Francisco Moura deixou o ódio ganhar
Há muito que o futebol já não é apenas jogado no relvado. Há muito que saltou para os ecrãs, para os bolsos, para a palma da mão. E com ele, saltou também o que de pior a natureza humana pode oferecer. E, na ressaca do clássico de domingo na Luz, que terminou com um 2-2 agridoce para o FC Porto, o lateral dos dragões, Francisco Moura, decidiu dar um murro na mesa… virtual e cancelou a sua conta de Instagram. Porquê? Ódio. Simplesmente ódio. Mensagens abjetas, insultos, ameaças. O pacote completo da cobardia digital que se tornou, tristemente, rotina e que encontrou no jovem portista (que entrou em campo frente ao Benfica ao minuto 58, quando o FC Porto vencia por 2-0...) um bode expiatório na sequência de uma derrota (na Taça com o Sporting) e de um empate (com as águias) dos azuis e brancos de Farioli.
E aqui assalta-me uma dúvida: terá Francisco Moura cometido um erro ao apagar a conta? E então? Na verdade é perfeitamente compreensível que um atleta, apesar dos milhões e do hábito da exposição mediática, se sinta esmagado por um tsunami de toxicidade. É humano querer fugir da dor, do ataque gratuito, da agressão mascarada de opinião de adepto. É instintivo proteger-se. Mas a questão que me ocorre é: ao desligar o Instagram, Moura resolveu o problema? Ou deu um palco ainda maior aos anónimos do teclado, que agora festejam mais uma vitória sobre quem, arriscando tudo em campo, eventualmente falhou?
Dar bola ao ódio, em qualquer contexto, é um erro. E, neste caso, a bola foi servida de bandeja. Não estou a advogar que se aguente tudo, que se seja um saco de pancada digital. Longe disso! Mas apagar a conta é, de certa forma, uma capitulação. É admitir que os bandidos venceram, que a estratégia de matar o mensageiro deu frutos. O ódio nas redes sociais não desaparece porque o alvo se retirou. Ele muda de alvo, ganha força, normaliza-se. É um cancro que continua a alastrar, seja no balneário do FC Porto, do Benfica ou de qualquer outro clube.
O problema não é a ferramenta, é a mão que a usa. E o pior é que estas mãos são invisíveis, cobardes e protegidas pelo manto da impunidade. É por isso expectável que as plataformas atuem de forma mais eficaz, que os clubes defendam os atletas com unhas e dentes, não apenas com comunicados mornos e que a justiça chegue a quem profere ameaças e insultos criminosos. . Mas esperar sentado de nada adianta. E a saída individual, por mais que se perceba, raramente é a solução estrutural.
A pressão sobre os atletas hoje é abismal. Um erro em campo, uma má decisão, um passe falhado, e o tribunal popular das redes sociais atua com uma ferocidade que faz corar de vergonha qualquer adepto com um pingo de bom senso. As consequências são reais, tocam na saúde mental, na autoestima, na performance.
Francisco Moura é apenas mais um nome numa lista infindável de jogadores que sofrem ou já sofreram com este flagelo. A questão é: até quando vamos assistir, impotentes, a esta autoflagelação?
Talvez o erro não tenha sido de Francisco Moura ao apagar a conta, mas nosso, coletivo, ao permitir que o ambiente chegasse a este ponto. O futebol é paixão, é emoção, é rivalidade. Mas nunca, em tempo algum, pode ser ódio. Nunca pode ser a desculpa para a barbárie.
Moura, talvez tenhas cometido um erro ao sair. Mas o maior erro é de todos nós, que ainda não conseguimos estancar a sangria digital que envenena o desporto. E então, caros amantes do futebol, vamos fazer o quê? Continuar a assistir? Ou finalmente, dar um murro na mesa e exigir um basta? A bola está no nosso campo. Ou melhor, no nosso ecrã.