Mundial
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Os americanos querem que a malta se constipe, só pode!
PALM BEACH GARDENS — Viver um Mundial de futebol nos Estados Unidos é uma constante lição de sobrevivência que vai muito além das táticas de Roberto Martínez ou da condição física dos jogadores. A verdadeira batalha, aquela que ameaça dizimar as equipas de reportagem portuguesas antes mesmo de a fase de grupos terminar, não se joga nos relvados escaldantes do Texas ou da Florida. Joga-se, sim, no interior de cada edifício, táxi ou centro de imprensa que ousamos pisar. A conclusão é inevitável e unânime entre os camaradas de luta: os americanos querem que a malta se constipe, só pode!
É perfeitamente compreensível que, perante o bafo sufocante e a humidade extrema que encontramos em Houston ou em Palm Beach, as mentes locais procurem o conforto do fresco. O problema é que a engenharia térmica deste país não conhece o conceito de meio-termo. Onde quer que se entre, os ares condicionados estão invariavelmente programados para temperaturas siberianas, capazes de conservar criogenicamente um mamute. Passar da rua para o interior de um pavilhão é o equivalente a uma viagem relâmpago do deserto do Saara para o coração da Antártida em menos de dois segundos.
A certa altura, a rotina dos jornalistas portugueses transformou-se num bizarro desfile de moda de inverno. Tornou-se perfeitamente normal ver companheiros de redação a vestir casacos dentro das salas de trabalho, enquanto lá fora o asfalto derrete. O guarda-roupa tornou-se um jogo de paciência: veste o casaco lá dentro para não congelar, despe o casaco mal se cruza a porta giratória para não desfalecer com os quarenta graus à sombra.
Nesta Route 66 de contrastes absurdos, as farmácias locais já faturam com a nossa comitiva. Entre um drible de Cristiano Ronaldo e uma bifana no Texas, a verdadeira vitória passa por chegar ao fim do dia sem uma contratura muscular ou uma valente gripe. Alguém que avise os americanos que o bom senso também se treina.