Bjarne Riis e Indurain durante o Tour de France 1996. IMAGO
Bjarne Riis e Indurain durante o Tour de France 1996. IMAGO

«Estava dopado até aos ossos»: a confissão do rival de Induráin no Tour

O corredor dinamarquês Bjarne Riis, vencedor da Volta a França em 1996, assumiu que tomava EPO conscientemente e que não se arrepende

Bjarne Riis, um dos grandes rivais de Miguel Induráin, admitiu sem rodeios ter recorrido ao doping para vencer a Volta a França em 1996, uma confissão que, embora não surpreenda, volta a agitar as memórias de uma era controversa do ciclismo e a realçar, por contraste, o legado do ciclista espanhol.

«Estava completamente dopado. Eu sabia o que fazia. Não me arrependo, porque foi parte daquele tempo e de um sistema que todos aceitámos em silêncio», afirmou o dinamarquês durante uma palestra recente em Copenhaga. As suas palavras, diretas e sem desculpas, soaram mais a uma libertação pessoal do que a uma defesa.

Bjarne Riis diz que não se arrepende de ter tomado EPO

Recorde-se que Riis conquistou o Tour de 1996, precisamente no ano seguinte à quinta e última vitória consecutiva de Miguel Induráin (1991-1995). Essa edição marcou o fim do domínio do ciclista navarro e a ascensão de nomes como Jan Ullrich, Richard Virenque e Marco Pantani. O triunfo de Riis, no entanto, sempre esteve envolto em suspeitas, que ele próprio viria a confirmar anos mais tarde ao admitir o uso de EPO.

Para além do doping, o dinamarquês contava com a equipa mais forte do pelotão, que incluía o jovem Ullrich e Zabel, o que lhe facilitou a caminhada até à vitória.

A confissão de Riis, embora tardia, não é uma novidade absoluta, mas a forma crua como foi feita gerou reações de indignação e resignação. Nas redes sociais, muitos adeptos pediram a anulação do seu título, enquanto outros aproveitaram para enaltecer a figura de Induráin.

O desempenho do ciclista dinamarquês já levantava suspeitas na sua época. Em 1995, terminou o Tour em terceiro lugar, atrás de Induráin e Alex Zulle, com exibições na montanha que geravam desconfiança. O momento mais emblemático da sua carreira ocorreu um ano depois, na mítica subida de Hautacam, onde um ataque demolidor deixou a concorrência para trás. A imagem de Riis a subir quase sem esforço aparente tornou-se um símbolo inquietante daquela era do ciclismo.

A carreira de Bjarne Riis continuou a ser controversa mesmo após pendurar a bicicleta. Como diretor da equipa CSC, liderou estruturas que contaram com ciclistas como Ivan Basso e Carlos Sastre, e que também conviveram com a sombra da suspeita.

Em contraste, e enquanto muitos nomes da sua geração foram manchados por escândalos, o legado de Miguel Induráin permanece limpo, sem qualquer registo de controlos positivos ou investigações formais. A recente confissão de Riis, embora não altere os livros de história, serve para reforçar o valor das conquistas do ciclista espanhol, considerado por muitos um dos maiores desportistas de sempre.