Aleksander Ceferin, presidente da UEFA (à esquerda) e Gianni Infantino, presidente da FIFA (à direita) - Foto: IMAGO

Durante quase uma década, Gianni Infantino construiu uma imagem de líder politicamente invencível. Sobreviveu ao rescaldo do FIFA Gate, enfrentou as críticas ao Mundial do Qatar, expandiu o Campeonato do Mundo para 48 seleções, criou um novo Mundial de Clubes, reforçou a capacidade financeira da FIFA como nenhum dos seus antecessores e construiu uma rede de influência que fazia parecer impossível imaginar uma alternativa à sua liderança. Sempre que surgia uma polémica, parecia sair politicamente mais forte. Mas, pela primeira vez desde que assumiu a presidência da FIFA, em 2016, o suíço encontra-se verdadeiramente fragilizado.

A história demonstra que dirigentes de grandes organizações raramente caem devido a um único escândalo. Caem quando diferentes episódios, aparentemente desconexos, começam a contar a mesma história. É precisamente isso que parece estar a acontecer…

Nos últimos meses, sucederam-se sinais que, isoladamente, talvez fossem ultrapassáveis. Em conjunto, porém, desenham um cenário político muito mais complexo. O primeiro sinal surgiu durante o Mundial. A polémica em torno da revisão do castigo aplicado a Folarin Balogun, após contactos entre Donald Trump e Gianni Infantino, desencadeou críticas, pedidos de esclarecimento e alimentou dúvidas sobre a independência da FIFA. Embora algumas das acusações mais graves nunca tenham sido confirmadas, o episódio marcou o início de uma sucessão de polémicas que deixou de ser ignorada.

Pouco depois surgiu aquela que poderá tornar-se a crise mais séria do seu mandato: o projeto FIFA Forward Enterprise. A tentativa de criar uma estrutura destinada a permitir a entrada de investidores privados na exploração comercial das principais competições da FIFA transformou-se na maior derrota política de Gianni Infantino desde que chegou ao cargo. A proposta acabou retirada perante a oposição de várias confederações, mas o verdadeiro dano já estava feito: expôs divisões internas, fragilizou a liderança do presidente e abriu uma crise de confiança sem precedentes.

A contestação não nasceu apenas da possibilidade de entrada de investidores privados. Nasceu porque muitos dirigentes entenderam que Gianni Infantino ultrapassou uma linha que nunca deveria ser cruzada. O Campeonato do Mundo nunca foi visto como um simples ativo comercial. É o maior património coletivo do futebol mundial, construído ao longo de quase um século por jogadores, seleções, adeptos e federações. A possibilidade de alienar parte da exploração económica da competição foi interpretada por muitos como uma cedência inédita dos interesses do futebol aos interesses do mercado.

O paradoxo tornou esta crise ainda mais difícil de compreender. A FIFA nunca teve receitas tão elevadas, nunca vendeu tantos direitos televisivos nem captou tantos patrocinadores. Não existia uma necessidade evidente de liquidez. Por isso, a proposta deixou rapidamente de ser analisada apenas do ponto de vista financeiro e passou a levantar uma questão muito mais incómoda: porque razão vender parte do ativo mais valioso da organização quando não existe necessidade de o fazer?

A polémica ganhou uma dimensão ainda maior quando o The Times revelou que, caso a FIFA Forward Enterprise avançasse, Infantino poderia assumir funções executivas na nova estrutura, com uma remuneração anual na ordem dos 30 milhões de dólares, além de eventuais bónus. A FIFA contestou a informação, mas a simples possibilidade de um benefício direto para o presidente foi suficiente para alimentar a perceção de um potencial conflito de interesses e aprofundar a desconfiança em torno do projeto.

Pela primeira vez desde 2016, começaram a surgir movimentos organizados de contestação política à liderança de Gianni Infantino. A UEFA deixou de esconder o desconforto. Várias federações europeias anunciaram que não apoiarão uma nova candidatura. Também na CONCACAF aumentaram as reservas quanto ao atual modelo de governação. E até figuras que, durante anos, evitaram confrontos públicos começaram a levantar dúvidas.

O príncipe Ali bin Al Hussein, antigo candidato à presidência da FIFA, acusou mesmo Gianni Infantino de pressionar a Federação Jordaniana de Futebol a apoiar a sua recandidatura em troca de apoio institucional. A FIFA rejeitou a acusação, mas o episódio ilustra o crescente nível de deterioração das relações políticas em torno da presidência.

Como se isso não bastasse surgiu, entretanto, outra polémica potencialmente ainda mais sensível. O jornal britânico The Times revelou que Gianni Infantino terá alegadamente prometido a Marrocos a organização da final do Campeonato do Mundo de 2030 em troca de apoio à sua continuidade na liderança da FIFA. A organização rejeitou categoricamente a notícia, mas o simples facto de uma acusação desta natureza ganhar dimensão internacional contribuiu para aprofundar as dúvidas em torno da forma como o poder está a ser exercido no seio da FIFA.

