Mundial
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Gianni, o reino por um fio…
Esta é a história aparentemente simples de um negócio que tem tudo para se transformar em riqueza e mais-valia para todos os intervenientes. Mas que, por força de outros valores, por pressão do poder global, da ambição transversal e da cedência anormal, pode descambar facilmente numa das hecatombes mais dramáticas da economia mundial.
Sabe-se, sempre se soube, que o crescimento aparentemente sustentado e controlado do futebol enquanto indústria geradora de fortunas significava vantagem imediata para os mais pequenos e perspetivas de sobre-enriquecimento dos mais cotados. A distribuição de receitas, sobretudo as que advinham dos Mundiais, projetava um robustecimento dos cofres das federações periféricas como dificilmente tinha sucedido até aqui. Com o aumento de seleções apuradas para a fase final de Mundiais, e com o subsequente prémio reforçado, as promessas de Gianni Infantino, enquanto presidente da FIFA, saíram em grande e motivaram o apoio recorrente de muitos países periféricos.
A Confederação Africana de Futebol (CAF) esteve no topo dos membros que, quase cegamente, se vangloriavam de viagens pagas aos congressos, às reuniões, aos simpósios que, obviamente, pouco ou nada adiantavam presencialmente, mas muito diziam a dirigentes de competência questionável, eleitos sob o pressuposto de uma ampla representação do país ou do continente.
Bem sabemos de onde vem uma parte muito importante dos apoios entretanto granjeados pelo líder do futebol mundial. Tendo almofada financeira mais que suficiente para dividir para reinar, e jogando habilmente com o primeiro Mundial de clubes com 32 equipas, e com o primeiro Mundial de seleções com 48 combinados nacionais, Infantino reuniu uma maioria silenciosa que, quase cegamente, viaja por todo o mundo, pernoita em hotéis de luxo e, claro, diz que sim de olhos fechados a tudo o que surgir de Zurique.
Mas nem todos estão a dormir, e o suíço-italiano que preside à FIFA talvez não contasse com uma tão ampla muralha de contestação à medida mais bem guardada, mas nem por isso a conseguir passar por entre os pingos da chuva.
A criação de uma empresa subsidiária para gestão comercial do Mundial de futebol nunca cheiraria bem a quem tem do jogo uma perspetiva verdadeiramente democrática e abrangente. Ainda que apenas minoritária, a perceção da concessão de uma parcela percentual à iniciativa e aos interesses privados constitui uma força de bloqueio inaceitável, pelo flanco que abre e pelo precedente que deixa. Qualquer investidor não ligado ao futebol (ou que ao jogo esteja conectado, mas com maximização do seu investimento, na perspetiva de lucro) daria sempre prioridade aos resultados financeiros, em detrimento da componente desportiva. De tal modo que a estrutura competitiva e organizativa ficaria sempre dependente, de modo direto ou indireto, das mais-valias realizadas por cada torneio: mais equipas, mais jogos. Mais jogos, mais publicidade e mais transmissões televisivas. Em conjunto, mais dinheiro.
O respeito pelos calendários seria sempre secundarizado, e a UEFA (mas também a Conmebol, a AFC e a Concacaf), de imediato ripostaram, e com a pujança da sua dimensão geográfica e do seu grupo de suporte bem patentes na reação a uma só voz.
Infantino não terá esperado uma tão ampla e ríspida resposta. E reagiu com os pés. Os tiques ditatoriais do líder máximo da FIFA foram notórios, porque a sua verdadeira defesa tem sido a componente financeira. Tudo nas organizações da entidade suprema do futebol mundial tem a ver com dinheiro, com pagamentos, com direitos, com posições. Até no audiovisual a FIFA não parece particularmente preparada para os novos tempos, para a emergência do digital, do consumo em plataforma, dos produtos e dos consumidores segmentados, e da necessidade de adaptação, considerando que a FIFA, até agora, tem maximizado a negociação na base da televisão digital, e que esta, já para o Mundial feminino de 2027 e, muito mais ainda, para o Mundial de 2030, deixará de ser o player de referência, para passar a ser apenas mais uma das integrantes das diversas plataformas de consumo.
O Mundo está a mudar. Nos hábitos e nas consciências. A posição formal da UEFA, pela sua rapidez e contundência, é o primeiro sinal de que o caminho para Infantino, para os que o suportam cegamente e para o futebol do planeta, é tudo menos linear. Por mais profissionais que jogadores e treinadores sejam, são também seres humanos. Ao fim e ao cabo, são eles os verdadeiros protagonistas do jogo, e terão de ser eles os primeiros escutados sobre estas mudanças radicais.
A privatização do jogo nunca será um bom caminho, antes remeterá para uma espécie de reconversão, em que os pilares primaciais voltarão a ser determinantes, para que a qualidade possa subir e as bancadas continuem a estar cheias.
A visão economicista de Infantino estará, portanto, votada ao insucesso. O presidente da FIFA ter-se-á ofuscado com a aparente facilidade geradora de capitais do negócio dos séculos XX e XXI. E a sua bolha, aparentemente impenetrável, começou a ceder, como o comprovam as declarações de Carlos Cordeiro, seu conselheiro nos últimos cinco anos, mas que se sentiu na obrigação de vir a terreiro demarcar-se do novo e arrojado plano.
A História bem nos diz que é sempre assim com os todo-poderosos. Infantino começou, num ápice, a ver o seu reino por um fio…
Subiu rapidamente e, talvez, sem o apoio global que seria necessário. António Silva teve o momento mais discutível com o ausência na convocatória para o Mundial de 2026. Porém, o jovem defesa-central sabe que, no futebol de alto rendimento, a um momento de crise sucede uma oportunidade. E o Bournemouth, batendo-lhe à porta, é irrecusável. Silva deixa a Luz para a Premier League e, honestamente, nenhum clube português, na fase em que o jogador se encontra, poderia ombrear com a proposta dos cherries. É, na minha opinião, um passo em frente na carreira, numa liga global e num clube com condições excelentes. É o suficiente para António Silva encarar este passo com um sorriso nos lábios…
Lembro-me dele como um dos melhores da História. Um líder dentro e fora dos retângulos. Um ídolo, tamanha era a sua influência e a sua imagem junto dos tifosi. E não apenas dos adeptos do AC Milan, mas de todos os que, de um modo ou de outro, seguiram os seus passos. Franco Baresi partiu para a derradeira viagem conhecida com a elegância que sempre exibiu no relvado. Com a discrição que lhe reconhecemos, e com a mensagem de que, para um futebolista de elite, não são necessários recordes ou fogos de artifício mediáticos. Baste uma qualidade acima da média, reconhecida por companheiros e adversários. Sim, deixará saudades, na exata medida da excelência que o marcou enquanto jogador, ex-jogador e ser humano.