Direitos humanos e situação do Saara Ocidental levam Livre a pedir o afastamento de Marrocos. Foto Miguel Nunes
Direitos humanos e situação do Saara Ocidental levam Livre a pedir o afastamento de Marrocos. Foto Miguel Nunes

A carta do Livre a Montenegro e Proença a pedir Marrocos fora do Mundial-2030

Partido apela junto do primeiro-ministro e da FPF à revisão da parceria com o país africano para a organização do Campeonato em 2030

O partido Livre, representado na Assembleia da República por seis deputados, quer que Marrocos deixe de fazer parte da organização do Mundial-2030, em associação com Portugal e Espanha.

Nesse sentido, o grupo parlamentar, liderado por Isabel Mendes Lopes, enviou ontem ao primeiro ministro de Portugal e ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol uma carta na qual exorta as entidades nacionais a afastarem-se de Marrocos e a organizarem o Campeonato do Mundo a dois, seguindo a ideia inicial de uma candidatura ibérica.

A carta do Livre

Exmo. Senhor Primeiro-Ministro

Exmo. Senhor Presidente da Federação Portuguesa de Futebol

Assunto: Participação de Marrocos na co-organização com Portugal e Espanha do

Campeonato Mundial de Futebol em 2030

Tornou-se insustentável a participação de Marrocos na co-organização do Campeonato

Mundial de Futebol de 2030 juntamente com Portugal e Espanha. Ao desrespeito do direito

internacional para o qual o LIVRE tem vindo a alertar como as décadas de violações

sistemáticas por parte do regime marroquino dos Direitos Humanos do seu próprio povo ou a

negação da autodeterminação e repressão violenta do povo saarauí e o não cumprimento da

realização do referendo de autodeterminação adiciona-se, mais recentemente, a

instrumentalização de cidadãos marroquinos em Ceuta, inclusivamente de jovens, mulheres e

crianças para um ataque às fronteiras com Espanha, com consequências trágicas. Este

acontecimento confirma que não existem condições nem garantias políticas de segurança e de

cooperação leal entre Marrocos e Espanha e Portugal para manter esta co-organização.

Os governos de Portugal e Espanha, em conjunto com a UE e a UEFA, devem deixar claro

que, tal como inicialmente previsto, é apenas entre Portugal e Espanha que se verificam as

condições para a realização do evento. Se ambos os países cumprem pois cumprem todos os

requisitos para a co-organização do Campeonato do Mundo de 2030, não podem estes países

ser prejudicados, devendo manter-se como co-organizadores.

Entendemos, por isso, ser necessária a decisão do Estado Português e das entidades

desportivas nacionais, para que não permitam que Portugal se associe a Marrocos na

organização de um evento desta dimensão, atentas não só a coerência da política externa

nacional, incluindo a promoção e defesa de Direitos Humanos, mas também as exigências

logísticas, de segurança e de responsabilidade inerentes à organização do próprio evento e

que tomam particular relevância num momento em que Portugal assumirá, em breve, funções

como membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Note-se aliás, que o LIVRE já tinha levantado a questão da compatibilidade desta

co-organização aquando do processo de candidatura conjunta e em virtude da opressão

sistemática do povo do Saara Ocidental, mas os recentes acontecimentos que resultaram na

migração de milhares de pessoas para a cidade de Ceuta e na morte de, até ao momento, 75

pessoas, reforçam esta necessidade de rejeição da participação de Portugal na co-organização

deste evento que tem como parceiro um país que coloca em causa o projeto europeu e a

integridade territorial de Espanha. Portugal não pode compactuar com a normalização da

violência das fronteiras, da violação de Direitos Humanos e da instrumentalização política de

pessoas em situação de vulnerabilidade.

Esta questão surge também no momento em que a FIFA, pela voz do seu presidente Gianni

Infantino, tem tentado alterar os fundamentos da própria competição, com alterações arbitrárias

que colocam em causa o carácter popular do torneio. Relembremos a própria bizarria deste

campeonato de 2030 que, para além de ter três países co-organizadores, tem também

previstos jogos em três países da América do Sul. Isto depois de a organização do torneio ter

sido atribuída a países como a Rússia, o Qatar e os Estados Unidos da América num processo

cuja transparência foi colocada em causa por diversas entidades.

Perante esta realidade, o LIVRE entende que está em causa não só a imagem de Portugal mas

também a salvaguarda da segurança nacional e europeia.

Atento o exposto, não nos parece que a manutenção desta co-organização tripartida possa ser

tratada como uma decisão meramente técnica e desportiva, dado que esta é uma parceria que

exige confiança institucional, condições de segurança reforçada e afinidade política entre os

países organizadores.

Apelamos, por isso, a que V. Exa. e o Governo reavaliem e tornem pública a oposição à

manutenção de Marrocos como país parceiro para o Campeonato Mundial de Futebol em 2030.

Percebendo a sensibilidade do assunto, esperamos que a diplomacia e contacto com a Real

Federación Española de Fútbol e o governo espanhol seja feita tão rapidamente quanto

possível, de modo a tomar uma decisão que não impacte a organização do campeonato e o

papel organizativo de Portugal e Espanha.

As Deputadas e os Deputados do LIVRE

Isabel Mendes Lopes

Paulo Muacho

Filipa Pinto

Jorge Pinto

Patrícia Gonçalves

Rui Tavares

Lisboa, 4 de agosto de 2026

«É o momento certo para tomar as decisões certas, quando estamos ainda a quatro anos da realização do Mundial. Portugal e Espanha têm em comum valores essenciais que não são partilhados por Marrocos e ainda vamos a tempo de preparar uma candidatura a dois», justifica a A BOLA Jorge Pinto, deputado do Livre.

O ex-candidato presidencial apresenta duas ordens de razão para a posição do partido: uma relacionada com segurança e logística, outra essencialmente política.

«O que está a passar-se em Ceuta prova que Marrocos não dá garantias no aspeto da segurança. Há uma ação concertada para mandar para Ceuta milhares de pessoas por forma a colocar em causa as fronteiras europeias e não é certamente com um parceiro destes que Portugal e Espanha querem organizar um Campeonato do Mundo», avança Jorge Pinto, acrescentando: «Na vertente política, estamos alinhados com Espanha mas não com um país que oprime a sua população e tem o Saara Ocidental sob ocupação há décadas sem permitir a realização de um referendo à população. Organizar este Mundial com Marrocos seria como partilhar uma tarefa destas com a Indonésia no final dos anos 90, quando esta tinha Timor-Leste ilegalmente ocupado.»

«Temos de decidir se queremos um futebol à Infantino ou um futebol que continue a pertencer aos adeptos», acrescenta Jorge Pinto, lembrando que «Marrocos está a aliar-se aos Estados Unidos e a Israel e quer dar o nome de Trump a uma auto-estrada no Saara».

A iniciar sessão com Google...