Miguel Oliveira está na terceira época no Brunei. Foto: Instagram
Miguel Oliveira está na terceira época no Brunei. Foto: Instagram

A vida no Brunei: «Na altura das monções, há crocodilos a nadar nas estradas»

Em entrevista a A BOLA, Miguel Oliveira faz um balanço do percurso pelo futebol, da Grécia ao Kuwait e agora ao Brunei, onde se afirma no DPMM. Entre choques culturais, histórias improváveis e ambição renovada, revela como cada etapa o tornou mais forte. Destino Aventura é a rubrica em que A BOLA dá a conhecer jogadores e treinadores espalhados pelos cantos mais remotos do mundo

Aos 30 anos, Miguel Oliveira constrói uma carreira marcada por desafios exóticos. Depois de duas passagens pela Grécia, uma experiência no Kuwait e agora em destaque no DPMM, do Brunei, o jogador português fala a A BOLA sobre o percurso no futebol asiático, os choques culturais, os desafios do clima e da religião, as histórias quase irreais vividas na selva do Sudeste Asiático e a ambição de chegar ainda mais longe.

- Como surgiu a oportunidade de ires para o Brunei e para DPMM?

- Já conhecia um pouco do projeto do DPMM e sabia que a equipa técnica era portuguesa, o que me deixou ainda mais confiante. Surgiu a oportunidade através de um contacto na Ásia e, desde o início, senti que era um desafio interessante, tanto a nível profissional como pessoal. Jogar numa primeira liga asiática era exatamente o que procurava, e a decisão foi fácil porque percebi que seria uma experiência única e que precisava de algo diferente para evoluir.

Miguel Oliveira representa o DPMM, o maior clube do Brunei. Foto: Instagram

- Quais foram as principais dificuldades na adaptação ao país?

- No início, a maior dificuldade foi mesmo adaptar-me ao fuso horário. A temperatura e a humidade aqui também são intensas, mas como vinha do Kuwait, já estava mais preparado e habituado a condições de calor e clima extremos. Claro que as diferenças culturais também criam sempre alguma estranheza, mas eu adaptei-me bem e, ao final do primeiro mês, já estava perfeitamente integrado.

Há pequenas coisas do dia a dia e costumes que não estamos habituados, muitos ligados à religião, que aqui se segue à risca. Por exemplo, antes dos jogos, no balneário, todos rezam, e mesmo durante o aquecimento há uma pequena pausa para rezar. Este mês começa o Ramadão, e todo o país se adapta a isso: horários, treinos, comércio… tudo fecha até às 18h, e só se vive depois desse horário.

Uma coisa que mostra bem como o país é diferente: o Brunei fica praticamente no meio da selva. Aqui há crocodilos nos rios, cobras, lagartos e macacos. Durante a época de monções, houve tanta chuva que algumas estradas alagaram e havia crocodilos literalmente a nadar nelas. Foi uma experiência surreal. No Brunei já vi coisas que em Portugal só via no jardim zoológico. Macacos à porta de casa, lagartos gigantes no meio da rua e crocodilos a apanhar sol nas margens dos rios. A natureza faz mesmo parte do dia-a-dia aqui.

- Sendo o clube do príncipe herdeiro, como é visto no país?

- O DPMM é muito bem visto no Brunei. Por ser o clube do príncipe herdeiro, tem muito prestígio e as pessoas têm um carinho especial pelo clube. É um clube conhecido em toda a Ásia pelo mesmo motivo, e isso dá-lhe uma reputação muito forte fora do país também. É um clube que tem evoluído todos os anos.

- No ano passado jogavam na Liga da Singapura, este ano jogam na Liga da Malásia. Porquê esta mudança?

- Sim, existe uma liga no Brunei, mas para o DPMM não é competitiva o suficiente. O clube tem estrutura e prestígio para decidir onde quer competir e, por isso, participa em ligas de países vizinhos, onde há mais qualidade de jogo. No ano passado joguei na Liga de Singapura e este ano o clube passou a competir na Liga da Malásia, que é mais competitiva. Além disso, há uma proximidade cultural muito maior entre o Brunei e a Malásia, são países vizinhos e têm uma relação muito boa.

- As viagens para a Malásia são mais longas e a logística mais complexa do que em Singapura, que é um país mais pequeno. Jogar na Liga da Malásia é mais exigente fisicamente, com muitas viagens de avião e de autocarro. Para lidar com isso, tento sempre manter a minha rotina: dormir bem antes dos jogos, cuidar da alimentação e seguir os treinos e hábitos que me ajudam a manter o rendimento e a energia que preciso para estar na minha melhor forma.

Cada liga tem as suas particularidades. A Liga de Singapura é mais organizada em termos de infraestruturas, enquanto a Liga da Malásia tem adversários muito físicos e jogos mais intensos. Depende do ponto de vista, mas sinto que a experiência nas duas ligas me fez evoluir bastante.

- Como é o país em termos de pessoas e cultura?

