O futebol não é para sonsos
Para mim, Portugal é central e muito grande.»
António Lobo Antunes
A resposta é predominantemente negativa quando os portugueses são questionados acerca da avaliação que fazem do nosso futebol. A explicação não resulta exclusivamente do nosso histórico pessimismo, maledicência e de valorizarmos mais o que é mau, mas de na avaliação serem ignorados os verdadeiros dois maiores objetivos do futebol português em detrimento de dois impossíveis de serem atingidos.
Quais são os dois objetivos mais importantes do futebol português?
O mais importante é as Seleções Nacionais e as principais equipas conseguirem ser competitivas nas mais importantes provas mundiais.
A Seleção A ambiciona vencer o Mundial e a de sub-17 é campeã mundial em título. Nos rankings da UEFA, Portugal é agora o 6.º país no ranking (em 1999, era 11.º). Na Europa, onde se joga o melhor futebol do mundo, Portugal tem o Benfica em 14.º lugar, o Sporting em 18.º, o FC Porto em 21.º, o SC Braga é o 44.º e o Vitória de Guimarães o 103.º. Temos três equipas no top-25 da Europa, quatro no top-50 e, marginalmente, cinco nas melhores 100.
O segundo mais importante é o de termos alguns dos melhores jogadores e treinadores do mundo. Analisando os jogadores que não são convocados para a Seleção A e imaginar o debate controverso que seria o de considerar Rui Borges ser um dos 10 melhores treinadores portugueses (que é), também é inquestionável que cumprimos.
Como pode então ser percecionada negativamente uma indústria em que competimos e ganhamos aos melhores do mundo? Em que as nossas seleções nacionais, a partir do século XXI, disputam Mundiais e Europeus? Em que os melhores jogadores são dos melhores do mundo? Em que os melhores treinadores são dos melhores do mundo? Em que, se fosse um desporto individual por ranking, o jogador e o treinador portugueses no 100.º lugar no ranking nacional fosse muito bom, segundo o benchmark mundial? Em que temos cinco equipas nas 100 melhores da Europa?
A perceção será negativa por se explorarem os trabalhadores?
Nesta indústria, a esmagadora maioria das receitas são direcionadas ao pagamento dos trabalhadores — até foi necessário de fixar uma percentagem máxima do valor das receitas que pode ser afetada a gastos com pessoal.
Na Primeira Liga, o valor mínimo para os jogadores é de três vezes mais o salário mínimo nacional e o dos treinadores principais de oito vezes.
O salário médio, perto de 25 mil euros ano em Portugal, é de 390 mil euros na Primeira Liga, segundo um estudo citado pelo Sindicato dos Jogadores, em 26 de março de 2025.
Os clubes não podem dispensar um jogador com contrato a prazo sem que lhe seja paga toda a remuneração prevista no prazo do contrato.
Se houver incumprimento salarial, a equipa é penalizada e pode ser impedida de competir.
Se o futebol português cumpre os dois maiores objetivos e respeita, como nenhuma outra indústria, os seus trabalhadores, a avaliação tem de ser um Excelente.
Coisas impossíveis, é melhor esquecê-las do que desejá-las.»
Luís Vaz de Camões
Os objetivos que, no entanto, parecem servir diariamente para avaliar o futebol português são outros dois — estão errados e são impossíveis de atingir.
São eles (1) a Primeira Liga ser competitiva e todos os seus jogos serem atrativos e emocionantes e (2) não haver polémica entre os seus principais dirigentes.
Como pode a Primeira Liga ser competitiva se a diferença entre as receitas do Benfica e do Vitória de Guimarães (nove vezes) é o dobro da diferença entre o Benfica e o Real Madrid? E que a diferença entre as equipas Primeira Liga com menor receita é de 45 vezes menos que a do Benfica, dez vezes maior que a diferença entre o Benfica e o Real Madrid?
Só uma redistribuição de receitas entre as equipas da Primeira Liga inspirada no modelo da União Soviética resultaria numa verdadeira competitividade na Primeira Liga.
Além de se saber, pelo menos desde 1989, que não é modelo que se ambicione, também seria impossível, porque a estimativa de 95% dos portugueses serem adeptos dos três maiores peca por defeito — não há 500 mil portugueses adeptos de futebol cuja equipa preferida não seja uma das três maiores.
Fazer colapsar economicamente os três maiores, igualando a sua receita às das equipas com quem competem na Primeira Liga, colocaria em causa os dois verdadeiros maiores objetivos do futebol português, porque reduziriam drasticamente o investimento na formação de jogadores. E os adeptos portugueses não são anglo-saxónicos, não gostam de competitividade, a sua equipa ganhar todas as semanas por 6-0 não os aborreceria.
O segundo objetivo fixado pela bolha mediática seria o de não haver polémica entre os principais dirigentes dos clubes. Sendo latinos, é impossível, como em Espanha (Real Madrid e Barcelona atacam-se ferozmente), em França ou em Itália — muito menos na Argentina e no Brasil.
O ecossistema do futebol português não é para sonsos nem mansos, é uma selva em que só sobrevive quem é muito competitivo. Também não é de águas mornas que os adeptos gostam — qualquer que seja o escalão competitivo, os jogos que os adeptos preferem são os dérbis, muitas centenas assistem no estádio a jogos entre aldeias vizinhas.
Este objetivo é enunciado hipocritamente com o propósito de gerar mais discussão e ter maiores audiências, mas as sociedades desportivas estimulam esta irrealista ambição — fixando multas pesadas para quem, no final dos jogos e obrigados a falar por imperativos comerciais, se excede a falar da arbitragem ou dos adversários.
Aquilo que estaria esquecido uns minutos depois prolonga-se no tempo com mais quatro momentos noticiosos — no dia seguinte pela abertura de um processo disciplinar, uns dias depois pelo castigo aplicado, pelo recurso para o TAD por parte das SAD com dinheiro e pela notícia da absolvição final. As SAD que não têm recursos para pagar o acesso ao TAD pagam a multa.
O que não tem qualquer importância e estaria esquecido passados alguns minutos é notícia várias vezes na semana seguinte — fará algum sentido?
Em 2026, num país que integra a União Europeia, alguém pode ser sancionado por se expressar sem incitar à violência? Alguém está acima da crítica e do escrutínio?
A liberdade de expressão vai continuar a ser sancionada no futebol português?