O ringue e o silêncio
A diferença entre Florentino Pérez e Rui Costa não se mede por títulos nem por popularidade, mas pela forma como enfrentam o que o futebol impõe aos que têm de decidir. Pérez, também reeleito este ano, tal como Rui Costa, convocou eleições antecipadas no Real Madrid, mesmo com sete Champions League no currículo e uma base sólida de confiança. O gesto é simples e ao mesmo tempo complexo: dá voz aos sócios, enfraquece qualquer oposição e, acima de tudo, projeta uma imagem de líder que não espera ser desafiado para agir. Demonstra clareza e audácia, um movimento pensado para controlar a narrativa antes que a narrativa o controle a ele.
Há aqui algo a elogiar, não apenas pela estratégia, mas pelo sentido de presença. A liderança aparece como uma exigência de visibilidade, de decisão e de coragem, e Pérez dá a lição de que um presidente de um grande clube deve saber saltar para o ringue mesmo quando ninguém lhe exige, apenas porque o momento assim o pede.
Rui Costa, no Benfica, mostra o contraste. Depois do empate com o SC Braga, que deixou a equipa em terceiro lugar, foi ele o alvo da contestação. Não o treinador, como aconteceu num passado recente a Schmidt ou Bruno Lage, mas o presidente. Os adeptos, muitos deles a passarem qualquer barreira do admissível, subiram na hierarquia para responsabilizar o líder máximo. O mesmo que foi reeleito com boa margem em Outubro, mas a quem agora muitos querem dizer, ou dizem a gritar, que não lhe passaram um cheque em branco.
Rui Costa não se expõe com gestos firmes, não projeta uma estratégia de defesa ou de ataque mesmo perante uma contestação que vai muito além dos limites do razoável como aquela de que foi alvo na Luz depois do empate com o SC Braga. Pode ferver por dentro, mas mantém-se discreto, quase distante, deixando que outros assumam o palco. É uma posição legítima quando se está a ganhar, mas insuficiente num momento em que o clube desespera por uma presença clara, de alguém que mostre firmeza e capacidade de decidir com visibilidade e energia. A força silenciosa da entrega pessoal não substitui a necessidade de sinais públicos de comando e confiança. E é nesse silêncio que se nota a fragilidade de um líder que se recusa a entrar no ringue.
A diferença entre estes dois presidentes revela-se, antes de tudo, na leitura do momento. Pérez atua com frontalidade, comanda o jogo, transmite poder e segurança. Rui Costa observa, pondera, demora e espera que a prudência silenciosa possa equilibrar um cenário totalmente adverso. Cada um é como cada qual. E há muitas formas de liderar. Mas não basta amar o clube (e ninguém duvida desse amor e dessa entrega da parte de Rui Costa), investir muito, ficar eufórico com as vitórias ou desolado nas derrotas.
É preciso aparecer quando a circunstância exige, projetar autoridade e agir com clareza estratégica. É nesse contraste que se percebe a dimensão de um presidente que sabe que a sua função não é apenas gerir recursos ou contratar treinadores, mas manter a confiança e o respeito dos que o rodeiam, mesmo quando os resultados desportivos abalam a estabilidade.
No fim, a comparação não é apenas de estilo, mas de eficácia diante da realidade. Enquanto Pérez salta para o centro do ringue e toma a iniciativa, Rui Costa observa o palco e mantém-se à margem. E essa diferença, mais do que qualquer outra métrica, define a capacidade de liderar um grande clube.
Entre Madrid e Lisboa, entre audácia e prudência, aprendemos que a liderança é tanto uma questão de presença como de visão, e que o silêncio, por mais respeitável que seja, não pode substituir a decisão no momento certo.