Há um cheiro a medo no ar
Confesso que fico sempre sem saber o que responder quando me perguntam se não tenho medo de levar os miúdos a jogos grandes que, infelizmente, depois de muitos anos de conflitos e tragédias, acabaram por ser classificados como de alto risco — e digo já que só esta designação já é suficiente para me provocar urticária. Se nos soubéssemos todos comportar como os seres humanos decentes que se esperaria que fôssemos, não seria preciso classificar um evento desportivo desta forma ou criar planos de segurança altamente detalhados para evitar desgraças. E sim, eu sou a primeira a assumir a irracionalidade que nos domina quando o tema é a paixão clubística. Mas até para essa irracionalidade é suposto existir um limite.
É claro que a história nos mostra que tem razão quem teme. Não sei se todos os leitores desta coluna se recordam ou ouviram falar do mundialmente conhecido Heysel Stadium Disaster, mas, para os que possam não saber a que me refiro, deixem-me resumir os acontecimentos. Ora, no dia 29 de maio de 1985, em Bruxelas, durante a final da Taça dos Clubes Campeões Europeus de futebol que opunha Liverpool e Juventus, o colapso de um muro provocou trinta e nove mortos e cerca de seiscentos feridos. Acontece que, obviamente, o muro não colapsou do nada. Na verdade, o que aconteceu foi que os adeptos do Liverpool, saberá Deus com que motivação, decidiram romper a vedação entre o setor que lhes estava destinado e a área neutra do estádio, obrigando os adeptos da Juventus ali presentes a recuar. Só que o recuo foi de tal ordem que uma multidão acabou prensada contra o tal muro de betão que, não aguentando, colapsou. Dezenas morreram esmagados e asfixiados. Já agora, como nota, deixem-me referir que foi esta tragédia que originou a suspensão dos clubes ingleses das competições europeias por cinco anos (o Liverpool por seis) e que levou a que fosse repensada toda a segurança dos estádios de futebol.
E se é verdade que muito se melhorou desde esta altura, também é verdade que ainda faltam muitos passos. E que continua a existir gente nos estádios, a quem até me dói chamar adeptos, que pouco contribui para dignificar o espetáculo ou para a segurança do mesmo. Ainda assim, honestamente, recuso-me a aceitar que os que vão por bem tenham de ceder e ficar em casa. Sabem aquela frase que diz que o mal ganha quando o bem se cala? Também neste contexto me parece bastante aplicável.
E chego até aqui para dizer que levei os meus filhos ao jogo de há exatamente uma semana e que opôs o Sporting ao FC Porto, na primeira mão das meias-finais da Taça de Portugal — já agora, permitam-me este aparte, é bom que regressemos rapidamente ao sistema que dispensava as duas mãos e onde cada jogo era muito mais emocionante e os clubes ditos pequenos tinham muito mais hipóteses de surpreender uma equipa teoricamente mais forte. A Taça de Portugal, quanto a mim, quer-se simples e espontânea, sem pretensões a parecer uma competição europeia.
Mas retornando, levei os miúdos, tal como muitos outros pais fizeram — e que bonito é ver um estádio cheio de crianças e a paixão a passar de geração em geração —, e a verdade é que correu muito bem. Ao contrário do jogo anterior entre estas mesmas equipas em Alvalade, desta vez os adeptos comportaram-se e dignificaram o espetáculo. É claro que houve cânticos de picardia. É claro que Alvalade, algumas vezes, se assemelhou a um vulcão prestes a explodir. Mas a verdade é que correu como devia correr sempre.
Foi uma festa bonita, num estádio cheio e repleto de bandeiras, e os sportinguistas saíram satisfeitos com o resultado — ainda que, lá está, esta coisa das duas mãos faça com que esta vitória pareça quase poucochinha. E tinha sido tudo espetacular se o presidente do Futebol Clube do Porto não tivesse decidido, metaforicamente, derramar um bidão de gasolina e acender um fósforo no final do encontro.
Antes de analisar as declarações de André Villas-Boas que levaram, depois, a uma resposta musculada de Frederico Varandas, deixem-me dizer que o Porto parece estar com muita dificuldade em lidar com a pressão nesta fase final do campeonato. E isso faz com que comece a transparecer medo — eu percebo que o histórico do treinador possa causar alguma ansiedade nesta fase, mas a tabela classificativa ainda permite ao Porto respirar com uma tranquilidade que já não se sente para os lados do Dragão. E o grande problema, talvez o maior de todos, é que esse medo mostrado pela estrutura começa a contaminar os próprios adeptos que o espelham em atitudes irrefletidas e que acabam depois por prejudicar o clube ao virarem-se contra a própria equipa. E foi exatamente isso que aconteceu depois do jogo com o Benfica onde os adeptos foram, em bando, atacar Francisco Moura nas redes sociais. E a coisa foi de tal ordem que o jogador teve mesmo de desativar o Instagram para poder proteger-se. Agora imaginemos o dano que uma coisa destas provoca na confiança de um jogador. E sim, conheço bem o argumento do para o que eles ganham têm mais é de ter estrutura psicológica, mas acho que todos sabemos bem que não é assim que as coisas funcionam. Nesta fase do campeonato, uma equipa na posição do Porto, em primeiro lugar na tabela classificativa, tem de sentir-se numa bolha de apoio. E a estrutura do clube tem de perceber que o medo é o primeiro alfinete a furá-la.
Dito isto, as declarações de André Villas-Boas no final do jogo tresandaram a medo. A sensação que fica é que o Porto está a tentar fazer administrativamente aquilo que teme não conseguir fazer em campo. Porque ninguém pode ser suficientemente ingénuo para ignorar que há manobras evidentes para tentar condicionar arbitragens e para retirar ao Sporting alguns dos seus jogadores mais importantes. Há uma fixação impossível de disfarçar com Hjulmand e Suárez — a que se refere a Hjulmand parece ser também partilhada pelo Benfica. E o Porto está a mover este mundo e o outro para conseguir tirar estes jogadores do caminho. E não, não é em nome de uma suposta verdade desportiva que o fazem. É em nome do medo que sentem como tão bem foi referido por Varandas na resposta contundente que deu ao presidente do clube azul e branco.
Mas sabem, como diz a música, tudo isto é triste. Porque se desta vez os adeptos cumpriram, nem assim conseguimos ter paz. As bancadas estiveram tranquilas, mas os bastidores ferveram. E ao contrário dos cânticos e das picardias saudáveis nas bancadas, o que vimos no pós-jogo foi a face mais feia do futebol português. Um futebol que alguns insistem em jogar fora de campo e depois do apito final. Um futebol que, nesta semana que passou, foi todo movido a medo.