«Há homens que não me cumprimentam. O que para mim é falta de educação para eles é o contrário»

Isabel Osório, a mulher portuguesa que comanda tropas na… Arábia Saudita

Ex-jogadora conta as peripécias já vividas no Médio Oriente e tem a esperança de levar o futebol a todas as meninas do país, ainda antes do Mundial 2034. A missão na academia em Al-Ula e os inúmeros desafios

Destino Aventura é a rubrica em que A BOLA dá a conhecer os jogadores espalhados pelos cantos mais remotos do mundo.

Isabel Osório é treinadora e coordenadora técnica do futebol de uma das academias dos sauditas do Al-Ula.

— Como está estruturada a parte da formação do clube?

— O Al-Ula tem duas academias: uma em Medina e outra na terra do clube, em Al-Ula. Eu estou a coordenar em Al-Ula. Neste momento, ainda não temos futebol feminino aqui, porque é uma terra um bocadinho mais pequena. Apesar de a Arábia Saudita estar a tentar abrir-se ao mundo, aqui na terra do clube vai mais devagar. Já fizemos alguns eventos para envolver a comunidade feminina e tiveram bastante sucesso, mas é diferente de Medina, em que já temos futebol feminino: dos sub-13 até à equipa sénior.

— Como surgiu a oportunidade de ir para a Arábia Saudita?

— Foi através do mister João Carlos Pereira. Abordou-me para sair de Portugal, e eu pensei: ‘Porque não?’. A proposta, financeiramente, não tinha nada a ver com os valores de Portugal. Nunca pensei sinceramente em sair do meu país para ser treinadora, sempre pensei que em Portugal conseguisse desenvolver a atividade. Conseguir até consigo… não consigo é fazer vida disto. Tendo em conta todas as condições, não só financeiras, mas tudo o que o clube me proporciona, achei que era o momento certo para me aventurar.

— Foi para aí sozinha?

— Em Al-Ula, estou sozinha, sou a única portuguesa e até a única estrangeira da academia. Mas em Medina há imensos treinadores estrangeiros: portugueses, espanhóis... Aqui, de facto, estou sozinha e a minha função é, além de dar continuidade ao trabalho que o clube tem desenvolvido em Al-Ula, poder dar formação aos treinadores, todos sauditas. Portanto, tenho algumas batalhas por ser mulher. Também foi algo que o clube quis: que fosse especificamente uma mulher que viesse para aqui, aliado ao facto de quererem ter raparigas a jogar futebol.

— Foi uma proposta fora do comum então…

— Não quero generalizar, porque não conheço toda a Arábia Saudita, mas o nosso clube trabalha de forma diferente. Na academia em Medina, as raparigas treinam-se às mesmas horas que os rapazes e jogam contra eles, ao contrário de muitos locais no país em que, quando há treinos das raparigas, tudo o que é homem tem de sair. Tendo em conta tudo isso, achei que de facto era um desafio aliciante.

Isabel Osório treina e é coordenadora técnica do futebol de uma das academias do Al-Ula, na cidade com o mesmo nome - Foto: D.R.
Isabel Osório treina e é coordenadora técnica do futebol de uma das academias do Al-Ula, na cidade com o mesmo nome - Foto: D.R.

— Já teve alguma experiência mais desagradável?

— Desagradável não. De facto, é tudo diferente. Acredito que por ser diferente das mulheres daqui e me vestir de forma diferente das pessoas, sejam mulheres ou homens, apesar de estar sempre equipada com o equipamento do clube, as pessoas conhecem-me. Já sabem que está uma mulher a trabalhar na academia aqui em Al-Ula. Mas tudo é diferente, não há, de facto, ponta de comparação com Portugal ou com a realidade que já vivi em outros países da Europa. Ainda assim, nunca me fizeram sentir mal. Acho que tenho uma vantagem relativamente a outras mulheres que não estão no futebol, que é o facto de ter sempre trabalhado com homens. Portanto, não me mete confusão ser a única mulher na sala.

— E ainda manda em homens, não é?...

