Ex-Arouca diz que teve «zero influência» no percurso do filho, Martim, a quem atribui todo o mérito

David Simão fala do filho: «Basta ver que eu fui formado no Benfica e ele está no FC Porto»

Martim Simão, de 15 anos, já é internacional português

Dois meses depois da surpreendente rescisão com o Arouca, David Simão concede entrevista a A BOLA. Neste excerto da conversa fala do filho, Martim, que está na formação do FC Porto.

O David tem um filho, o Martim, que está nos escalões de formação do FC Porto e já é internacional português [está agora ao serviço da seleção sub-16, no Torneio de Montaigu]. Ainda colocou o cenário de jogar com ele?

Podia ter acontecido. Mas não, por agora quero que ele desfrute. Está num contexto muito giro. Já é algo que ele leva mais a sério, porque tem 15 anos mas já está no FC Porto, e este espaço de seleção é um espaço de elite, que é para muito poucos. E eu tento que ele entenda isso, e que a parte lúdica do jogo esteja sempre presente. Não quero que ele tenha demasiada carga, mas ao mesmo tempo ele já leva isto muito a sério, e eu também gosto que ele tenha esse peso e essa responsabilidade de perceber que está num clube de dimensão mundial e numa das melhores seleções do mundo.

E gostava de o treinar um dia?

Se tiver de ser. Acho que ele é que não gostava (risos).

Então?

No verão ele não gosta de estar parado. Então eu dava-lhe uns treinos, a ele e a mais dois ou três amigos. Apertava com eles, e ele, muitas vezes, dizia: "Pá, não quero ser treinado por ti, és muito duro, és muito exigente". Por isso acho que ele é que não ia gostar. Mas já tivemos vários casos, se calhar o mais mediático o Sérgio Conceição, com o Francisco. Não descarto essa possibilidade. Era sinal de que podia passar mais tempo com ele, de preferência num bom clube, era sinal que eu estava a fazer uma boa carreira e ele igualmente.

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É fácil fazer aqui essa gestão: querer acompanhar, mas ao mesmo tempo dar espaço ao Martim?

É difícil, confesso. É difícil. Muitas vezes falo com a minha esposa e digo-lhe: "Não sei se este é bem o caminho ou não". O meu pai também me dava sempre algumas dicas, e eu dizia-lhe sempre a mesma coisa: "Você não é o meu treinador. O meu treinador está lá no Benfica, não é você". E ele: "Pronto, está bem, eu nunca sei nada". E às vezes digo ao Martim que ele podia subir mais, ou algo assim, e ele responde: "Pai, eu faço o que o treinador me pede". E eu fico desarmado e digo: "Claro que sim, filho. Tens toda a razão. Se calhar estou a dizer uma coisa que nem se enquadra em ti, era algo que eu projetava se fosse o treinador". Mas ele tem muito isso, tenta muito seguir aquilo que lhe pedem. E eu encantado, agora quase como treinador, a pensar que também gostava de ter jogadores a tentar replicar exatamente aquilo que eu peço. Ele está no processo de formação de jogador, eu no processo de formação de pai. Quando é o nosso filho as coisas tocam-nos de forma diferente. Eu sei a teoria toda de como os pais devem acompanhar um filho num processo de formação de futebol, mas às vezes ele nem quer falar do jogo. Mas já estou muito mais relaxado. Cada vez mais deixo-o errar por ele, fazer coisas boas por ele. Depois também há aquela crueldade de, por vezes, ouvirmos que aquele menino está ali porque é filho de A, B ou C. E o que me deixa mais feliz é saber que não tive qualquer influência. Basta perceber que eu fiz a minha formação toda no Benfica e ele foi chamado para o FC Porto. E ligaram à mãe, não ligaram sequer ao pai. Fico contente por ele sentir que tudo o que vai conquistando, que ainda é muito pouco, foi tudo por ele, zero influência do pai ter sido jogador profissional durante muito tempo e conhecer efetivamente algumas pessoas. Nunca tentei mover influências para que isso acontecesse, exatamente para ele perceber que é capaz. Pode ser a última vez que foi à seleção, mas ter estado lá, ter estado no FC Porto, é tudo dele, não é nada meu. 

O que é que ele tem do David, como jogador e até mesmo como pessoa?

Pé esquerdo, não é? Esse é o mais visível. É lateral-esquerdo, e nesta nova vaga em que muitas equipas usam três centrais, acho que ele é esse menino. E gosta muito de ligar, ver jogo de frente. Isso acho que é um bocadinho meu. Ele é um lateral-esquerdo que liga num médio centro do lado direito, uma picada por cima de uma linha média. É algo que eu vi pouco enquanto sénior, e no futebol de formação ainda menos. Joga melhor de pé direito do que eu, está confortável com isso, eu era um desastre. Depois joga mais recuado, por isso eu tinha mais golos, mais assistência.