da compreensão interventiva, mas são do mais determinante que existe numa equipa de futebol, é aliás linear perceber-se que se os fatores motivacionais são relevantes em todas as profissões, inclusive naquelas em que a pessoa é um mero complemento de uma máquina, que fará naquelas profissões em que a pessoa é a própria máquina. Por isso onde me sinto bem é como adepto, pela dificuldade que tenho em lidar com o que não compreendo ao ponto de sobre isso poder atuar.
Por outro lado, na inversa, as principais equipas do nosso campeonato (e de outros) igualmente constituídas por seres humanos, parecem menos expostas aos fatores desta natureza, ou nota-se menos porque apesar de nem sempre cumprirem os seus objetivos, conseguem sempre manter os mínimos dentro daquilo que lhes é exigido; que é o que não acontece — manifestamente — com o meu Vitória.
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Não fui favorável à mudança de treinador no início da época (como aqui disse, aliás). Nada que ver com Luís Pinto ou mesmo com o risco que poderia comportar a aposta num treinador menos experiente, mas apenas porque me pareceu pouco avisado; numa altura de revolução como a que operámos para esta época, o garante da estabilidade deveria ser precisamente esse, sendo que Luís Freire tinha feito o suficiente para poder ter essa confiança, além de tal opção ser pacífica para os vitorianos. No entanto, Luís Pinto fez-me mudar de opinião. Apreciei bastante a sua postura, a disposição tática das suas equipas e a mentalidade ofensiva que conseguiu imprimir na equipa, mesmo que por vezes esse risco nos expusesse a derrotas. Foi o que disse aliás após o jogo com o SC Braga.
Compreendi a razão da aposta num treinador jovem e com futuro — uma marca do Vitória como faz com a idade e proveniência dos seus atletas. No entanto, o que aconteceu nos jogos após a inglória derrota em Braga é incompreensível sob todos os pontos de vista.
A postura que a mesma equipa apresentou frente ao Alverca e agora em Ponta Delgada, não pode ser tolerada. Desconheço totalmente o que possa ter estado na origem, mas verificando a saída do treinador (ainda sem saber se por sua iniciativa), facilmente posso imaginar que algo mais esteja por trás da postura incompreensível dos mesmos atletas que venceram a Taça da Liga derrubando FC Porto, Sporting e SC Braga.
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Este é, quanto a mim, o grande desafio para o futuro do Vitória. As nossas equipas podem estar expostas a toda a série de fatores que influenciam o desempenho das equipas de futebol, mas há mínimos que têm de ser cumpridos. E esses mínimos estão na postura, no querer, no profissionalismo e, claro, nos resultados.
O Vitória tem pergaminhos que não pode desonrar, o Vitória tem de acrescentar camadas sobre o que fez no passado muito recente (três qualificações consecutivas para as competições europeias) que se pretende não seja a exceção, mas a regra. E sem prejuízo da enorme conquista obtida para o nosso palmarés, é manifesto que não o estava a conseguir. E face a isso, algo tem de ser feito. Não apenas para agora, mas sobretudo para o futuro.
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