O primeiro verdadeiro sinal de fratura surgiu, porém, com a demissão de Carlos Cordeiro. Não era um dirigente qualquer da FIFA. Era um dos principais conselheiros de Gianni Infantino e um dos homens mais próximos do presidente. Ao abandonar funções, fê-lo de forma pública, afirmando que não podia aceitar um projeto que passava pela alienação de parte do maior ativo comercial da organização. 

O maior erro de Gianni Infantino até pode nem ter sido o conteúdo da proposta, mas a forma como tentou conduzi-la. As principais confederações acusaram a FIFA de falta de transparência e de ausência de consulta prévia. Várias federações perceberam que decisões estruturais estavam a ser preparadas sem qualquer debate interno.

Mas talvez o momento mais simbólico tenha sido outro: Arsène Wenger. Durante anos, Wenger foi um dos rostos mais respeitados da estrutura da FIFA e um dos homens em quem Gianni Infantino mais confiou para liderar o desenvolvimento global do futebol. Nunca foi conhecido por protagonizar conflitos públicos nem por alimentar guerras institucionais. É precisamente por raramente levantar a voz que, quando o faz, todos escutam. Ao revelar que nunca tinha sido informado sobre a criação da FIFA Forward Enterprise e que apenas tomou conhecimento da iniciativa através da comunicação social, Wenger expôs uma falha grave no processo de decisão. Mais do que isso, ao afirmar que a retirada da proposta era «absolutamente necessária e inquestionável», deixou uma das críticas mais contundentes à liderança de Infantino. Quando até uma das figuras mais respeitadas e leais da estrutura da FIFA sente necessidade de se demarcar publicamente do presidente, percebe-se que a crise já não está à porta da organização. Chegou ao seu núcleo mais próximo.

Como se tudo isto não bastasse, surgiu outra voz particularmente simbólica: Luís Figo. Antigo candidato à presidência da FIFA, um dos protagonistas da mudança que conduziu ao fim da era Blatter e atualmente conselheiro da UEFA, Figo defendeu publicamente que Gianni Infantino deve abandonar a presidência da FIFA. Acusou-o de ter degradado o cargo que prometeu dignificar, de colocar interesses pessoais acima dos interesses do futebol e de comprometer a credibilidade da organização. Mais do que a dureza das palavras, impressiona a origem da crítica. Quando uma figura que participou no processo de renovação da FIFA considera que é necessária uma nova liderança, percebe-se que a contestação deixou definitivamente de vir apenas dos adversários.

Ao mesmo tempo, a contestação deixou de ser um exclusivo da UEFA. A proposta conseguiu aquilo que parecia improvável: aproximou posições entre diferentes confederações e gerou um movimento de oposição transversal ao estilo de liderança de Infantino. O projeto caiu antes mesmo de ser formalmente discutido, sinal de que o presidente percebeu que insistir significaria aprofundar uma fratura institucional difícil de reparar.

Entretanto, a contestação ultrapassou as fronteiras do futebol. O primeiro-ministro britânico afirmou publicamente que Infantino é «a pessoa errada para liderar a FIFA». Independentemente do contexto político da declaração, ela demonstra que a crise de credibilidade do presidente da FIFA passou a ter expressão no plano institucional internacional.

O futebol sempre conviveu com interesses económicos. Direitos televisivos, patrocínios e investimento privado fazem hoje parte da realidade do jogo. A diferença é que nunca ninguém tinha colocado o próprio Campeonato do Mundo na lógica de um ativo suscetível de ser parcialmente alienado. Para muitos dirigentes, esse momento marcou uma fronteira ética. Não estava apenas em causa um negócio. Estava em causa a natureza da competição mais importante do futebol mundial.

É verdade que Gianni Infantino continua longe de estar politicamente derrotado. Mantém apoios importantes, sobretudo em África, onde os programas de financiamento da FIFA continuam a assegurar uma base de sustentação eleitoral muito significativa. Mas isso já não basta para transmitir a imagem de inevitabilidade que o acompanhou durante tantos anos.

As eleições do próximo ano deixaram de parecer uma mera formalidade. Pela primeira vez desde 2016, discute-se seriamente quem poderá suceder-lhe. Nomes como Victor Montagliani, presidente da CONCACAF, Aleksander Ceferin, líder da UEFA, Sheikh Salman bin Ibrahim Al Khalifa, presidente da Confederação Asiática, Nasser Al-Khelaifi, uma das figuras mais influentes do futebol mundial, Lise Klaveness, Pierluigi Collina ou até Luís Figo são lógicos potenciais sucessores, embora nenhum tenha assumido formalmente uma candidatura. 

Gianni Infantino pode ainda vencer as próximas eleições. Continua a dispor de influência e seria um erro subestimar a sua capacidade política. Mas há uma realidade impossível de ignorar. Durante anos, foram os adversários que tentaram derrubá-lo. Hoje, são os seus próprios aliados que começam a afastar-se. E a história do desporto mostra-nos que é quase sempre assim que terminam as grandes lideranças. Não quando perdem os inimigos. Mas quando deixam de convencer aqueles que sempre caminharam ao seu lado. Talvez este ainda não seja o fim imediato de Infantino. Mas tudo indica que poderá ser, cada vez mais, o princípio do fim.

«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».




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