Cruzamento de letra do português, que está a fazer, como sempre, um ótimo jogo

Português estratosférico no patamar das lendas... e que sorte a de Martínez!

Bruno Fernandes marcou pelo Manchester United frente ao Tottenham e só não teve participação direta em golos em dois dos últimos 12 jogos. Sucesso individual contrasta, porém, com o coletivo nos 'red devils'. De olho no Mundial, selecionador nacional esfrega as mãos com o momento exuberante do maestro luso

A alcunha assenta como uma luva a Bruno Fernandes. 'Magnífico', chamam-lhe os adeptos do Manchester United, que aparenta, por fim, estar a caminhar para dias mais alegres do que aqueles vividos ao longo dos últimos anos. Demasiados para um clube com a história que os red devils possuem e, acima de tudo, ingratos para alguém que, como o médio português, tanto tem dado dentro de campo.

Vamos à crueza dos números. Bruno Fernandes marcou, este sábado, o 104.º golo pelo emblema de Old Trafford. Números de relevo, tendo em conta que não falamos de um avançado. Sim, o internacional luso aparece não raras vezes em zonas de finalização, mas fá-lo essencialmente à custa da sua astúcia. A juntar a isto, o centrocampista está a cumprir apenas a sexta temporada completa pelo United, onde chegou em janeiro de 2020, após dois anos e meio de alto nível no Sporting.

Se aos remates certeiros juntarmos as assistências, a coisa sobe de tom... e para um número redondo: o tento marcado ao Tottenham foi a 200.ª participação direta em golo de Bruno em 314 partidas ao serviço dos de Manchester. Na era da Premier League (desde 1992), só um jogador dos red devils foi mais rápido a alcançar semelhante marca: Wayne Rooney, em 295 jogos. Para trás, um autêntico hall of fame: Cristiano Ronaldo, David Beckham, Ryan Giggs e Paul Scholes.

A história podia parar por aqui, mas é impossível não olhar para a capacidade que Bruno Fernandes vai tendo de, no seio de uma equipa que tem primado pela irregularidade, conseguir manter registos... implacáveis. Vejamos: nos últimos 12 jogos do Manchester United, o médio, de 31 anos, só não marcou ou assistiu em dois deles. E Michael Carrick, que por estes dias parece ser o homem certo para reerguer o colosso adormecido, só assumiu o leme da nau há quatro encontros.

Mais: antes do duelo deste sábado com os spurs (e de mais um golo de Bruno), a Opta realçou outro dado ilustrativo do peso do jogador luso na manobra dos red devils: somou 12 assistências nos últimos 14 encontros da Premier League. Numa amostra de jogos semelhante, só dois jogadores fizeram melhor em toda a história da Premier: Mesut Ozil e Thierry Henry, ambos pelo Arsenal... e lendas no seu próprio direito.

E é por tudo isto que impressiona (ainda mais) a incapacidade de aliar os números e as estatísticas individuais aos tão desejados títulos coletivos. Bruno Fernandes será, certamente, dos menos culpados, mas não deixa de sofrer com a incapacidade revelada pelo Man. United de se aproximar do Olimpo nos últimos anos. Contas feitas, em seis anos e meio, o português conquistou apenas uma Taça de Inglaterra e uma Taça da Liga inglesa. Tantos troféus como aqueles que tem ao serviço da... Seleção Nacional: duas Ligas das Nações. Bruno tem mais um ano e meio de contrato com os red devils. Irá a tempo de juntar pelo menos mais um título ao palmarés?

Imaginem-no, agora, no Al Hilal...

O investimento do PIF (Fundo de Investimento Público) da Arábia Saudita tem feito correr muita tinta ao longo dos últimos dias. Cristiano Ronaldo entrou em rota de colisão com o organismo à conta do que considera ser um investimento desigual entre Al Hilal e Al Nassr. Para colocar sal na ferida, o grande rival do clube de CR7, João Félix e Jorge Jesus contratou Karim Benzema ao Al Ittihad, aproveitando o conflito entre o avançado francês e o clube que é treinado por Sérgio Conceição.

Agora, caro leitor, imagine só: e se, nesta altura, Benzema fosse servido por Bruno Fernandes? Os mais esquecidos poderão não se lembrar, mas a verdade é que o médio luso esteve perto de rumar ao Al Hilal no último verão. Algo que o próprio admitiu, numa conferência de Imprensa da Seleção.

Bruno acabou por decidir pela permanência no Manchester United. Mas é impossível não pensar nos estragos que o criativo causaria no Médio Oriente, quando, na Premier League, os números que apresenta são o que são.

Atenção, Mundial: Bruno vai com tudo!

Entre números quase estratosféricos e exibições de gala, quem esfrega as mãos é Roberto Martínez. O selecionador nacional nunca se coibiu de enaltecer a importância que Bruno Fernandes tem nas aspirações da Seleção Nacional e, a julgar pelo momento de forma que atravessa, é de esperar que o maestro natural da Maia se assuma como figura de proa de Portugal no Mundial deste ano, prova que a equipa das Quinas ambiciona, finalmente, conquistar.

A verdade é que desde que o técnico espanhol assumiu o leme da Seleção, Bruno Fernandes assumiu-se como uma das figuras mais preponderantes da turma lusa: 15 golos e 12 assistências 32 encontros, o último dos quais em novembro último, na histórica goleada (9-1) aplicada à Arménia, que carimbou o passaporte português para o Campeonato do Mundo. No Dragão — e sem Ronaldo — Bruno marcou um hat trick, dando ainda a João Neves a chance de converter, de forma exímia, um livre direto. Um momento... à capitão, estatuto que o centrocampista ostentou nesse desafio.

Na teoria, Portugal vai entrar na competição mais importante do planeta com um dos melhores elencos entre as 48 seleções participantes e, a encabeçá-lo, estará Bruno Fernandes. Sozinho? Não, obviamente. Há Vitinha, João Neves, Nuno Mendes, Bernardo Silva, Rúben Dias, João Cancelo... e Ronaldo, claro. Mas Bruno assume-se, nesta altura, como o verdadeiro líder espiritual da equipa. E olhando para todos os números, os da Seleção e os do Manchester United, é impossível não sonhar com um desfecho... magnífico. Certo?