Mulheres ao poder: quando elas conseguem chegar lá (vídeos)

Histórias e experiências de como foi ou está a ser para estas cinco mulheres do Desporto construir uma carreira e alcançar lugares de tomada de decisão. A importância de abrir portas para que outras se sigam e a dedicação extra para ultrapassar a desigualdade

Cinco mulheres com vidas e carreiras dedicadas ao Desporto. Cinco mulheres que conseguiram chegar a cargos e funções com poder para mudar algo. Cinco mulheres que abrem as portas para as que vierem a seguir. Desigualdades, sobrecarga, barreiras foram palavras muitas vezes ditas nesta série de entrevistas de A BOLA a propósito do Dia da Mulher, que se assinala este domingo.

«Este dia permite que o foco esteja, infelizmente, nas desigualdades que vamos encontrando no dia a dia, nas carreiras, na vida. E permite-nos contribuir para que seja melhor para quem vem a seguir e para nós nos tempos futuros», resume Sofia Teles, diretora da Federação para o futebol feminino.

No dirigismo desportivo, ter uma mulher a mandar ainda é uma exceção. «Vejo inúmeras mulheres nas equipas, mas depois não vejo as mulheres a chegarem aos cargos de topo. As mulheres pretendem uma igualdade de oportunidades e eu não sinto que as estruturas desportivas no geral a tenham, nomeadamente em cargos organizativos de topo», referiu Ana Teixeira, diretora de Comunicação da Federação de Andebol.

Daí ser relevante mostrar estes exemplos, de quem chegou lá, muitas vezes pela primeira vez. «Mais recentemente, obriguei-me a pensar na temática por algumas circunstâncias e refletir sobre o momento atual dos dirigentes desportivos em Portugal, a refletir um pouco sobre o meu percurso, se tinha havido algum constrangimento por ser mulher ou não. E apercebi-me que realmente eu fui a primeira mulher a chegar a determinados cargos no Judo. A primeira mulher diretora-desportiva, a primeira mulher head sports director, a primeira mulher vice-presidente para a área desportiva», refletiu Catarina Rodrigues, vice-presidente da União Europeia de Judo.

Para que hoje isto comece a ser possível, outras mulheres tiveram de antes desbravar caminho. Foi o caso de Jenny Candeias, de 90 anos, que foi atleta, treinadora, professora e responsável pelo lançamento da ginástica rítmica em Portugal. «Houve dificuldade com a ginástica rítmica, com o lançamento deste Desporto só de mulheres, praticado por mulheres, ajuizado por mulheres, numa Federação que era essencialmente de homens. A ginástica tem mais mulheres do que homens, mas os dirigentes são mais homens do que mulheres. Eu não tinha aquele apoio tão grande da Federação, mas a rítmica teve uma grande vantagem porque oficialmente, em Portugal, nasceu com 25 de Abril de 1974. Nesse ano teve o primeiro torneio e em 1975 o primeiro campeonato nacional. Dizer não a um Desporto de mulheres naquela altura não era muito simpático…», disse, entre sorrisos de quem venceu essa barreira.

Muita coisa mudou entretanto, mas uma coisa é certa: a gravidez e maternidade são decisões muito ponderadas – e várias vezes adiadas - por uma mulher no Desporto. Foi o caso de Cátia Azevedo, atleta de alta competição do Atletismo, membro da Comissão de Atletas Olímpicos e enfermeira. No final do último ciclo olímpico, após Paris 2024, a conversa lá em casa com o marido (o também atleta olímpico Tsanko Arnaudov, do lançamento do peso) começou a ser «como colocar uma criança no meio de dois treinos de atletas olímpicos».

«Não havia espaço e tempo para eu ser mãe. O pai não está a gerar a vida e não pára a vida durante nove meses. É incompatível uma carreira de alta competição com uma gravidez. Foi uma das coisas que eu sempre atrasei e esperei pelo momento ideal», admitiu Cátia, agora grávida do Afonso, e confessando também o «choque» do quanto mudou a sua vida e o seu corpo.

«É uma mudança que nós não estamos tão preparadas quanto nós achamos. A nossa vida fica sempre em stand by e a alteração corporal… Para mim foi um choque. As debilidades corporais foram um choque e depois o ficar quieta a ver na televisão e a vida continuar e nós é que ficamos ali… . Eu estou de baixa médica, o pai continua a vida dele até ter o bebé na vida normal dele. O pai agora sai para treinar e a mãe está no sofá...» O regresso aos treinos será a seu tempo e o objetivo desportivo da já três vezes participante dos Jogos Olímpicos continua traçado: «Eu queria muito mudar agora para os 800 metros [até agora esteve nos 400m], fazer uma transição em termos desportivos. Los Angeles 2028 está lá e é o grande objetivo.»

