A bola oficial da Liga na época 2026/2027
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Já não acompanhamos processos. Consumimos resultados

«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».

Há uma palavra que o futebol moderno adora: projeto. Apresentamos treinadores e falamos de projetos. Contratamos jogadores para projetos. Diretores desportivos explicam projetos. Presidentes prometem projetos. Adeptos querem acreditar em projetos. O problema é que nunca falámos tanto em projetos e tivemos tão pouca paciência para os construir.

Hoje, um treinador pode chegar a um clube com um contrato de três anos e descobrir, ao fim de três meses, que aquilo que verdadeiramente lhe deram foram três jogos. Duas derrotas consecutivas transformam dúvidas em crises. Uma exibição menos conseguida coloca em causa o modelo de jogo. Cinco jornadas parecem suficientes para decidir se uma ideia funciona.

Já não acompanhamos processos, consumimos resultados. Porque é que isto acontece? Uma explicação passa pelo futebol, hoje, não estar desligado da sociedade em que vivemos. Pelo contrário, reflete-a. Habituámo-nos à velocidade. No telemóvel, poucos segundos decidem se continuamos a ver um vídeo ou passamos ao seguinte. Consumimos notícias pelo título, opiniões em fragmentos e entretenimento em conteúdos cada vez mais curtos. Esperar tornou-se desconfortável e levámos essa impaciência para o futebol. Queremos que o treinador implemente rapidamente uma ideia, que os jogadores a compreendam imediatamente e que a equipa apresente resultados enquanto tudo isso acontece. Queremos evolução sem erros, aprendizagem sem derrotas e mudança sem instabilidade, mas os processos humanos raramente funcionam assim.

É relativamente fácil contratar um treinador. Muito mais difícil é construir uma equipa. Uma equipa não é apenas a soma da qualidade individual dos seus jogadores. É uma rede de relações, comportamentos, responsabilidades, confiança e conhecimento coletivo. Um jogador precisa de perceber aquilo que o treinador pretende dele, mas também aquilo que os colegas vão fazer. Precisa de reconhecer movimentos, antecipar decisões e compreender comportamentos. Com o tempo, aquilo que inicialmente exige pensamento torna-se quase intuitivo e há algo ainda mais difícil de construir: confiança. Confiança para assumir riscos, para continuar a executar uma ideia depois de um erro, para aceitar uma decisão com a qual não concordamos, para acreditar que o colega estará onde deve estar e para continuar a seguir o treinador quando os resultados deixam de proteger a mensagem. Nada disto aparece numa apresentação de PowerPoint. Constrói-se através de treino, competição, vitórias, derrotas, conflitos, conversas e experiências partilhadas. Constrói-se, sobretudo, com tempo.

É aqui que surge uma das maiores contradições do futebol contemporâneo: queremos culturas vencedoras sem esperar pela criação de uma cultura. Falamos muito de valores, identidade, exigência, compromisso e ambição, mas cultura não é aquilo que um clube escreve numa parede ou coloca num vídeo de apresentação. Cultura é aquilo que acontece todos os dias. É a forma como se treina quando ninguém está a observar, a reação a uma derrota, aquilo que o treinador tolera e aquilo que não tolera, a forma como um suplente é tratado, perceber se os melhores jogadores estão sujeitos às mesmas regras e observar como a estrutura reage quando aparecem dificuldades. Sobretudo, cultura é repetição. Não se decreta numa reunião nem se instala durante uma pré-época. Constrói-se através da coerência entre aquilo que uma liderança diz e aquilo que essa mesma liderança faz.

Por isso, quando um clube muda constantemente de treinador, não está apenas a substituir uma pessoa. Pode estar a reiniciar comportamentos, relações e referências que ainda estavam em construção. Novo treinador, nova equipa técnica, novos princípios, novas regras, nova linguagem, novas prioridades… e depois perguntamos por que razão não existe identidade.

Naturalmente, nada disto significa defender treinadores independentemente dos resultados. Futebol profissional é competição e o resultado importa. Liderar também significa responder por aquilo que se faz. A questão é outra: o resultado não pode ser o único instrumento utilizado para avaliar um processo. Uma equipa pode ganhar e estar a piorar. Pode perder e estar a crescer.

É precisamente aqui que dirigentes e estruturas competentes fazem a diferença. Quando os resultados são positivos, quase todas as decisões parecem corretas. É quando deixam de aparecer que uma organização precisa de distinguir uma crise de resultados de uma crise de processo. A equipa continua a acreditar? Os jogadores estão a evoluir? A ideia está mais consolidada? O treino tem qualidade? Existe coerência nas decisões? O grupo segue a liderança? Os problemas identificados estão a ser corrigidos? Se a resposta for não, talvez seja necessário mudar, mas se a resposta for sim, talvez aquilo de que o projeto precisa não seja de outro treinador: precisa de tempo.

Há uma dimensão da liderança sobre a qual falamos pouco: a capacidade de suportar o desconforto enquanto os resultados ainda não chegaram. É fácil acreditar num processo quando se ganha. Muito mais difícil é fazê-lo depois de três derrotas. Nesses momentos aparecem o ruído externo, as críticas, as redes sociais, os adeptos, os programas televisivos e as notícias sobre possíveis sucessores. E aparece uma tentação muito humana: fazer alguma coisa apenas para mostrar que estamos a fazer alguma coisa. Despedir um treinador produz imediatamente uma sensação de ação. Esperar exige coragem. Naturalmente, esperar não significa insistir cegamente. Paciência sem avaliação é passividade, mas paciência acompanhada de exigência, análise e convicção é liderança. Um dirigente não deve perguntar apenas «Estamos a ganhar?». Deve também perguntar: «Estamos mais perto de ser aquilo que decidimos construir?» São perguntas diferentes e podem produzir decisões muito diferentes.

No futebol, no futsal e em outras modalidades, gostamos de celebrar os grandes treinadores depois de eles terem construído as suas obras. Admiramos as equipas que criaram, os títulos que conquistaram, os jogadores que desenvolveram e as culturas que deixaram. Depois procuramos o próximo grande treinador, a próxima equipa dominante, o próximo legado. Só nos esquecemos frequentemente de uma coisa: um legado só pode ser reconhecido depois de ter existido tempo para o construir. Não existem culturas instantâneas, não existem relações instantâneas tão pouco existem equipas instantâneas. Podemos comprar jogadores rapidamente, contratar conhecimento, melhorar instalações, tecnologia e informação. Podemos acelerar muitos processos, mas há uma coisa que o dinheiro ainda não consegue comprar: experiências partilhadas. E são elas que, muitas vezes, transformam um conjunto de excelentes profissionais numa verdadeira equipa.

Uma das grandes dificuldades de liderar no desporto atual é perceber quando é preciso mudar e ter coragem para fazê-lo, mas também perceber quando não mudar e ter ainda mais coragem para esperar. Nunca falámos tanto em projetos e tivemos tão pouca paciência para os construir. Queremos culturas vencedoras antes de existir cultura. Ansiamos por equipas consolidadas antes de existir tempo. Sonhamos com legados enquanto ainda estamos a escrever o primeiro capítulo. No fundo, pretendemos - aqui e agora - o resultado de um processo sem estarmos dispostos a viver o processo e é precisamente aí que começa o verdadeiro desafio de liderar no jogo.

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