- As pessoas são muito acolhedoras e discretas. No início, alguns hábitos pareciam estranhos, como certas regras mais conservadoras na rua ou costumes alimentares diferentes, mas rapidamente percebi que fazem parte da cultura e que é importante respeitar. É muito diferente de Portugal, mas também foi uma experiência que me fez abrir a mente para estas diferenças e perceber como cada cultura tem a sua lógica e beleza. No fundo, somos todos iguais, todos humanos, e quando saímos da Europa começamos a ver o mundo e a vida de uma forma completamente diferente. Isso torna a experiência ainda mais enriquecedora e interessante.

- Que rotinas fora do futebol te ajudam a manter o equilíbrio estando tão longe de casa?

- Procuro manter uma rotina estruturada fora do campo: treinos no ginásio, alimentação cuidada e, sempre que posso, viajar e explorar o que a Ásia tem de melhor. O Brunei é um ponto central para viajar e, nestes últimos dois anos, já consegui conhecer bastante. Videochamadas com a família todos os dias ajudam imenso, tento estar presente nos momentos importantes, mesmo que a milhares de quilómetros de distância. Pequenas coisas do dia a dia fazem toda a diferença para manter o equilíbrio: ir à piscina, passear, descobrir novos restaurantes e comer boa comida, que nos transporta de volta para casa. Aproveitar tudo o que o país tem de melhor torna a experiência mais leve.

- Como vivem o futebol no Brunei?

O futebol é muito popular aqui, e este ano, com a participação na Liga da Malásia, os jogos em casa têm atraído ainda mais público. Os adeptos do DPMM estão mais atentos e interessados porque a liga é mais competitiva e isso cria uma energia muito boa nos estádios.

- Jogas com regularidade, tens estado em destaque, o teu futuro passa pelo Brunei?

Sinto-me muito bem aqui, sinto-me em casa e em paz. O Brunei é um país tranquilo, que me dá a estabilidade que preciso, sem distrações, e isso ajuda-me a focar no futebol. Sinto que sou um jogador chave na equipa e o carinho dos adeptos reforça a sensação de que estou exatamente onde devia estar. Quanto ao futuro, ainda é cedo para decisões definitivas, mas um dos meus objetivos é alcançar patamares ainda mais elevados na Ásia e, se possível, jogar a Liga dos Campeões Asiática. Por agora, estou confortável e focado em evoluir com o DPMM.

Antes do DPMM, Miguel Oliveira esteve no Al Yarmouk, do Kuwait. Foto: Instagram

- Jogaste também no Kuwait. Como foi a experiência dentro e fora de campo?


- Gostei imenso de lá estar. Foi uma experiência completamente nova e marcou um ponto de virada na minha carreira fora da Europa. Vinha da Grécia e deparar-me com o mundo árabe e com a realidade da religião foi um desafio no início, mas muito enriquecedor. Os treinos eram exigentes, e foi a primeira vez que treinei constantemente com 40/45 graus, foi duro, mas fez-me evoluir muito.

- Fora de campo, o país é mais conservador, mas aos poucos apaixonei-me pela cultura, pelos cafés, pelos restaurantes, shoppings, tudo muito luxuoso. Foi lá que comecei a perceber melhor como funciona o futebol no mercado asiático e, acima de tudo, foi lá que comecei a sonhar mais alto.

- Como é o futebol no Kuwait?


- O futebol no Kuwait é bastante competitivo, com jogadores locais e estrangeiros de qualidade. É fisicamente exigente, mas os clubes têm boas infraestruturas e o nível técnico é elevado. Quando fui para lá, a minha equipa técnica era toda portuguesa, o Mister Jorge Paixão, o analista, o preparador físico, todos portugueses, e isso tornou o dia-a-dia muito mais fácil. Ter essa comunidade de portugueses por perto, falar a língua e partilhar experiências ajudou imenso na adaptação, dentro e fora do campo.

Lembro-me que havia aquela sensação de que estava dentro de um filme

- Qual foi o maior choque cultural quando chegaste ao Kuwait?

- O choque maior foi logo na chegada, assim que saí do aeroporto, um calor como nunca tinha sentido na minha vida. Lembro-me que havia aquela sensação de que estava dentro de um filme. As mesquitas transmitem as chamadas para a oração através de alto-falantes várias vezes por dia, o som é muito marcante, e mesmo eu não sendo muçulmano, senti que havia uma energia positiva naquele momento. Os cheiros diferentes, o ritmo de vida e os costumes também são distintos. Lembro-me de ter ficado um pouco surpreendido na primeira vez que vi os meus colegas comerem com a mão, sentados no chão descalços, algo completamente normal e que faz parte desta cultura.

- A parte da religião interfere muito com a vida dos jogadores?


- Sim, tem influência, mas é algo que respeitamos. A religião molda o dia-a-dia, incluindo horários de treinos, alimentação e alguns costumes sociais, mas acaba por ser apenas mais um fator de adaptação para os jogadores estrangeiros. Não nos é pedido que façamos o mesmo que eles, nem esperam isso de nós.

As pessoas são muito simpáticas e acolhedoras. Os árabes levam a vida ao seu próprio ritmo. Não vivem com pressões constantes e os prazos não são tão rígidos como estamos habituados na Europa. É um estilo de vida mais tranquilo e mais relaxado.