«Quase morri por causa de uma transfusão de sangue. Toda a gente se dopava»
O ciclista italiano Riccardo Riccò, banido para sempre da modalidade, admitiu ter recorrido ao doping numa altura em que, segundo ele, a prática era generalizada no pelotão. Numa entrevista ao jornal italiano La Stampa, o antigo vencedor de três etapas no Giro de Itália, onde foi segundo na geral em 2008, falou abertamente sobre o seu passado.
Riccò confessou ter utilizado transfusões de sangue, um método que quase lhe custou a vida. «Quase morri por causa de uma transfusão de sangue. Dopei-me quando toda a gente se dopava. Não apresento desculpas pelo que fiz, mas na altura as coisas eram diferentes», afirmou.
O italiano detalhou o processo de autotransfusão, que consistia em extrair e reintroduzir o próprio sangue para evitar controlos positivos. «Fazia-o há um ano porque evitavas dar positivo. Não o inventei, o Moser admitiu que o fez quando bateu o recorde da hora na Cidade do México», explicou, acrescentando que o seu caso não foi único. «O que me aconteceu a mim, aconteceu a muitos outros ciclistas, inclusive no Giro, até a ciclistas que vestiam a camisola rosa e que depois se retiraram. Se tivesse injetado cortisona imediatamente após a transfusão, nada me teria acontecido. Mas não sabia e, aos 20 anos, sentes-te impotente».
🇮🇹 Riccardo Riccò opens up on doping past
— Domestique (@Domestique___) March 31, 2026
“I do not make excuses. But things were different then. When there is business involved, this is how it works.”
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Apesar de admitir o doping, Riccò nega qualquer envolvimento numa rede de tráfico de substâncias, acusação que levou à sua suspensão vitalícia, após uma sanção inicial de 12 anos pelas transfusões. «Demonstrei em tribunal que não tinha nada a ver com o tráfico de substâncias dopantes, mas a justiça desportiva queria expulsar-me permanentemente e conseguiu-o», lamentou.
O ex-ciclista sublinhou ainda que a maioria das grandes figuras da sua geração foi apanhada em casos de doping. «Olhem para a lista dos ciclistas mais fortes da minha época. Quase todos foram apanhados por doping, exceto o Cunego e o Bettini. Quando havia negócios envolvidos, era assim que as coisas funcionavam».
Por fim, Riccò partilhou as dificuldades pessoais que enfrentou após o escândalo, incluindo uma depressão e um período em que odiou o ciclismo. «Passei por momentos difíceis, caí em depressão e outras situações complicadas, mas não me quero vitimizar», disse. Após dez anos afastado, voltou a pedalar há três anos, superando o sofrimento através de terapia. «Voltei a subir para a bicicleta há três anos, depois de passar 10 anos a sofrer ao ver os meus antigos rivais a correr e a ganhar. Deixei de ver as corridas e depois consegui superar isso graças à terapia. Encaro o ciclismo como um prazer, mas uso aplicações para comparar os meus tempos com os dos profissionais e ainda sou competitivo».