Jorge Jesus, selecionador nacional - Foto: Mariana Tenório
Jorge Jesus, selecionador nacional - Foto: Mariana Tenório

Um, dois, três, começa a história: uma criança portuguesa sem ver o seu país nos grandes torneios. A criança que via os Mundiais como lugares distantes, reservados a países que apareciam nos cromos. Essa criança teve de pedir heróis emprestados.

No México 1986, torceu por Maradona. Como não torcer? Maradona sabia a passagem secreta do jogo. Um caminho só dele. Depois, noutros Mundiais, a criança sofreu por Baggio. Pela elegância, pelo cabelo, pelo budismo em forma de futebol. E também se apaixonou por Romário e o seu samba de finta curta, só de um acorde, que parecia uma sinfonia. Os heróis mudavam. A ausência ficava.

Entre 1986 e 1996, uma infância inteira passou sem Portugal numa fase final. Hoje, quando a qualificação parece um direito adquirido, é difícil explicar o que isso significava. Não havia indignação. Havia resignação. O país não perguntava até onde podia chegar. Perguntava quando voltaria a aparecer.

Entretanto, a criança tornou-se adolescente. E começou a acreditar. A Geração de Ouro trouxe uma promessa que era maior do que os resultados. Figo, Rui Costa, João Pinto. Nomes portugueses, nomes grandes. Admirados pelos outros. E como nós, na nossa pequenez disfarçada de arrogância, gostamos de saber o que os outros pensam sobre quem somos. Se temos a melhor praia, o melhor restaurante, o melhor miradouro, o melhor tudo e o pior nada. E ali estava o nosso doping emocional.

Parecia que Portugal não precisava de pedir licença para entrar. Talvez fosse possível pertencer à festa dos outros. Talvez os heróis já não tivessem de ser emprestados.

O Euro 1996 abriu a porta. O de 2000 mudou tudo. Portugal foi desafiar. Foi seduzir. Foi virar a Inglaterra do avesso, foi obrigar Zidane a sentir-se humano para nos condenar a uma morte súbita que, afinal, era só um renascimento.

Houve derrotas que doeram, mas já não eram as derrotas de quem tinha chegado por acaso. Eram as derrotas de quem descobrira que podia olhar os grandes nos olhos e, por vezes, obrigá-los a baixar os seus. A criança que só queria ver Portugal num Mundial tornou-se o adulto que se irrita quando Portugal não o ganha.

Não é ingratidão. É o preço do crescimento. As expectativas também envelhecem. Aquilo que aos 10 anos parecia impossível, aos 44 parece insuficiente. A memória continua a saber de onde viemos, mas o presente já não aceita viver apenas para agradecer. Quem viu Portugal ausente conhece o valor de estar. Quem viu Portugal campeão, como em 2016, conhece a obrigação de tentar vencer.

É aqui que chega Jorge Jesus. A sua primeira convocatória não apresenta apenas uma lista de jogadores. Apresenta uma nova possibilidade. E uma possibilidade, no futebol, nunca vem sozinha. Traz os desejos, as ilusões e as feridas de todos os que aprenderam a medir o tempo através da sua seleção Das suas ausências. E das suas presenças.

O que se pede a Jorge Jesus é demasiado grande. E porquê? Porque não se pede apenas futebol. Pede-se que reconcilie duas versões do mesmo país. O país que se lembra de não estar e o país que já só admite ficar entre os melhores. O país que agradecia uma qualificação e o país que considera um fracasso ser eliminado nuns quartos de final.

Somos o povo dos Descobrimentos. Também somos o povo do fado. Talvez nenhuma imagem explique melhor esta contradição. Partimos porque acreditamos. Cantamos porque desconfiamos do final. Temos a coragem de avançar e uma estranha intimidade com a derrota. Quando vencemos, sentimos que cumprimos um destino. Quando perdemos, dizemos que sempre soubemos.

Por isso, cada selecionador recebe muito mais do que uma equipa. Recebe uma ideia de Portugal. Tem de organizar uma equipa e, ao mesmo tempo, ordenar séculos de euforia e melancolia. Tem de convencer um povo que passa demasiado depressa da esperança ao fatalismo. Tem de explicar que ambição não é bazófia e que prudência não é medo.

Jorge Jesus chega com a convicção de quem nunca teve receio de pronunciar a palavra ganhar. Talvez isso nos assuste porque reconhecemos nele uma parte de nós. A parte que acredita que o talento deve mandar, que o jogo pode ser dominado, que o futuro se conquista avançando. Mas há outra parte, mais antiga, que fica para trás a contar os barcos que não regressaram.

Aos 44 anos, aquela criança já sabe que o futebol não promete justiça. Sabe que Maradona, Baggio e Romário foram também uma maneira de preencher um lugar vazio. Sabe que ter heróis portugueses no Mundial deixou de ser um milagre. E sabe que esse milagre transformado em hábito alterou para sempre a medida dos nossos sonhos.

É por isso que agora se pede tudo a Jorge Jesus. Como a outros antes dele. Não porque Portugal tenha ganho muitas vezes, mas porque passou demasiado tempo sem acreditar que podia ganhar. Não porque a história nos dê esse direito, mas porque o presente já não nos permite fugir dessa ambição.

Talvez seja injusto. Talvez seja excessivo. Mas crescer também é isto. É poder regressar à criança que escolhia heróis estrangeiros, sentarmo-nos ao lado dela e dizer-lhe baixinho: «Não te preocupes. O mundo também vai ser nosso.» Jorge Palma fez a pergunta, «Portugal, Portugal, do que é que tu estás a à espera?»

Estamos à espera do que sempre esperámos. De dizer a essa criança que vai correr tudo bem. Sem pressão, Jorge Jesus. Sem pressão. Mas com toda a pressão, sonhos e desespero da criança e do adulto que não quer ver Portugal continuar à espera.

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