Ex-Arouca acredita que pode ser melhor treinador do que foi jogador

«Posso ser melhor treinador do que jogador»

David Simão prepara novo passo na carreira

Dois meses depois de rescindir contrato com o Arouca, de forma surpreendente, David Simão concede entrevista a A BOLA. Neste excerto da conversa o esquerdino fala da transição para a carreira de treinador que deseja abraçar.

O David é um bom exemplo de um jogador que amadureceu muito bem, que foi ficando mais refinado, inteligente, clarividente. Teve muitas vezes aquele pensamento: "Ai se eu soubesse o que sei hoje"? 

Tive, claro. E eu fui sempre muito exigente. Com os outros e comigo. Também comecei a perceber que poderia, aqui e ali, ter feito diferente, e dado mais de mim, sobretudo ao treino. Eu cresço num contexto muito facilitado, em que eu era muito bom e os meus colegas também eram muito bons, então enquanto equipa éramos muito melhores que os outros, o que não me obrigou a puxar, a ir ao meu limite. Trabalhava nas melhores condições, no melhor complexo de Portugal, e depois passei para uma realidade que, ainda que seja boa, não tem o nível do Benfica. Mais tarde percebi que, se calhar, não entregava tudo de mim, e isso não me permitia render ao nível a que eu achava que podia render e que queria render. Esse é o meu maior arrependimento.

E do ponto de vista tático? Os jogadores formados nos grandes estão habituados a um futebol dominador, e depois, quando chegam ao futebol profissional, vão para realidades distintas, de escalões inferiores ou equipas que lutam pela permanência na Liga…

Agora a formação deixa um bocadinho o resultado para segundo plano. Se nós formos ver no Benfica, FC Porto, Sporting e eventualmente o Braga, todos os meninos começam a jogar um escalão acima. Isso faz com que eu tenha que jogar com pessoal mais velho, e vamos equilibrar. Na minha altura eu ganhava 20-0. Isso já não existe. Muitas vezes o Benfica perde com o Alverca, por exemplo. Mas agora isso não interessa muito, e então jogam os sub-15 do Benfica contra os sub-16 do Alverca. Isto faz com que eles tenham que se pôr à prova todos os fins de semana, que era algo que eu não fazia. A maior parte dos meus fins de semana era um bocado à minha vontade: se era 50% dava para ganhar 4-0, se fosse 100% dava para ganhar 25-0. 

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O David começou como 10, e só mais perto dos 30 anos é que começou a recuar no terreno, para 8. Teria sido melhor para a carreira recuar mais cedo no terreno?

Não, não. Faz parte do crescimento também como jogador, perceber quais eram as minhas características e em que espaço é que eu poderia pisar para que o meu jogo sobressaísse, não é? E que apagasse aquilo que eram um bocadinho as minhas debilidades, porque todos temos. Foi o meu crescimento natural. Acho que, se não tivesse passado pela posição 10, também não iria entender muitos dos espaços que eu descobria quando jogava numa posição um mais recuado. 

Toda essa visão macro que o David foi adquirindo agora é para colocar em prática como treinador, então?

Fui preparando isso. Às vezes poderia ser confundido, porque eu gosto de questionar. E vou gostar que me questionem como treinador, OK? Acho que há locais para tudo, como é óbvio, mas a minha equipa técnica terá de me questionar, não quero que me digam sempre que sim, porque eu não vou estar sempre certo. E os jogadores também. Claro que a decisão é minha, porque eu sou o treinador e tenho que tomar as decisões. Mas não é uma coisa estanque. Quero ter uma mente bastante aberta. Sobretudo quero conseguir chegar aos jogadores e fazer-lhes entender que aquela ideia é a que vai tirar maior rendimento de cada um e consequentemente da equipa.

Se os jogadores não comprarem a ideia...

Acho que, aí, a parte da comunicação também é importante, e eu estou confortável com isso. Acho que é uma mais-valia que posso eventualmente ter no futuro. Mas não vou estar sempre certo. O futebol está em constante evolução, não há segredos, as equipas estudam-se mutuamente. Se não conseguirmos evoluir e perceber que há mais do que aquilo que está na nossa cabeça… Duas cabeças pensam melhor do que uma. Três ou quatro irão efetivamente pensar ainda melhor. Agora, a partir do momento em que eu fechar a porta, a ideia não é do Manuel ou do Joaquim, é nossa. Mesmo que eles não concordem, vão dizer que concordam, porque é a nossa ideia. Caso contrário isso passa desconfiança aos jogadores.

O David Simão treinador pode ser melhor do que o jogador?

Vai ser... Como é óbvio irá muito ao encontro daquilo que o David jogador gostava, uma ideia de jogo boa, com bola, pressionante. Portanto, acho que vai ser ali um bocadinho de um misto, das minhas vivências, de todos os treinadores que encontrei, de todas as dificuldades também. Eu ia para casa pensar sobre jogos, embora não os visse depois. Não era daqueles que chegava e puxava para trás, tinha o jogo bem presente na minha memória, mas questionava. “Porque é que a bola não chegou? Foi o central que não me dava muita bola? Foram eles que já me perceberam e aquele espaço estava sempre ocupado?”. O David treinador vai ser… pode ser melhor do que o jogador.

Existe já um primeiro projeto em andamento…

É um projeto de verão, para crianças e adolescentes, dos 6 aos 15 anos. Vão estar connosco das 9h às 17h, em Carcavelos, tudo muito direcionado para o futebol, com vertente física, técnica e mental. Vão ser cinco semanas - quatro de julho e uma de agosto -, e a parte lúdica estará sempre presente, porque deve existir essa liberdade para os meninos brincarem, fintarem, rirem, festejarem. Queremos que essa semana seja quase inesquecível, e que fiquem ansiosos por voltar no ano a seguir e fazerem novas amizades. Vamos ter figuras do futebol, grandes nomes: Rita Fontemanha, Adrien, Éder, Pizzi e André Almeida vão estar presentes.