A LUTA DIÁRIA PARA PROVAR MAIS

Perante a falta de oportunidades, ou as que chegam mais tarde do que deviam, o que fazer? «Normalmente as mulheres têm de provar mais, fazer mais, têm de se dedicar mais, de ter resultados melhores para conseguirem ser vistas», afirmou Sofia Teles.

Ana Teixeira chamou-lhe mesmo uma «luta diária» e acrescentou: «As mulheres têm mais necessidade de provarem a sua competência do que os homens. Nós tentamos sempre dar um extra que às vezes não é necessário, mas que na nossa cabeça isso faz de nós melhores profissionais, para não termos uma comparação com os homens.»

Ver outras mulheres em lugares de poder pode ajudar a acreditar que essa oportunidade vai chegar. A presidência do Comité Olímpico Internacional está agora nas mãos de uma mulher (Kirsty Coventry), por exemplo, e não é por acaso que várias das entrevistadas a referem. «É importante haver modelos e isso nós vamos começando a ter. É importante que as mulheres e as raparigas que estão no Desporto percebam que isto é uma saída e é uma possibilidade», explicou Catarina Rodrigues.

E o que pode mudar tendo mais mulheres a poder decidir o presente e futuro de atletas? «Quase todos os nossos dirigentes, das entidades desportivas, são homens. Não estou a dizer que não me senti compreendida por serem homens, mas uma mulher vai apoiar de uma forma diferente. A voz de uma mulher vai conseguir expor melhor a causa da maternidade, da amamentação, porque é uma voz de experiência e uma voz de prática, uma voz de conhecimento», defendeu Cátia Azevedo.

«As mulheres têm características ligeiramente diferentes dos homens. E é nessa combinação que eu acho que nós conseguimos ter melhores decisões, porque conseguimos trazer perspetivas diferentes, pontos de vista diferentes», completou Sofia Teles. Já Catarina Rodrigues, «habituada a ser a única mulher na mesa» de decisões, acredita que, com maior paridade, vêm aí «decisões mais justas».

Após uma carreira inteiramente dedicada ao Desporto, Jenny Candeias deixa uma palavra de incentivo a meninas e mulheres que estejam agora a começar: «É fundamental para a mulher a prática desportiva de qualquer nível, vencendo barreiras, e até no aspeto da própria sociedade, dos limites que nos impõem. Para mim fica a satisfação de ter feito muitas coisas que queria e ter chegado aos lugares onde pretendia chegar.»

MAQUILHADA: PORQUE NÃO?

«Os corpos dos homens nunca se vê ninguém a comentar», desabafou Cátia Azevedo. «Muitas das vezes nós passamos as coisas mais em silêncio. Eu acho que no Desporto se sente mais em silêncio, com medo do julgamento, porque nós aprendemos a ser imbatíveis por dentro e por fora. Não temos espaço para ter dor, não temos espaço para ser uma mulher, por exemplo, feminina. Maquilhagem? ‘Ah, que ridícula! Maquilhou-se tanto para correr!’»

Trabalhar num mundo maioritariamente masculino traz técnicas de defesa para sobreviver. «Sou bastante assertiva em muitas situações e então não existe tanto [espaço para insultar ou assediar por ser mulher]. Não dou abertura e proximidade para que isso aconteça. Se é uma forma de defesa? É, claro…», respondeu Ana Teixeira.

Já o Desporto feminino pode ser, muitas vezes, um espaço seguro. «O futebol feminino tem valores muito próprios da inclusão, do respeito... Continuamos a ir ver um Benfica-Sporting na Luz ou em Alvalade e vemos que o público está misturado, que as famílias vão em conjunto ao futebol e uns se calhar são de um clube e outros do outro. E isso é natural no futebol feminino e é algo que nós queremos preservar. O futebol feminino pode trazer aqui um espaço diferente para quem gosta de futebol. Temos mais crianças, mais famílias, pessoas mais velhas a virem ver os nossos jogos. Um porque gostam de jogo, outros porque se sentem confortáveis a vir ver o jogo connosco e nós temos de proteger esse ambiente, essa cultura e esse espaço», concluiu Sofia Teles.