Vítor Manuel e José Mourinho no final do FC Porto-Alverca de 16 de março de 2002 - Foto: A BOLA
Vítor Manuel e José Mourinho no final do FC Porto-Alverca de 16 de março de 2002 - Foto: A BOLA

Mourinho não enganou Vítor Manuel: «Vejo o Cândido Costa a fazer o corredor...»

É preciso recuar 24 anos para encontrar o último ponto que o Alverca conseguiu somar frente ao FC Porto. Alteração tática promovida por um jovem 'Special One' de pouco serviu: «O Quinzinho podia ter marcado»

O campeão nacional FC Porto inicia a defesa do título nacional este domingo (18h00), curiosamente frente ao adversário da consagração, em maio último. O Alverca, que avança para a segunda época consecutiva no principal escalão do futebol nacional, não guarda boas memórias dos confrontos com os dragões: em 12 duelos, apenas três empates, o último dos quais datado de... 2002.

Há 24 anos, mais precisamente a 16 de março, os ribatejanos, então orientados por Vítor Manuel, conseguiram anular, no Estádio das Antas, a estratégia montada por José Mourinho. «Foi um ponto importante, estávamos num momento difícil. O FC Porto era favorito, como sempre, mas, em termos estratégicos, estivemos muito bem, quase perfeitos», recorda o ex-treinador, em conversa com A BOLA.

No outro banco, o técnico que, volvidos alguns anos, viria a ser conhecido como Special One tentou surpreender, mas a velha raposa não foi na cantiga. «Houve ali uma alteração promovida pelo Mourinho. Creio que o Cândido Costa estava a fazer todo o corredor direto. Eu ia convencido que o FC Porto ia jogar com quatro defesas, mas jogaram numa espécie de 5x3x2», lembra Vítor Manuel. «Tive de fazer reajustes rápidos e acabou por correr bem. Claro que o FC Porto esteve mais dominante, mas o Quinzinho, que já não está entre nós, quase marcou. Não sei ao certo se houve ali uma defesa ou se foi um corte, mas até podíamos ter vencido. Ganhámos um ponto, mas, se calhar, os dois que perdemos podiam ter feito a diferença no final... A nível de motivação foi bom, mas acabámos por descer no final da temporada. Ficou uma boa imagem desse jogo nas Antas, de uma equipa competitiva. Aliás, o jogo em si foi muito competitivo», lamenta.

A partida terminou com um nulo no marcador, mas não faltaram incidências na reta final. Pedro Neves, do Alverca, foi expulso aos 74 minutos; no FC Porto, Benni McCarthy lesionou-se, teve de sair e, uma vez que os dragões já tinham esgotado as substituições, acabaram reduzidos a dez elementos. A turma ribatejana, que contava com nomes como Yannick, Gaspar, Emílio Peixe, Pedro Martins e Cajú, conseguiu travar Jorge Andrade, Costinha, Deco e companhia. No final, uma fotografia para a história. «Sei que há uma imagem minha e do Mourinho abraçados no final. Estávamos os dois na conversa, como era normal. Ele ainda era muito novo, eu cheguei aos 500 jogos na Liga no Alverca... Não lhe disse nada de especial, ele deu-me os parabéns, eu desejei-lhe sorte. Vinha aí uma carreira fantástica para o Mourinho. E eu já tinha virado muita terra», acrescenta Vítor Manuel.

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Uma época «surrealista»

Não obstante o empate «marcante» contra «um FC Porto em construção», que dominaria a Europa nas duas épocas seguintes (conquistou a Taça UEFA e a Liga dos Campeões), o Alverca não conseguiu evitar a despromoção nessa já longínqua época de 2001/02. «Aconteceram-nos muitas contrariedades, foi uma temporada com contornos surrealistas... A nossa equipa não merecia ter descido, praticávamos um bom futebol naquele Alverca», recorda Vítor Manuel, hoje com 73 anos. «No Bonfim, por exemplo, estávamos a ganhar em cima do minuto 89 e o Vitória de Setúbal conseguiu dar a volta, ganharam 2-1. Contra o Salgueiros, o Quinzinho foi expulso muito cedo, numa altura em que também estávamos a ganhar. Como eu gosto de dizer, houve coisas anormais dentro do que é o normal no futebol», detalha o antigo treinador, que esteve no ativo entre 1979 e 2015 — pouco faltou para as quatro décadas —, ano em que orientou os Bravos do Maquis, de Angola.

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