David Simão em entrevista ao jornal A BOLA, esta quarta-feira

David Simão em entrevista: «Saída do Arouca foi um choque, mas já ultrapassei»

Em conversa com A BOLA, esquerdino revela pormenores da rescisão de janeiro e assume que será difícil voltar a jogar

Dois meses depois de ter rescindido com o Arouca, de forma surpreendente, David Simão concede uma entrevista a A BOLA. Neste excerto da conversa o esquerdino explica a saída do clube pelo qual fez mais de 200 jogos, e assume que o mais provável é que a carreira de jogador já não seja retomada.

Entrada a pés juntos: estou perante um jogador sem clube ou um ex-jogador?

Acredito que ex-jogador. Conhecendo o mercado e olhando para as decisões dos clubes, mais recentemente, alguém com a minha idade não é muito fácil voltar a entrar, pelo menos no nível que eu, felizmente, consegui ter durante a minha carreira toda. Portanto, acredito que estamos mais a segunda opção.

Mas não está a porta fechada, então?

Não, não, porque eu gosto de jogar. Mas é como digo, também sem muita ilusão. Para já quero formar-me e depois gostava de experimentar a parte de ser treinador. Vou continuar a formar-me, em abril já vou começar o UEFA A. Portanto, também já estou aqui adiantado para quem acabou de jogar em janeiro. Portanto, quero preparar-me, acima de tudo, para as oportunidades que podem chegar.

«Nem sempre termina como queremos», escreveu o David nas redes sociais, depois da rescisão com o Arouca. Foi um choque?

Sim, sim. Pela forma, não pela decisão. A decisão... estamos sujeitos a isto. Eu estive a minha vida toda sujeito a que o clube não quisesse contar comigo, faz parte, o futebol é exatamente isto. Poderia ter sido de outra forma, por aquilo que era a minha forma de estar no clube e os anos que passei lá, e ser o capitão. Eu faria de outra forma. Foi efetivamente um choque, mas também já ultrapassei, já tive oportunidade de falar até mais vezes do que aquelas que queria sobre este assunto. Não acho que esconder seja solução, que é um bocadinho o que vai acontecendo no nosso futebol, parece que tudo é um tabu. Não é. Foi uma decisão. Não quero passar uma má imagem das outras pessoas, apenas faria diferente. As pessoas têm que tomar decisões. Um dia em que esteja no papel de decisão, também terei algumas decisões que não agradam a toda a gente, é inevitável. Mas irei tentar fazer de uma outra forma, com mais respeito sobretudo pela parte do jogador. Isso para mim é ponto assente.

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Mas interpretou como decisão técnica, ou de cima, diretiva?

Não consigo responder, porque não obtive essa resposta. E, se calhar, quando me quiseram dar essa resposta, eu também já não queria, já não fazia sentido ouvir. Portanto, a decisão foi tomada. Da parte técnica, efetivamente este ano, ou até janeiro, eu tinha menos jogo. Mas ter menos jogo não significa que não seja importante. Não houve - e isso é importante deixar bem frisado - nenhum ato de indisciplina. Pelo que eu percebi depois, numa conferência de imprensa do treinador do Arouca, foi uma decisão em conjunto, do treinador com a direção. Agora a razão, eu não sei, mas também não estou muito importado em saber, na verdade.

O João Cancelo reagiu a essa rescisão, nas redes sociais, lamentando que as pessoas boas e genuínas sejam muitas vezes os vilões da história. Tentaram fazer do David um vilão nesta história?

Não, não senti isso, mas percebo que, nas entrelinhas, para o mercado, não é uma boa mensagem. Quando um capitão de um clube rescinde a quatro meses... Qual é a necessidade de mandar embora um jogador que tem tanta história no clube, quatro meses antes de acabar o ciclo? É porque se acabasse em maio, tudo bem. Acabava o contrato, fazíamos uma despedida… Ou não. Ou eu faria uma despedida, e tudo bem. Agora terminar desta forma, para quem está de fora, pode parecer…  por isso quis deixar bem frisado que não teve a ver com indisciplina. Quem conhece o João sabe que o coração está no sítio certo. 

David Simão como capitão do Arouca, frente ao Benfica, clube no qual foi formado - foto: Kapta+
David Simão como capitão do Arouca, frente ao Benfica, clube no qual foi formado - foto: Kapta+

O David é o recordista de jogos do Arouca, pelo menos a nível profissional. Não é um clube qualquer no trajeto…

Não, não. Nem vai ser! Para já porque os números estão aí e não há como apagar. E depois porque eu sinto uma gratidão muito grande ao clube que me proporcionou tantos jogos na Liga. Vivi ali coisas muito boas. Foram muitos anos. Os meus filhos cresceram na vila de Arouca. Portanto, uma coisa está ligada à outra. Tenho boas memórias de Arouca e essas é que vou levar e guardar. Não desejo mal a ninguém, nem ao clube. Muito pelo contrário. 

O mais provável é que já tenha feito o último jogo da carreira. Como queria que tivesse sido? Pensou nisso?

Teria sido preparado de uma outra forma. Gostaria de ter as pessoas que me acompanharam ao longo desta carreira, que foi longa. Parece que acaba aos 35 anos e meio, e poderia haver aqui mais espaço para mais um ano ou dois… Sentia-me nessas condições. Mas, acima de tudo, ter as pessoas mais importantes da minha vida. A minha mulher, os meus filhos, os meus pais, os meus irmãos. Porque foram esses que me acompanharam durante a minha carreira. Depois, como é óbvio, os amigos. Alguns deles ainda me dizem: "Não podes acabar assim, tens que fazer um jogo de despedida porque eu quero lá estar, quero aplaudir-te de pé, como fiz várias vezes. Merecias isso".

E o David também sente isso?

Gostava de ter tido essa oportunidade. Mas as coisas não terminam sempre da forma como nós queremos, como escrevi nas redes sociais. Não vou ficar aqui preso a este sentimento de que queria ter acabado de outra forma. Fui profissional 17 ou 18 anos, e resumir isto a uma despedida também não seria correto, nem iria ficar com um amargo de boca. Prefiro recordar todos os jogos que fiz, todas as despedidas que fiz de clubes.