Foi junto ao majestoso Lago de Como, em Itália, que Miguel Ribeiro concedeu uma entrevistas aos jornalistas portugueses que acompanham o Famalicão nesta digressão — Foto: Famalicão
Foi junto ao majestoso Lago de Como, em Itália, que Miguel Ribeiro concedeu uma entrevistas aos jornalistas portugueses que acompanham o Famalicão nesta digressão — Foto: Famalicão

Miguel Ribeiro: «Europa? O objetivo do Famalicão é seguir esta evolução»

Presidente da SAD dos minhotos é um eterno insatisfeito: do tanto que já foi feito ao dobro que falta fazer. Crescimento do clube ultrapassa fronteiras. Pede transparência em Portugal

COMO — Tem sido uma semana de elevada projeção do Famalicão além-fronteiras por ocasião da participação na Como Cup. Em Itália, precisamente, Miguel Ribeiro fala sem rodeios sobre todo o projeto que está em curso, sem esquecer os negócios de monta que têm sido feitos. E também há reação à recente polémica a envolver Pedro Proença.

— O Famalicão vem da melhor época da sua história, com o 5.º lugar alcançado no último campeonato. O que espera desta época?

— O objetivo é continuar o crescimento do Famalicão. Essa é verdadeiramente a nossa pedra de toque. Sabemos o que estamos a fazer e sabemos para onde vamos. Vimos de um 5.º lugar em que, reconhecidamente, jogámos bem, promovemos um bom futebol e promovemos jogadores. É continuar este crescimento. Tivemos algumas alterações da época passada para esta. Começámos logo a época com um novo treinador e temos uma confiança absoluta na escolha que foi feita. Quanto aos jogadores, reforçámos o plantel dentro daquilo que entendíamos ser adequado e continuamos atentos, porque o mercado está aberto. Acredito que o Famalicão vai continuar a ser uma equipa competitiva.

— A participação na Como Cup, com equipas desta dimensão, é o reconhecimento do crescimento alcançado pelo Famalicão?

­— É o reconhecimento externo daquilo que temos feito internamente. Esse prestígio que o Famalicão está a conquistar é algo em que também quisemos investir com a participação neste torneio. Representa o crescimento do Famalicão e o seu reconhecimento. É óbvio que isto resulta da trajetória que temos feito até hoje. É uma trajetória que ainda não foi consolidada com uma participação europeia, mas que é assinalável pela regularidade do crescimento.

— A qualificação para a Europa é um objetivo concreto?

— O objetivo do Famalicão é fazer melhor a cada época. Nunca posso pedir lugares, porque vamos entrar numa competição em que o respeito por todos os clubes portugueses e por todos os nossos adversários é tremendo. É uma liga muito competitiva e muito difícil. Fazer melhor não é necessariamente ir à Europa, porque na época passada o 5.º lugar, teoricamente, daria esse acesso e, na prática, não deu. Por isso, fazer melhor é continuar este processo de evolução.

— Pelo crescimento que tem apresentado, o Famalicão está pronto para 'morder os calcanhares' ao SC Braga?

— O Famalicão e, claramente, o futebol português assentam num comboio com três carruagens. Temos uma primeira com três clubes grandes, muito grandes, o FC Porto, o Benfica e o Sporting. Depois, há uma segunda carruagem, que não chega aos três grandes, mas está muito acima da terceira, que é o SC Braga. Em seguida, há uma terceira carruagem, onde está o Famalicão, a competir com Rio Ave, Gil Vicente, Vitória de Guimarães, Arouca, Estoril e outros clubes por esses lugares. Mas queremos caminhar à frente dentro desta carruagem. Se há algo que o Famalicão tem é os pés bem assentes na terra.

— O Famalicão já está num patamar superior ao Vitória de Guimarães?

­— Na época passada ficou um lugar acima. No próximo ano pode ficar um lugar abaixo. O Vitória é um clube enorme. É hoje um clube maior do que o nosso, por tudo aquilo que representa, pela sua cidade, pelo seu estádio e pelos seus adeptos. É um clube maior do que o Famalicão.

«O futebol português assenta num comboio com três carruagens. O Famalicão está na terceira»

— É inevitável que o crescimento do clube passe por um estádio maior, diferente, e, eventualmente, noutro local...

— É inevitável. O estádio é hoje um limite ao crescimento do Famalicão. Quando resolvermos o tema do estádio, seguramente o Famalicão poderá verdadeiramente arrancar para uma dimensão diferente. O nosso grande propósito é que seja no mesmo local. É por isso que o tema ainda não está resolvido. O nosso propósito assenta numa relação com o dono do estádio, que é o Município de Vila Nova de Famalicão, e naturalmente a responsabilidade da decisão não nos cabe a nós. No entanto, sabemos qual é o nosso papel. Toda a gente que tem um papel neste tema terá de fazer a sua parte. Estamos absolutamente preparados para fazer a nossa, naquele sítio e naquele estádio, e para termos um estádio condizente com a dimensão que o Famalicão tem hoje. Não podemos esquecer que o atual Famalicão foi constituído em 2018. É um crescimento assinalável, mas desde 2018. Antes disso, o Famalicão esteve 25 anos afastado da Liga, passando por competições até de nível terciário. Este novo Famalicão, que começou em 2018, ainda tem o tema do estádio para resolver. Na minha opinião, é o maior tema que temos de resolver nos próximos anos.

Miguel Ribeiro falou de todos os temas relacionados com o Famalicão e com o futebol português — Foto: Famalicão

— Mantém a confiança de que o Município vai encontrar solução?