— Não gosto da palavra mandar, mas é mais no sentido de eu ser uma ponte para que possam evoluir. Em 2034, o Mundial vai ser aqui e acredito que Al-Ula faça parte do projeto, até porque querem fazer outra academia igual ou superior à academia que temos em Medina e estou aqui para os ajudar. Costumo dizer-lhes que tenho paciência, porque estou habituada a ser mulher no meio deles, não há problema nenhum. Ainda assim, há algumas questões culturais que é o facto de eles não falarem com mulheres, a não ser as da família: esposa, filhas, irmãs, mãe… Quando cheguei à Arábia Saudita, tive quase duas semanas em Medina para ver como é que a academia funcionava, e o que é que muitos sauditas, mesmo até crianças — rapazes, neste caso —, me faziam: eu estava no meio de dois colegas e eles cumprimentavam o treinador da minha direita e o treinador da minha esquerda e a mim não me diziam nada. Para mim isto é falta de educação, mas para eles é o contrário. Ou seja, eles não falam com mulheres.

— Isso incomodava-a?

— Ao início, meteu-me confusão porque muitas vezes ficava pendurada. Dizia olá e não tinha resposta. Depois fui-me habituando porque percebi que é cultural. Quando cheguei a Al-Ula, vim cá obviamente com o diretor da academia, que é o mister João Carlos e ele partilhou com os treinadores a intenção do CEO do clube de escolher uma mulher. Hoje em dia, todos olham e falam para mim.

— E podem?

— Podem, mas, muitas vezes, é por uma questão de habituação. Estão habituados a não falar... Ando na rua e há muito poucas mulheres e as que vejo só lhes vejo os olhos. Em Medina, por exemplo, na nossa academia, a diretora do futebol feminino é uma pessoa espetacular, é uma das mulheres mais importantes na Arábia Saudita, é a primeira mulher a ter o AFC A — equivalente ao UEFA A na Europa. É uma mulher que tem feito muito pelo desenvolvimento do futebol das raparigas e mulheres na Arábia Saudita. Em Medina, já vemos mulheres só com abaya ou só com lenço, mas em Al-Ula não. De facto, a maior parte das mulheres com quem me cruzo, se calhar 98%, só lhes vejo os olhos. O que para mim é um bocado complicado, porque não consigo conhecê-las. Agora só trabalho com homens, apesar de termos a intenção de trazer o futebol feminino para a cidade. Para já, ainda só treinam dentro das escolas, que têm muros. Vamos tentar, passo a passo, que seja possível irem para fora.

Entre homens, a treinadora ganha espaço (e respeito) no futebol saudita - Foto: D.R.
Entre homens, a treinadora ganha espaço (e respeito) no futebol saudita - Foto: D.R.

— As raparigas não podem ser vistas por homens?

— Podem, na academia em Medina já há mais essa abertura e qualquer pessoa pode ir ver um jogo de futebol delas. A estratégia com os homens é: só os cumprimento se eles também me esticarem a mão. Se não, só digo olá e eles não me tocam. Há umas questões culturais que tenho de perceber e ajustar-me, como com os miúdos mais pequenos, que olham para mim diferente porque veem uma mulher com o cabelo diferente, destapada, e acham estranho, à primeira. Mas depois já me vêm cumprimentar. Quanto aos mais velhos já começa a ser diferente. Eu insisto: digo sempre olá, mesmo que fique pendurada. Com o tempo, lá vão cumprimentando, meio envergonhados, mas vão cumprimentando.

— É tudo questão de habituação?

— É como o conceito de calor deles, em que com 43 graus Celsius (ºC) ainda se está bem. Quando chegar aos 50 ºC é que acham que é calor. Para mim com 43 ºC já é insuportável estar na rua. O conceito que têm das coisas é diferente do nosso e, por isso, é que acho que os treinadores portugueses são capazes de se adaptar a todo o envolvimento. Essa é a minha função: adaptar-me, perceber o contexto e tentar ajudá-los ao máximo dentro daquilo que conseguem não só perceber, mas aprender.

A iniciar sessão com Google...