Não concordo nada com os 26 de Martínez para o Mundial! (E ainda nem os conheço)
Já é terça-feira, mas o relógio ainda está longe de bater as 13 horas e, por isso, Roberto Martínez ainda não abriu o envelope selado na Cidade do Futebol. Mas já tenho uma certeza absoluta, daquelas que nem o VAR consegue anular: não concordo nada com os 26 convocados para o Mundial 2026. É oficial. Podem imprimir, partilhar nas redes e preparar os teclados, porque a minha indignação está em warm-up e não aceita substituições.
É fascinante a nossa genética. O português nasce, faz o teste do pezinho e recebe logo uma licença UEFA Pro invisível tatuada na alma. Mal o selecionador nacional — esse homem corajoso que decidiu trocar a tranquilidade de uma sesta em Wigan pela gestão de egos de milhões de selecionadores de café — pronunciar o primeiro nome, a sinfonia dos «Mas, porquê?!» vai começar.
Já estou a ouvir o coro. «O Cristiano? Outra vez? Com 41 anos? Já não joga nada, só quer recordes!» — como se o homem que desafia a biologia todas as manhãs fosse apenas um figurante de luxo num filme de ação. Depois, virão os defensores do sentimento. «Então e o Paulinho? O homem marca golos até de olhos fechados e fica em casa?». Ou: «E o Ricardo Horta? Aquele eterno injustiçado que parece estar sempre no banco de espera do destino.»
Martínez vai, com aquele seu português cada vez mais polido e um sorriso que desarma até o mais cético dos comentadores, explicar as dinâmicas, os triângulos, a largura e a profundidade. Mas nós não queremos triângulos, caro Roberto! Nós queremos o nosso jogador, o da nossa cor, aquele que nos faz saltar no sofá e que, por acaso, joga no clube que nos faz pagar quotas.
«O Félix? A sério? Mas ele joga ou faz poses para o Instagram?.» Ou: «O Cancelo? Muito ataque, pouca defesa!». «E o Quenda?! A sério?»
Não importa quem entre ou quem saia. Se Roberto Martínez convocasse 26 clones de Eusébio em 1966, haveria sempre alguém a dizer que faltava ali um extremo que fizesse melhor a diagonal no pelado do distrital.
E não é esta, também, a beleza (e o fado) de ser português? Somos um País de onze milhões de treinadores onde o selecionador oficial é apenas o único que, por mero acaso contratual, tem de assumir a responsabilidade. Nós, no conforto da nossa ironia, temos o poder sagrado de nunca errar uma substituição — porque a fazemos sempre depois de o jogo acabar.
Por isso, Roberto, prepara-te. Podes levar a inteligência artificial, os dados estatísticos mais avançados e a bênção de todos os deuses do futebol. No final do dia, para nós, alguns dos teus 26 serão sempre os outros.
Porque os nossos, os verdadeiros, os que ganhariam o Mundial de goleada e sem suar a camisola, esses ficaram todos aqui fora, sentados à mesa, a discutir se o selecionador percebe mesmo disto ou se só tem um bom alfaiate.
Por isso, boa sorte, caro Roberto! Vais precisar dela, não duvides. Porque a minha lista já está feita, e a tua, seja ela qual for, já está errada (mesmo sem a conhecer!).