As exemplares éticas japonesa e nórdica no cumprimento da tarefa obrigatória (crónica)
O Sporting garantiu a possibilidade de aceder a muitos milhões da UEFA Champions League com um jogo seguro, nada precipitado e, aparentemente, pouco sujeito a humores provocados pelo que o adversário direto para o segundo lugar, o Benfica, pudesse fazer poucos quilómetros a Oeste, no Estoril.
Com um compromisso ainda agendado para esta temporada — a final da Taça, no próximo domingo — os leões vão torcer por fora na quarta-feira e no mesmo domingo do Jamor. Isto porque a felicidade do Aston Villa pode ser a felicidade do leão. Caso vença a Liga Europa, na quarta-feira, e mantenha o quarto lugar com que entrará na última jornada da Premier League, o clube de Birmingham viabilizará, indiretamente, a entrada direta do Sporting na fase de grupos.
Para já, e depois de muitas oscilações ao longo desta reta final de temporada, o leão cumpre o objetivo mínimo de ficar no segundo posto. A equipa, sentiu-se, entrou em campo ciente de que não era dia para falhar, mas também não era dia para entrar em velocidades furiosas e ansiosas que pudessem colocar em causa o controlo que o Sporting queria ter sobre o desenrolar do jogo.
Marcou muito cedo o Benfica no Estoril, e ninguém nos venha dizer que não liga ou não sabe. Até ao primeiro quarto de hora de jogo o leão estava fora da Champions, sobretudo porque um remate de Hjulmand logo aos três minutos não entrou. Entre Quaresma marcar o 1-0, com irrepreensível cabeceamento na sequência de canto de Pote, e festejar o feito os encarnados meteram mais dois na Amoreira. E é claro que todos em Alvalade sabiam, mas era tempo de respirar ainda mais tranquilamente.
O Sporting tinha bola, tinha os comandos do jogo e criava bons momentos. Sem avalanche ofensiva, o leão soube ser superior e dominante. Criou oportunidades e aos 34 minutos chegou o 2-0, com assistência de calcanhar (!) de Morita. Cumpre, aqui, abrir importante capítulo para falar de Morita e de Hjulmand. Em relação ao japonês está tudo dito e assumido, em relação ao dinamarquês o mercado ditará as suas leis, mas parece ponto assente que a dupla de pivôs do meio-campo se despediu de Alvalade.
A ética de trabalho irrepreensível de ambos — cada um à sua maneira e com a sua mundividência — deixa marcas e não deixa de existir alguma justiça poética no facto de, na noite do adeus, o japonês ter sido uma vez mais o melhor em campo e o dinamarquês o líder de sempre, quando até se pensava que não estaria em condições de jogar, com a cereja no topo de bolo de ter feito o terceiro golo leonino já na compensação da partida.
O caminho até este 3-0 não foi, valha a verdade, muito sinuoso para os donos da casa. A vantagem de dois golos ao intervalo deu almofada para reagir à boa entrada do Gil Vicente na segunda parte e ao fim de 15 minutos o controlo esta readquirido.
O Gil — que grande campeonato! — só tinha rematado aos 42 minutos e voltou a fazê-lo com perigo aos dois da segunda metade. Em ambas as ocasiões por intermédio de Luís Esteves e com boas respostas de Rui Silva na baliza leonina.
Passado o tal primeiro quarto de hora da segunda parte, o Sporting retomou, já se disse, o comando do encontro. Aventurou-se muito menos que na primeira parte, mas manteve a área e a baliza quase sempre a salvo e ainda foi tentando ampliar a vantagem. Sob as precisas e preciosas batutas de Morita (entretanto substituído com direito a palmas de pé e lágrimas nos olhos) e Hjulmand, o leão foi, enfim, seguro rumo à Europa, confirmando tudo mesmo no final do jogo.