Quatro assistências, um golaço e um 'hat trick': Messi das Lajes juntou-se a Éder e o resultado foi mesmo incrível
Trabalha muito e recebe pouco em troca… Podia ser a história de um profissional das entregas, mas é a de Guga, o carteiro das Lajes. Lembra-se dele? Pois bem… está de volta!
Incrivelmente, quatro assistências e um golaço não foram suficientes para levar os três pontos para a ilha Terceira. Após cinco golpes de génio, o esquerdino criativo não teve mesmo, como recompensa, aquilo que merecia, na partida da quarta jornada da Série D do Campeonato de Portugal, contra o Real, no último fim de semana.
5-5 foi o resultado daquele que foi, até agora, o duelo mais empolgante da nova temporada. A este nível, recentemente, só mesmo o encontro entre Marinhense e… o mesmo Lajense, em abril. Aí, os açorianos ganharam 5-4 e Guga fez… as cinco assistências!
Mas, mais do que as (nove!) entregas do Messi das Lajes — como é vulgarmente chamado (e entende-se bem porquê) — em apenas dois jogos, o que desperta mais a atenção foi a forma como, em ambos, o resultado foi construído.
No jogo do Campeonato de Portugal passado, o Lajense esteve a perder por 0-3 e 3-4. Neste último, esteve a perder por 1-4 e 4-5. Circunstâncias muito idênticas, mas o mesmo espírito de resiliência. Em ambos os casos, o conjunto insular não saiu derrotado.
Se acontecer uma vez é caricato, duas só mesmo ao alcance de um povo que vive uma vida (e uma hora…) atrás do tempo. «Foi tudo muito idêntico. Assim que sofremos o 4-1, só conseguia lembrar-me do jogo com Marinhense, mas pensava: 'Não vai acontecer o mesmo, de certeza!' Só que aconteceu [risos]. O futebol tem destas coisas e os lajenses têm destas coisas, nunca desistimos, por mais difícil que seja. Sabemos que, sendo açorianos, estamos sempre um passo em desvantagem, querendo ou não», diz Guga, em entrevista A BOLA.
«Resta-nos acreditar até ao fim», afirma o extremo, aplaudindo o discurso crucial do treinador ao intervalo quando o jogo estava 1-4: «Disse para não nos esquecermos o que tinha acontecido no ano passado e que tínhamos de ir atrás do resultado. A verdade é que nos agarrámos uns aos outros e conseguimos mais uma vez empatar. Depois acabámos por sofrer o 5-4, mas voltámos a acreditar e conseguimos novamente fazer o 5-5.»
Éder também fez das suas
Guga não foi, todavia, o único nome em grande evidência nesta partida. Éder Delgado fez um hat trick, o primeiro da carreira, e no fim agradeceu não só ao assistente, como também a toda a equipa, naquele que explica ter sido um momento especialmente «emocionante»: «Quando marquei o terceiro golo [5-5] fiquei muito emocionado, não só pelo contexto do jogo, mas porque a minha família e o meu filho estavam na bancada.»
«Agradeci várias vezes aos meus colegas, porque foi um momento muito lindo, de superação a todos os níveis», sublinhou, ao nosso jornal, o ponta de lança de 25 anos, que deixou Lisboa no início desta época, para abraçar a «oportunidade» no meio do Atlântico: «Foi uma decisão muito difícil, mas ter conseguido arranjar um clube no Campeonato de Portugal foi uma alegria, porque não estava à espera. Agradeço ao Lajense por me abrir as portas.»
Guga entrega dentro e… fora do campo
A brincar, a brincar… quando Guga foi questionado, em tom de ironia, se os CTT das Lajes já tinham fechado, em virtude de entregar ele tudo, o craque surpreende e confessa que tem outra profissão, além do futebol. Espante-se… é entregador!
«Por acaso sou mesmo entregador [risos]. Trabalho numa empresa de entregas, mas não nos CTT [risos]. É na CirculumCargas», revela o esquerdino.
Tem apenas 25 anos, mas a carreira do atacante tem já várias peripécias: além de estar associado a estes jogos de loucos em que faz sempre muitas assistências, é uma referência do futebol regional dos Açores, passou pelos juniores do Estoril (2017 a 2019), subiu o Fontinhas do Campeonato de Portugal para a Liga 3 (2022) e já teve uma breve experiência no Ordino da primeira divisão de Andorra (2023/24).
No Principado no meio dos Pirinéus, Guga não logrou a afirmação desejada e logo regressou (2023/24) ao clube da sua terra, onde permanece até hoje.
O tecnicista confessa que podia ter saído do Lajense neste verão, mas optou por ficar em «casa» para «ajudar»: «Tive três propostas para sair, mas acabei por ficar também pela forma como vamos olhar para esta época, em que quisemos garantir uma boa base aqui da casa e ir buscar alguns jogadores fora. Quero ajudar o clube a cumprir o objetivo que é a manutenção.»
A história de um jogo (sur)Real
Até foi o Lajense a inaugurar o marcador, mas depois os dos Açores foram surpreendidos com uma resposta muito forte dos de Queluz, conta Guga: «Entrámos muito bem, conseguimos chegar à vantagem [22’], num lance em que isolei o Toró. Só que depois o calor e os poucos jogos que temos afetaram-nos e quebrámos muito e eles, nas poucas vezes que atacavam, fizeram golo [28’, 34’, 36’ e 45’].»
«Foi muito frustrante, estávamos de cabeça baixa, parecia que não havia mais nada a fazer», lembra Éder Delgado.
Mas havia ainda muita coisa a fazer e Guga sabia melhor do que ninguém como: «O 2-4 surgiu num lance em que recebo uma bola à entrada da área e meto o Éder na cara do golo. Depois, marquei o 3-4 de livre [um golaço, à Messi!], aos 55’, e no 4-4 recebi a bola na zona lateral, ultrapassei um defesa e passei ao Éder, que marcou [61’].»
Estava tudo empatado, e de forma homérica — «foi uma loucura», afirma Éder Delgado —, mas num ápice [65’] tudo descambou outra vez: «No 4-5 voltei a sentir frustração pelo esforço que tínhamos feito para chegar ao 4-4 e logo a seguir sofrer o golo… Mas tivemos vontade de chegar outra vez ao empate e esteve no sítio certo e à hora certa para fazer o 5-5 [71’], numa jogada em que o Guga forçou o guarda-redes a jogar no meio, intercetou a bola e passou-ma para finalizar.»
«O Guga foi muito importante em todos os momentos do jogo. Senti a força de querer chegar a um resultado positivo», reconhece o colega. Em troca do golo e das assistências, o número 10, por seu turno, recebeu carinho: «Dos colegas, dirigentes, adeptos… Estavam-me sempre a relembrar que tinha feito o mesmo na época passada.»