«Fomos campeões nacionais sem ninguém saber!» Históricos capitães analisam a 'queda' do Paços de Ferreira
Chegados à Capital do Móvel, afastamos, de imediato, o ânimo leve para falar daquele que é um dos emblemas mais especiais do futebol português. Fundado a 5 de abril de 1950, o Paços de Ferreira é o 17.º clube com mais presenças (24) no principal escalão do futebol português, só atrás do três grandes (todos com 93 participações), Vitória de Guimarães (82), Belenenses (77), Vitória de Setúbal (72), SC Braga (71), Académica (64), Boavista (62), Marítimo (44), Estoril (32), Rio Ave (32), Beira-Mar (27), Gil Vicente (26), Farense (26) e Leixões (25).
Os números acima apresentados tornam-se mais interessantes, se tivermos em conta que os castores são os mais novos de todos os supramencionados. Só com muito trabalho — lembra Filipe Anunciação, antigo capitão dos nortenhos, em entrevista A BOLA — é que foi possível levar o Paços de Ferreira à elite, onde chegou pela primeira vez em 1991.
«O clube não nasceu em 2007 [ano da primeira presença europeia], nem perto disso. Muita gente deu muito desde os anos 1950. Portanto, não são só os feitos grandes que têm de ser lembrados», refere, destacando o caminho construído até à consolidação.
O antigo médio, que se estreou na Liga em 2000 pelos amarelos, com quem se havia sagrado campeão da Liga 2 em 1998/99, recorda que, quando chegou, «já se contavam histórias de pessoas que faziam tudo para que nunca faltasse nada e houvesse crescimento, desde a fundação».
Após o término dos empréstimos do Boavista (onde foi formado), Filipe Anunciação seguiu carreira no Aves (em nova cedência, em 2001/02), ganhou espaço na equipa principal dos axadrezados (de 2002/03 e 2003/04), passou depois por Moreirense (2004/25) e novamente pelos avenses (2005/06 e 2006/07), até regressar ao Paços de Ferreira em 2007/08, para disputar a Taça UEFA e… não só (já lá iremos).
O trinco instalou-se de vez na Mata Real, tornou-se capitão e, curiosamente, a partir daí, o castor passou a roer de outra maneira: «Foram épocas fantásticas, ao mais alto nível, e que foram as grandes montras para o clube, que assentou arraiais na Liga. Conquistámos presenças em finais — infelizmente não conseguimos ganhar nenhuma, mas só a presença foi boa. Desde as presenças na Taça UEFA/Liga Europa [2007/08, 2009/10 e 2013/14] , final da Taça de Portugal [2008/09], presença na Supertaça [2009], final da Taça da Liga [2010/11], um terceiro lugar fantástico [2012/13] e consequente o acesso ao play-off da Liga dos Campeões [2013/14], foi um crescimento muito bonito que ninguém pode negar.»
Posto isto, é curioso constatar que a descrição feita por Filipe Anunciação (que terminou por lá a carreira em 2015) é a do clube que hoje está já em apuros na Liga 3, para caiu nesta época, passados… 52 anos. Os pacenses entraram em falso na competição, contando três derrotas nas três primeiras jornadas — Marco 09 (1-2), Paredes (0-1) e Fafe (1-4) —, já foram eliminados da Taça de Portugal — pelo Fafe (0-1, após prolongamento) — e até já mudaram de treinador — saiu Nuno Silva e entrou Vítor Paneira.
«Acho que o Paços se foi descaracterizando, com o passar do tempo. Os jogadores que transportavam a mística foram saindo, e foram ficando sem referências no balneário. As últimas foram o Antunes e o Marafona», analisa também, ao nosso jornal, Manuel José, que fez parte dos tempos gloriosos do clube, entre 2009 e 2016, afirmando que este é o mesmo que… foi — não se espante — campeão nacional em 2012/13: «Fomos campeões de Portugal sem ninguém saber! Ficar em terceiro lugar à frente do Sporting e do SC Braga é um marco que dificilmente poderá acontecer novamente.»
As memórias de um inesquecível terceiro lugar
Quando Manuel José afirma que o Paços de Ferreira tem no palmarés um título de campeão é, obviamente, uma forma de enaltecer a época histórica de 2012/13, que culminou com o terceiro lugar, com 54 pontos, só mesmo atrás de um super-Porto (nesse ano, tricampeão) e de um super-Benfica (que chegou à final da Liga Europa e esteve em todas as frente até ao final da temporada).
Num campeonato com 16 equipas, os pacenses, liderados por Paulo Fonseca, só perderam com dragões e águias. «Não me lembro de uma equipa alcançar um registo semelhante», diz o antigo extremo, antevendo que «nos próximos anos os quatro primeiros vão ser sempre os mesmos: FC Porto, Benfica, Sporting e SC Braga, que estão num patamar acima dos outros».
Sendo o clube pelo qual mais tempo passou (sete anos) enquanto sénior, esta má fase deixa Manuel José (que terminou a carreira de jogador no Candal em 2022) angustiado: «Fico triste por ver a situação atual e aquilo que o Paços alcançou, com idas à Liga dos Campeões, Liga Europa, o terceiro lugar…»
«É difícil construir, mas destruir é num instante»
Continuando o raio-x ao castor, Filipe Anunciação só vê dois caminhos possíveis para a cura: «A união de toda a gente e trabalho, com cada um a dar o melhor e máximo que conseguir.»
«O povo diz que é difícil construir, mas destruir é num instante. Isso define o que se passa em Paços de Ferreira, em que, depois de anos de muito trabalho, onde profissionais, jogadores e treinadores conseguiram chegar a patamares muito bons, houve decisões que levaram a esta situação. Mais uma vez digo: para construir é difícil e demora muito tempo, para destruir é rápido. Não só no futebol, mas na vida», compara o antigo capitão, que, depois de ter pendurado as botas, continuou ligado ao clube durante quatro anos, enquanto treinador (dos sub sub-19, equipa B e adjunto da principal).
Manuel José, por seu turno, desenha o caminho desde o «clube familiar» que o recebeu em 2009, quando chegou do Cluj (Roménia), até à evolução «no sentido de ser empresa». «O Paços está um pouco descaracterizado em relação àquilo que era no meu tempo. Obviamente que se foram fazendo coisas muito boas, porque as infraestruturas não eram grande coisa e foram-se melhorando, mas, em paralelo, a equipa foi piorando e a prova disso foi a quida para a Liga 3», analisa.
«Estávamos habituados a lutar com os melhores e, de um momento para o outro, o clube desceu duas divisões…», lamenta, por fim, Filipe Anunciação, confidenciando, ainda assim, qeu não será por falta de carinho nem de apoio dos adeptos que o Paços de Ferreira voltará aos grandes palcos: «Não só no meu tempo, mas até recentemente, lembro-me de jogos em que as coisas não estavam a correr muito bem, e a força da bancada para dentro do campo foi fundamental para dar a volta. Os pacenses são pessoas que se fazem presentes.»