Gianni Infantino, presidente da FIFA - Foto: IMAGO
Gianni Infantino, presidente da FIFA - Foto: IMAGO

Proposta contra a FIFA entra na Assembleia da República

Fabian Figueiredo, deputado do Bloco de Esquerda, apresentou Projeto de Resolução contra «deriva mercantilista» e exige bilhetes a preços acessíveis e a recusa de preços dinâmicos no Mundial 2030, que se realiza em Portugal, Espanha e Marrocos

O deputado do Bloco de Esquerda, Fabian Figueiredo, deu entrada na Assembleia da República a um Projeto de Resolução que visa condenar veementemente aquilo que qualifica como a «deriva mercantil» da FIFA sob a liderança do seu presidente, Gianni Infantino. A iniciativa parlamentar surge no seguimento das recentes polémicas em torno da tentativa de alienação dos direitos das competições internacionais a fundos de investimento privados e recomenda ao Governo português uma intervenção firme nas instâncias europeias e internacionais em defesa do futebol como bem comum e património popular.

Na fundamentação do diploma, Fabian Figueiredo lembra que a modalidade «nasceu no meio do povo e com ele cresceu», tendo sido desenvolvida e difundida globalmente por operários, ferroviários e marinheiros antes de se implantar em Portugal através dos clubes de bairro e das coletividades recreativas. Citando a célebre frase do escritor Eduardo Galeano — que descreveu a história do futebol como «uma triste viagem do prazer ao dever» —, a proposta bloquista aponta a responsabilidade aos dirigentes do organismo mundial por imporem um modelo comercial desmedido e desligado dos adeptos.

Da privatização ao boicote

No centro da crítica do Projeto de Resolução está a tentativa revelada no final de julho de 2026 para a criação da FIFA Forward Enterprise, uma subsidiária avaliada em 20 mil milhões de dólares destinada a gerir e comercializar os direitos de transmissão, patrocínios, bilhética e licenciamento dos torneios organizados pela FIFA.

A proposta previa a venda de até 20% do capital desta entidade a investidores privados, incluindo o banco J.P. Morgan e o fundo do investidor Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump. Para forçar a aprovação, Infantino terá lançado um ultimato de 53 dias às 211 federações nacionais, acenando com verbas imediatas para os concordantes e ameaçando com fortes cortes orçamentais quem se opusesse.

O texto salienta que a reação contra este plano constituiu um levantamento sem precedentes na história do desporto: as 55 federações da UEFA — com o apoio expresso da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) — aprovaram por unanimidade o boicote a todas as provas da FIFA, incluindo o Mundial de 2030, caso o projeto avançasse. Perante a forte contestação de organismos internacionais, governos e sindicatos de jogadores, a FIFA acabou por recuar formalmente a 1 de agosto. Contudo, o BE alerta que este recuo foi meramente «tático» e que a intenção mercantilista permanece intacta.

Fabian Figueiredo, deputado do Bloco de Esquerda - Foto: Instagram/Fabian Figueiredo

Para o Mundial 2030

A iniciativa sublinhada por Fabian Figueiredo recorda ainda o histórico de desregulação ética e institucional na FIFA ao longo da última década, citando o afastamento de responsáveis pela integridade — entre os quais o académico português Miguel Poiares Maduro —, o crescimento astronómico do preço dos ingressos através de algoritmos de preços dinâmicos, o desrespeito pelas condições físicas dos atletas e as graves violações dos direitos humanos associadas à organização de grandes torneios.

«Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Deputado do Bloco de Esquerda propõe que a Assembleia da República resolva, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição da República Portuguesa:

1. Defesa do Modelo Europeu do Desporto: Opor-se, no Conselho da UE, na Comissão Europeia e no Conselho da Europa, a qualquer projeto de alienação de direitos de competições a investidores privados.

2. Supervisão e Transparência: Articular com a FPF a promoção da integridade e a criação de mecanismos independentes de regulação na FIFA.

3. Garantias Sociais para 2030: Assegurar bilhetes a preços acessíveis, recusar algoritmos de preços dinâmicos, garantir acesso gratuito a água potável e respeitar os direitos de adeptos e trabalhadores no Mundial de 2030.

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