­— Absolutamente. Confio plenamente no Município de Famalicão, enquanto dono e senhorio do estádio, e acredito que será capaz de resolver este tema, É óbvio que Famalicão não se revê naquele estádio. Não podemos ser os embaixadores que somos — e somos o maior embaixador de Famalicão — e caminharmos com esta pedra no sapato chamada estádio.

— Relativamente ao projeto do Famalicão, vai continuar a ser um clube vendedor?

— Quem responde a isso é o mercado. Acredito que o Famalicão não está assente numa perspetiva de vender talento. Está assente numa perspetiva de desenvolver talento. A partir do momento em que desenvolvemos jogadores com esta qualidade, é normal que o mercado reaja e venha cá. A filosofia que o Famalicão tem hoje relativamente aos jogadores potencia muito esta visão que o mercado tem sobre o clube.

— Como explica que nenhum dos três clubes denominados grandes tenha contratado Gustavo Sá?

— Essa é uma pergunta que tem de ser feita aos três grandes. No entanto, há aqui uma nota importante: o Gustavo Sá foi transferido para a Premier League [Nottingham Forest, seguindo, de imediato, para os gregos do Olympiakos, por empréstimo do emblema britânico], que é unanimemente reconhecida como a melhor liga do mundo. É um motivo de enorme orgulho para nós termos feito uma operação com um clube da Premier League e termos hoje um jogador made in Famalicão transferido para essa competição.

— O Famalicão também fez várias contratações para esta época. Sente que o plantel está mais forte?

­— Acredito que o plantel está mais forte, mas também acredito que o plantel precisa de tempo e que precisamos todos de ter paciência para crescer e fazer crescer. O Famalicão não vai mudar a sua filosofia e a sua visão por ter ficado em 5.º lugar no ano passado, por ter ido ao mercado de uma forma mais agressiva ou por ter vendido de uma forma mais agressiva. A visão e a filosofia do Famalicão assentam no jogo e no jogador. Queremos ter um jogo positivo, e reconheço que, depois da saída do Hugo Oliveira, tivemos a felicidade de encontrar disponível o Carlos Carvalhal, que nos dá todas as garantias de termos esse jogo positivo, de olhar para a baliza e de desenvolver talento e jogadores.

— Mesmo estando em Itália, como tem acompanhado esta polémica relacionada com os áudios tornados públicos sobre Pedro Proença, presidente da FPF?

— Estou sempre a centímetros de distância, principalmente destas coisas. É algo que me preocupa, porque defendo que as instituições e quem as dirige merecem todo o respeito e toda a confiança, mas também defendo que quem está dentro do ecossistema, nomeadamente os clubes, merece ser esclarecido. Temos de defender sempre critérios de transparência, e esses critérios de transparência muitas vezes são obtidos através de esclarecimentos. Acredito que o futebol português tem uma imagem muito boa a nível internacional. As instituições têm o dever de contribuir para a credibilidade e para a transparência de todo o futebol português. Esta indústria é, penso eu, a maior e melhor que o País tem. Por isso, o futebol português tem o dever de limpar tudo aquilo que seja nocivo ao seu bom nome. O apelo que faço é para que, com a maior celeridade possível, tudo seja esclarecido, para retomarmos a paz e a confiança entre as instituições. Nós, clubes, temos o dever de exigir isso. E eu, enquanto Futebol Clube Famalicão, exijo. Exijo ter confiança absoluta nas instituições. Acredito na FPF, na Liga, no Conselho de Arbitragem no Conselho de Justiça e em quem dirige.

VENDAS DE SÁ E IBRAHIMA BA «PLANEADAS»

— As saídas de Gustavo Sá e Ibrahima Ba estavam previstas?

— São duas saídas que estavam planeadas há muito tempo. Pelas abordagens que tínhamos, percebíamos que iam acontecer. Estavam acauteladas. Agora, até ao final do mercado, não sei o que vai acontecer. Na minha opinião, os mercados deveriam terminar antes de os campeonatos começarem.

— O Gustavo Sá foi vendido ao Nottingham Forest e vai jogar no Olympiakos. Pode explicar como foi, efetivamente, o negócio?

­— O que posso dizer é que as três partes ficaram absolutamente satisfeitas: o Famalicão (vendedor), o Nottingham Forest (comprador) e o jogador, que é naturalmente parte envolvida na operação. Mais do que isso, não posso falar sobre o tema. Mas, como sempre, o Famalicão faz estas operações e sai satisfeito delas, porque, se assim não fosse, não as faria.

— Quais são os valores que não são públicos relativamente à transferência do Gustavo Sá?

— Não posso dizer exatamente os números por questões contratuais de confidencialidade. Há números que estão a sair na Imprensa [€20 milhões] e que andarão sempre perto da realidade. Naturalmente, nós, Famalicão, até porque não estamos obrigados por nenhum tipo de regra a assumir esses valores, não vamos divulgar valores de transferências quando existem cláusulas de confidencialidade nos contratos.

— Foi dito que o Ibrahima Ba teria chumbado nos exames médicos no Estrasburgo e depois acabou por assinar pelo Sporting. Como se explica esta situação?

— Foi um processo muito simples. O jogador foi contratado e negociado com o Estrasburgo, como foi público. Entretanto, por questões entre o jogador e o clube — e não entre o Famalicão e o Estrasburgo — a operação não se concretizou. O Sporting entrou em cena muito rapidamente. Era um jogador que já tinha sinalizado e o Sporting fechou rapidamente com o jogador. Entre Famalicão e Estrasburgo, as operações tinham sido fechadas. Depois, entre o jogador e o clube francês, a situação não avançou.

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