A carta do Livre a Montenegro e Proença a pedir Marrocos fora do Mundial-2030
O partido Livre, representado na Assembleia da República por seis deputados, quer que Marrocos deixe de fazer parte da organização do Mundial-2030, em associação com Portugal e Espanha.
Nesse sentido, o grupo parlamentar, liderado por Isabel Mendes Lopes, enviou ontem ao primeiro ministro de Portugal e ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol uma carta na qual exorta as entidades nacionais a afastarem-se de Marrocos e a organizarem o Campeonato do Mundo a dois, seguindo a ideia inicial de uma candidatura ibérica.
Exmo. Senhor Primeiro-Ministro
Exmo. Senhor Presidente da Federação Portuguesa de Futebol
Assunto: Participação de Marrocos na co-organização com Portugal e Espanha do
Campeonato Mundial de Futebol em 2030
Tornou-se insustentável a participação de Marrocos na co-organização do Campeonato
Mundial de Futebol de 2030 juntamente com Portugal e Espanha. Ao desrespeito do direito
internacional para o qual o LIVRE tem vindo a alertar como as décadas de violações
sistemáticas por parte do regime marroquino dos Direitos Humanos do seu próprio povo ou a
negação da autodeterminação e repressão violenta do povo saarauí e o não cumprimento da
realização do referendo de autodeterminação adiciona-se, mais recentemente, a
instrumentalização de cidadãos marroquinos em Ceuta, inclusivamente de jovens, mulheres e
crianças para um ataque às fronteiras com Espanha, com consequências trágicas. Este
acontecimento confirma que não existem condições nem garantias políticas de segurança e de
cooperação leal entre Marrocos e Espanha e Portugal para manter esta co-organização.
Os governos de Portugal e Espanha, em conjunto com a UE e a UEFA, devem deixar claro
que, tal como inicialmente previsto, é apenas entre Portugal e Espanha que se verificam as
condições para a realização do evento. Se ambos os países cumprem pois cumprem todos os
requisitos para a co-organização do Campeonato do Mundo de 2030, não podem estes países
ser prejudicados, devendo manter-se como co-organizadores.
Entendemos, por isso, ser necessária a decisão do Estado Português e das entidades
desportivas nacionais, para que não permitam que Portugal se associe a Marrocos na
organização de um evento desta dimensão, atentas não só a coerência da política externa
nacional, incluindo a promoção e defesa de Direitos Humanos, mas também as exigências
logísticas, de segurança e de responsabilidade inerentes à organização do próprio evento e
que tomam particular relevância num momento em que Portugal assumirá, em breve, funções
como membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Note-se aliás, que o LIVRE já tinha levantado a questão da compatibilidade desta
co-organização aquando do processo de candidatura conjunta e em virtude da opressão
sistemática do povo do Saara Ocidental, mas os recentes acontecimentos que resultaram na
migração de milhares de pessoas para a cidade de Ceuta e na morte de, até ao momento, 75
pessoas, reforçam esta necessidade de rejeição da participação de Portugal na co-organização
deste evento que tem como parceiro um país que coloca em causa o projeto europeu e a
integridade territorial de Espanha. Portugal não pode compactuar com a normalização da
violência das fronteiras, da violação de Direitos Humanos e da instrumentalização política de
pessoas em situação de vulnerabilidade.
Esta questão surge também no momento em que a FIFA, pela voz do seu presidente Gianni
Infantino, tem tentado alterar os fundamentos da própria competição, com alterações arbitrárias
que colocam em causa o carácter popular do torneio. Relembremos a própria bizarria deste
campeonato de 2030 que, para além de ter três países co-organizadores, tem também
previstos jogos em três países da América do Sul. Isto depois de a organização do torneio ter
sido atribuída a países como a Rússia, o Qatar e os Estados Unidos da América num processo
cuja transparência foi colocada em causa por diversas entidades.
Perante esta realidade, o LIVRE entende que está em causa não só a imagem de Portugal mas
também a salvaguarda da segurança nacional e europeia.
Atento o exposto, não nos parece que a manutenção desta co-organização tripartida possa ser
tratada como uma decisão meramente técnica e desportiva, dado que esta é uma parceria que
exige confiança institucional, condições de segurança reforçada e afinidade política entre os
países organizadores.
Apelamos, por isso, a que V. Exa. e o Governo reavaliem e tornem pública a oposição à
manutenção de Marrocos como país parceiro para o Campeonato Mundial de Futebol em 2030.
Percebendo a sensibilidade do assunto, esperamos que a diplomacia e contacto com a Real
Federación Española de Fútbol e o governo espanhol seja feita tão rapidamente quanto
possível, de modo a tomar uma decisão que não impacte a organização do campeonato e o
papel organizativo de Portugal e Espanha.
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Isabel Mendes Lopes
Paulo Muacho
Filipa Pinto
Jorge Pinto
Patrícia Gonçalves
Rui Tavares
Lisboa, 4 de agosto de 2026
«É o momento certo para tomar as decisões certas, quando estamos ainda a quatro anos da realização do Mundial. Portugal e Espanha têm em comum valores essenciais que não são partilhados por Marrocos e ainda vamos a tempo de preparar uma candidatura a dois», justifica a A BOLA Jorge Pinto, deputado do Livre.
O ex-candidato presidencial apresenta duas ordens de razão para a posição do partido: uma relacionada com segurança e logística, outra essencialmente política.
«O que está a passar-se em Ceuta prova que Marrocos não dá garantias no aspeto da segurança. Há uma ação concertada para mandar para Ceuta milhares de pessoas por forma a colocar em causa as fronteiras europeias e não é certamente com um parceiro destes que Portugal e Espanha querem organizar um Campeonato do Mundo», avança Jorge Pinto, acrescentando: «Na vertente política, estamos alinhados com Espanha mas não com um país que oprime a sua população e tem o Saara Ocidental sob ocupação há décadas sem permitir a realização de um referendo à população. Organizar este Mundial com Marrocos seria como partilhar uma tarefa destas com a Indonésia no final dos anos 90, quando esta tinha Timor-Leste ilegalmente ocupado.»
«Temos de decidir se queremos um futebol à Infantino ou um futebol que continue a pertencer aos adeptos», acrescenta Jorge Pinto, lembrando que «Marrocos está a aliar-se aos Estados Unidos e a Israel e quer dar o nome de Trump a uma auto-estrada no Saara».
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