O Vitória e os seus sócios não precisam de quem lhes venda sonhos - Foto: Imago
O Vitória e os seus sócios não precisam de quem lhes venda sonhos - Foto: Imago

Consciência coletiva

'Sentido de pertença' é o espaço de opinião de André Coelho Lima, jurista, empresário, associado do Vitória SC

1Na edição de 21/04/2026 do jornal A BOLA assinei um texto que intitulei de «Unidade», no qual, após a surpreendente demissão de António Miguel Cardoso (que nesse texto melhor analisei), procurei fazer um apelo coletivo dizendo: «O Vitória precisa de estabilidade; e de unidade. A gravidade do momento exige ponderação e reflexão sérias, um toque a reunir ao invés do desfilar de ambições individuais. Esta altura é de sabermos sobrepor a imagem do Vitória às legítimas ambições pessoais. Porque o momento assim o exige. E a dimensão e sobretudo respeitabilidade do nosso clube, assim o demandam.»

No fundo, procurei com esse texto fazer, atempadamente, um apelo ao sentido de responsabilidade coletivo. A que o Vitória seja visto como fim e não como meio. Debalde.

2Nunca consegui compreender bem o que de substantivo divide as pessoas em candidaturas a clubes de futebol. Nas disputas eleitorais partidárias há diferentes ideologias, diferentes perspetivas de organização do Estado e diferentes convicções quanto a matérias sociais e de costumes.

Num clube todos queremos o mesmo: vencer, embora com propostas diferentes. Talvez a única dimensão que implique visões distintas e escrutináveis seja a visão de SAD com possibilidade de detenção, ou não, da maioria do capital. Tirando isso, apenas perspetivas individuais podem justificar uma profusão de listas como a que se apresenta no meu clube.

Ninguém se preocupou com a abrangência das soluções, ninguém cuidou de se preocupar minimamente com a potencial instabilidade que é expectável seguir-se a uma eleição da qual sairão três derrotados, nada disso, cada qual viu o momento como uma oportunidade e avançou (exceciono evidentemente a candidatura que se anunciou antes ainda de saber da demissão do presidente do clube).

Acredito obviamente na instituição democrática mas, salvaguardado o máximo respeito por todas as candidaturas, não me parece que estejamos a assistir a um priorizar dos interesses do Vitória aos legítimos interesses de cada qual. E é para mim evidente que, com uma equipa e um plantel à deriva como os últimos resultados e exibições têm demonstrado, não era disto que o Vitória precisava neste momento histórico; era, aliás, precisamente do oposto.

3Aquela que talvez seja a frase que mais repito aos meus filhos é de que «cada um escreve a sua história», frase que não é mais do que uma constatação de uma realidade factual, mas para que, as mais das vezes, não estamos suficientemente alertados. As comunidades, embora disso não se apercebam por se comporem de um coletivo indeterminado, têm a sua própria consciência coletiva que resulta do somatório das opções e atitudes que a integram e também do comportamento das suas elites e da medida em que demonstram estar à altura dos momentos.

O Vitória e os seus sócios não precisam de quem lhes venda sonhos, mas de quem lhes diga a realidade. De credibilidade, de sentido de responsabilidade, de sair da conversa de café e de entrar numa discussão de gestão financeira e empresarial, de planificação de meios disponíveis, de programas de ajustamento, de planos de contingência. De projeto coletivo e não de uma disputa entre um conjunto de projetos mais ou menos individualizáveis.

As sociedades são sempre um espelho de si próprias e, nessa dimensão, a sua respeitabilidade imanente e a sua real dimensão aferem-se, precisamente, em momentos de especial complexidade coletiva.

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