86 anos de amor ao Benfica no coração do Porto
Quem vem e atravessa o rio — como canta Rui Veloso no tema Porto Sentido — tem uma alta probabilidade de encontrar a dona Maria — uma das mulheres mais icónicas da cidade Invicta.
«Está pronta para dar início à entrevista?», pergunta a A BOLA. A jovem, quase a fazer 87 anos e no pico da sua energia, logo retorquiu: «Nasci pronta!»
Além de «pronta», Maria afiança que nasceu «benfiquista e comunista, ali na Rua da Bainharia, no número 124, na Sé [o coração do Porto]».
Mas, afinal, como podem o benfiquismo e o comunismo vir dentro da alma de um recém-nascido? A dona Maria explica: «A família da parte da minha mãe lutava contra o nazismo, o Hitler e o fascismo e vieram da Alemanha para cá, para o Marco de Canaveses. Por isso é que tenho os olhos azuis.»
«O meu avô, que também era benfiquista e comunista, fugiu para o Brasil», conta, lembrando a mãe que era «pobre», contrastando com a família do lado paterno: «O meu pai era um fascista e a minha mãe era uma desgraçada… e também era vermelha [risos]… Mesmo assim, nunca o deixou e os pais do meu pai ajudavam-nos muito.»
«Portanto, eu não sou comunista nem benfiquista de agora», reafirma, falando de «herança». «Desde que nasci, no dia 16 de dezembro de 1939, só queria o vermelho», garante, advertindo que «azuis só mesmo os olhos»: «Uma vez deram um vestido e um casaco azuis, a estrear, mas eu não visto aquela cor», diz.
À janela, tudo vermelho. Em casa, tudo vermelho. No corpo, tudo vermelho. Na alma, tudo vermelho. Tudo. Do exterior ao interior. E, não vá alguém esquecer-se da cor mais importante da sua vida, até já tem tudo preparado para quando morrer: «Já tenho as mantas do Benfica para levar no caixão.»
Porém, não vale a pena estar a falar do Fim, quando pela frente está uma mulher cheia de energia. «Para apoiar o Benfica? Vou sozinha. Meto-me no comboio e vou ver. A Lisboa, a Famalicão… Às vezes, os meus filhos até andam aí a perguntar por mim… ‘Ela diz que ia ver o Benfica para Lisboa’, respondem-lhe [risos]...»
Maria Vitória (sim, tal como a águia) entrou pela primeira vez no Museu Cosme Damião em 2025, quando foi ver o Benfica 4-0 Tirsense para a Taça de Portugal ao Estádio da Luz, e admite ter ficado muito… desiludida: «Mal entrei, vi uma taça muito grande com o emblema do FC Porto no fundo. E eu disse: ‘Que é isto, carago?! Eu já não entro aqui mais!’ Era uma taça que o Benfica tinha vencido há muito anos contra os portistas.»
Onze filhos… todos portistas
A dona Maria deu à luz onze filhos, mas eles escaparam todos para o… Dragão. «São todos portistas. Nunca os pressionei para serem de que clube fosse», explica, antes de fazer uma ressalva que considera importante: «Mas são todos comunistas!»
Mais «sorte», no campo clubístico, teve mais tarde: «Entre netos e bisnetos, tenho 40… Minto, soube ontem que ia ter mais um bisneto. Por isso, já são 41 e muitos deles são benfiquistas! Desses todos só um deles é que é sportinguista. De resto, ou são vermelhos ou azuis.»
«Um dos meus netos foi portista até aos 6 anos, andava na escola aqui em Miragaia, mas uma vez chegou a casa e disse-me: ‘ó avó, afinal, sou benfiquista’. Eu só lhe disse: ‘pronto, tu é que sabes’. Esse jogava muito bem futebol, diziam que parecia o Ronaldo. Se soubesse o que sei hoje, tinha pegado nele e tinha-o levado ao Benfica», lamenta.
«Enquanto o Pinto da Costa era vivo…»
Maria Benfiquista (como é conhecida) entrou pela primeira vez no Estádio do Dragão no dia 6 de abril de 2025 — claro está, para apoiar um dos seus grandes amores. Deu sorte: o Benfica venceu o FC Porto por 4-1, com um ‘hat trick’ de Pavlidis, um golo de Otamendi e Samu fez o tento dos azuis e brancos.
Mas, afinal, por que motivo nunca tinha ido ver o Benfica, jogando tão perto de sua casa? «Enquanto o Pinto da Costa era vivo, nunca fui ao Estádio do Dragão, não queria entrar, mas ia sempre no cortejo antes, desde Campanhã. A primeira vez que entrei foi quando o Benfica ganhou 4-1 [2024/25], já depois de ele morrer. Esse jogo foi uma alegria!»
No empate (0-0) do ano passado, a figura emblemática da baixa portuense voltou a misturar-se com os seus amigos de vermelho e fez furor. Neste ano, se tudo correr como está planeado, voltará a marcar presença.
Convidada a fazer uma previsão para o resultado deste ano, dona Maria exige «calma!» «Não gosto de prever assim os resultados», justifica a senhora que «nunca!» teve problemas por ser uma assumidíssima benfiquista no Porto.
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