«Fi-lo por amor»: Mourinho revela o «não» mais dramático da carreira
A revelação de que José Mourinho esteve a poucas horas de se tornar sucessor de Sir Alex Ferguson no Manchester United é um dos momentos mais surpreendentes do novo documentário da Netflix sobre o treinador português. O acordo chegou a estar assinado, mas uma decisão tomada «com o coração» mudou tudo e levou Mourinho de volta ao Chelsea.
A série documental de três episódios, intitulada Mourinho, estreia esta terça-feira e recupera episódios marcantes da vida do técnico português, que se prepara para iniciar uma segunda passagem pelo Real Madrid.
Um dos capítulos mais inesperados remonta ao verão de 2013. Mourinho acabava de deixar o Real Madrid, depois de três anos em Espanha que terminaram sem troféus na derradeira temporada e com uma relação cada vez mais desgastada com grande parte do plantel, incluindo o conhecido conflito com o capitão Iker Casillas. Ao mesmo tempo, em Manchester, Sir Alex Ferguson anunciava o fim de uma era: deixava o clube após 26 anos no comando.
Era o momento perfeito para uma sucessão histórica. E Mourinho chegou mesmo a estar destinado a ocupar o lugar do escocês.
«Penso que o objetivo deste trabalho que estamos a fazer é contar a verdade. Quando saí do Real Madrid, assinei com o Manchester United para ir para o Manchester United depois de Sir Alex», confessa Mourinho no documentário.
Ferguson confirma a história e revela como tudo se decidiu — e desfez — num espaço de poucas horas. «Sim, foi-lhe oferecido o cargo. Sentei-me com ele e expliquei-lhe a situação. E, tanto quanto me dizia respeito, ele estava a aceitar. E depois, em poucas horas, tudo mudou», recorda o lendário treinador escocês.
A mudança não terá sido fácil para Mourinho. Segundo Ferguson, o português telefonou-lhe nessa noite, emocionado, para explicar a decisão. «À noite, ele telefonou-me a chorar e disse: 'Não consigo aceitar, dei a minha palavra ao Chelsea e não vou quebrar a minha palavra'», conta Ferguson, que, apesar da desilusão, acabou por compreender os motivos apresentados.
Mourinho tinha escolhido o coração. E o coração apontava para Stamford Bridge.
Depois de uma passagem emocionalmente desgastante por Madrid, o treinador sentia necessidade de regressar a um lugar onde tinha sido feliz e, sobretudo, amado. «Para mim, perder a oportunidade de ser o treinador sucessor de Sir Alex Ferguson foi dramático. Mas não me arrependo, porque foi uma decisão que tomei com o coração», afirma, antes de citar Nietzsche: «E penso que é Nietzsche que diz que quando se faz algo por amor, nunca se está a fazer nada de errado. Fi-lo por amor».
O destino, porém, não tinha terminado a história com Manchester. Três anos depois de ter recusado suceder a Ferguson, Mourinho acabaria mesmo por sentar-se no banco de Old Trafford. Chegou em 2016 e permaneceu durante dois anos e meio, período em que conquistou uma Liga Europa e uma Taça da Liga.