Carlos Queiroz, 73 anos - Foto: IMAGO
Carlos Queiroz, 73 anos - Foto: IMAGO

Pragmatismo e compromisso: como Carlos Queiroz revolucionou o Gana em dois meses

Único treinador português no Mundial está à porta da fase final após duas jornadas em que rematou apenas três vezes à baliza adversária. Nem Inglaterra conseguiu furar a muralha

Pragmatismo é palavra inegociável no dicionário futebolístico de Carlos Queiroz no Mundial 2026. O técnico de 73 anos comandou o Gana até um empate surpreendente contra Inglaterra (0-0), na noite de terça-feira, que escancarou as portas da fase final da prova.

A seleção africana soma quatro pontos em duas jornadas no Grupo L, após ter vencido o Panamá (1-0) e empatado com os ingleses (0-0). Registo notável tendo em conta que o casamento entre Gana e Carlos Queiroz teve início há apenas dois meses.

O Gana oficializou o despedimento de Otto Addo, antecessor de Carlos Queiroz, a 31 de março, a apenas 72 dias do Mundial. O antigo jogador tinha garantido a qualificação para o Mundial, mas, anteriormente, já tinha falhado o apuramento para a Taça das Nações Africanas de 2025.

Duas derrotas em duelos particulares contra Alemanha (1-2) e Áustria (1-5) foram a gota de água. Otto Addo foi despedido e Carlos Queiroz foi o escolhido para liderar o Gana no Mundial 2026.

Na conferência de imprensa de apresentação, a 23 de abril, o experientíssimo treinador luso não fugiu ao peso do cargo. «Este é o maior desafio da carreira», exclamou. O Mundial estava ao virar da esquina: «Estamos a correr contra o tempo, mas com a experiência do staff, e especialmente com os nossos jogadores, estou muito confiante que vamos conseguir.»

«Se jogarmos como equipa, podemos bater qualquer adversário», frisou. O mote estava dado. Carlos Queiroz começou a preparar o quinto Mundial da carreira, depois de ter comando Portugal, em 2010, e o Irão, em 2014, 2018 e 2022. Apenas Carlos Alberto Parreira (seis) disputou mais fases finais do que o treinador luso.

A ausência forçada de Mohammed Kudus, fustigado por lesões na última época, do Mundial retirou poder de fogo e explosão atacante a uma equipa assente na força do coletivo. Consciente das limitações da matéria prima à disposibição, o selecionador privilegiou a estabilidade defensiva.

Carlos Queiroz até perdeu contra o México (0-2), a 23 de maio, e empatou com o País de Gales (1-0), a 2 de junho, nos primeiros dois duelos ao serviço do Gana, mas tudo mudou assim que as luzes mundiais se acenderam. Compromisso defensivo e matreirice na transição rápida decidiram a partida contra o Panamá (1-0) na primeira jornada.

Mais de 90 minutos de solidez defensivo antecederam um rasgo individual de Brandon Thomas-Asante, sangue novo saído do banco, e a frieza de Caleb Yirenkyi, que assinou o golo da vitória aos 90-5'. Carlos Queiroz tornou-se no treinador mais velho a triunfar em Mundiais numa partida em que teve apenas 38% de posse de bola.

A Inglaterra era, teoricamente, um desafio ainda mais duro de roer na segunda jornada, mas o pragmatismo de Queiroz voltou a fazer diferença. O bloco baixo e compacto neutralizou os movimentos dos ingleses, que somaram apenas três remates à baliza. A corrida do relógio potenciou o número de saídas rápidas dos ganeses, sem nunca destapar demasiado o próprio meio-campo.

A solidariedade defensiva deu frutos, o nulo permaneceu até ao apito final e o Gana ficou a um pequeno passo da primeira fase a eliminar desde 2010, após ter tido apenas 21% de posse de bola. Ao fim de duas jornadas apenas quatro seleções ainda não sofreram golos na prova: México, Espanha, Argentina... e os comandados de Carlos Queiroz.

A solidez, compromisso defensivo e eficiência nos duelos mereceram a admiração do selecionador inglês, Thomas Tuchel: «Raramente vi uma exibição tão física de uma equipa. Defenderam com dez jogadores num bloco muito baixo. Foi difícil para nós porque eram muito disciplinados e muito físicos. Ao mesmo tempo tens de ter cuidado para não sofrer em contra-ataque.»

A análise do técnico alemão exalta os pilares da estratégia de Carlos Queiroz: neutralizar as tentativas de um adversário com mais bola do que espaço para criar e tentar surpreender em transições rápidas.

Três remates à baliza, um golo marcado, nenhum sofrido e quatro pontos conquistados em duas jornadas. Trabalho notável do único treinador português no Mundial 2026.

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