Merab Sharikadze foi suspenso em dezembro, mas não era o único jogador com problemas com substâncias proibidas. IMAGO
Merab Sharikadze foi suspenso em dezembro, mas não era o único jogador com problemas com substâncias proibidas. IMAGO

Escândalo de doping na Geórgia envolve troca de amostras e falsificação

Aparentemente o esquema era de fácil execução: durante a recolha, os oficiais geórgios responsáveis não supervisionavam a micção, permitindo a troca de amostras. A polémica ameaça estender-se a outras modalidades

Um caso de dopagem que há meses era um segredo mal guardado no mundo do râguebi foi oficialmente confirmado, envolvendo vários jogadores da seleção da Geórgia. O escândalo abala uma nação emergente na modalidade, que na última década se aproximou do Tier 1, chegando a superar seleções históricas como o País de Gales.

Os rumores ganharam força em dezembro com a suspensão de uma das maiores estrelas da equipa, Merab Sharikadze, internacional por 103 vezes e participante no Mundial de 2023. Foi então revelado que o caso se tratava de uma troca múltipla de amostras de urina, sendo Sharikadze o «dador». Embora os nomes dos outros envolvidos ainda não sejam oficiais, fala-se em seis jogadores internacionais e membros do Black Lion, a equipa profissional georgiana.

A investigação, denominada «Operação Obsidiana», teve início em agosto de 2023, antes do Mundial de França, quando a World Rugby solicitou a ajuda da Agência Mundial Antidopagem (AMA) após detetar duas trocas de amostras de urina. A AMA, considerando esta investigação uma extensão da «Operação Flecha» de 2020 sobre o halterofilismo georgiano, descobriu irregularidades que ocorreram num período «prolongado e anterior ao Mundial de 2023», especificamente em controlos fora de competição em 2022.

O esquema envolvia a cumplicidade de membros do sistema antidopagem da Geórgia. Um funcionário, identificado como «Gerente 1», avisava com antecedência um membro do «séquito» dos jogadores sobre os controlos. Este, por sua vez, alertava os atletas através de uma mensagem de texto num grupo de conversação. Durante a recolha, os oficiais responsáveis não supervisionavam a micção, permitindo a troca de amostras.

A investigação apurou ainda a falsificação de documentos. Descobriu-se que foram realizados controlos um dia antes da data solicitada pela World Rugby, tendo a data sido alterada para coincidir com o pedido. Além disso, o «Gerente 1» forneceu documentação falsa à World Rugby para justificar a ausência de um atleta que deveria ter sido testado.

Apesar da colaboração entre a World Rugby e a AMA, que financiou o processo, surgiram divergências na comunicação dos factos. A 12 de março de 2026, enquanto a AMA publicou um relatório detalhado, a World Rugby emitiu apenas um breve comunicado de imprensa. A nota da World Rugby mencionava «drogas recreativas», ao passo que o relatório da AMA indicava que a investigação se estendeu a amostras de todo o desporto georgiano desde setembro de 2023, com foco nos perfis esteroides dos atletas.

Em dezembro de 2025, Merab Sharikadze foi sancionado, anunciou a sua retirada da modalidade e confessou o seu papel no esquema. As conclusões da AMA foram entregues ao governo da Geórgia, uma vez que a agência antidopagem do país poderá ser considerada não conforme com o Código Mundial Antidopagem, o que pode levar a sanções severas, como a proibição de organizar eventos desportivos.

O processo continua em desenvolvimento e, embora os nomes dos jogadores implicados circulem nos bastidores do râguebi, a sua divulgação oficial ainda não ocorreu.

Witold Banka, presidente da Agência Mundial Antidopagem (AMA), afirmou que a organização perdeu a confiança no sistema antidopagem da Geórgia, descrevendo o caso como «indignante» e alertando que terá «repercussões» tanto para o desporto georgiano como para o râguebi a nível mundial.

Por sua vez, a World Rugby, que impulsionou a investigação em causa, mantém-se em silêncio sobre o assunto, além do reconhecimento da existência do processo.