O novo leão e os velhos vícios
Na semana que antecede o início da Liga Portugal é oportuno avaliar aquilo que está a ser preparado na casa das máquinas, em particular na Academia Cristiano Ronaldo, procedendo ao exercício prospetivo sobre aquilo que será a versão 2026/27 da equipa do Sporting.
É verdade que as pré-época não determina títulos, nem antecipa vencedores. Ainda assim, não são irrelevantes por tudo aquilo que nela se trabalha, testa e antecipa. A qualidade das ideias, do processo de jogo, a resposta física dos jogadores, a integração dos reforços e a construção de novas rotinas, naquilo que virá a constituir a identidade coletiva da equipa, são aspetos necessariamente trabalhados neste período de preparação.
O Sporting terminou a preparação para a nova temporada com oito vitórias em outros tantos jogos, num registo de 26 golos marcados e apenas 3 sofridos, superando adversários de diferentes patamares competitivos e graus de exigência.
Mais importante do que a invencibilidade foi a consistência da resposta, a facilidade com que os novos jogadores se integraram, a intensidade colocada nos diferentes momentos do jogo e a sensação de que a equipa foi crescendo de encontro para encontro, parecendo estar identificada e ligada às ideias de Rui Borges.
Uma boa pré-época não garante uma boa temporada, nem será sinónimo de um vencedor antecipado, mas uma pré-época mal conseguida raramente deixa de anunciar problemas cuja materialização ocorre mais tarde.
Depois de uma época desportiva sem quaisquer títulos, concluída com a inevitável deceção de quem vinha de duas conquistas consecutivas do campeonato, o Sporting tinha de fazer mais do que corrigir pontualmente o plantel. Era necessário perceber que um ciclo próspero de vitórias chegara ao fim e que a equipa não deveria ser construída somente para responder ao imediatismo da nova temporada. O mercado tem, assim, revelado uma estratégia mais profunda: renovar a base, criar uma nova espinha dorsal e garantir que novos jogadores possam sustentar o futuro competitivo do clube para o próximo ciclo.
O investimento realizado no meio-campo é particularmente revelador dessa intenção. O Sporting não procurou apenas jogadores de inegável qualidade técnica, capazes de manter a identidade associativa da equipa, de privilegiar o momento da organização ofensiva, guardando a bola o mais possível, como procurou deliberadamente um outro biótipo de jogador: mais alto, mais forte, com maior fisicalidade e com maior capacidade para se impor nos duelos. A estatura média das opções para o meio-campo aumentou expressivamente da média de 1,79 para 1,85 metros, enquanto o peso médio passou de 74,5 para quase 80 Kg, com as entradas de jogadores como Silas Andersen, Sergi Altimira, Issa Doumbia e Pedro Lima.
Julgo não se tratar de substituir o talento pela força, nem de abandonar o futebol de combinações curtas e em posse, para transformar o Sporting numa equipa de jogo direto e de segundas bolas. Trata-se de acrescentar uma dimensão que faltou em determinados momentos da última época e em determinados jogos, especialmente naqueles em que se enfrentaram os rivais diretos, onde pairou uma sensação de dificuldade em combater no plano físico os argumentos dos adversários.
A renovação de um ciclo é sempre dolorosa, sobretudo quando implica prescindir de jogadores que marcaram de forma indelével uma era recente do clube, como foram Morten Hjulmand, Francisco Trincão, Morita, podendo ainda somar-se as saídas em perspetiva de Pedro Gonçalves, Ousmane Diomande e Daniel Bragança, estando, aparentemente, por dias a confirmação das suas saídas.
O reconhecimento e a gratidão que são devidos a este leque de jogadores não deve toldar a decisão sobre a necessidade de renovação do ciclo, devendo ser distinguido o respeito por tudo aquilo que ajudaram a conquistar nos anos mais vitoriosos das últimas décadas, com a opção estratégica de construir uma nova equipa base, capaz de garantir o sucesso para os próximos anos.
Com efeito, as impressões extraídas dos jogos da pré-temporada fazem acreditar que esta renovação permitirá ao Sporting ter as condições necessárias para assumir, sem receios, mas também sem falsas modéstias, o objetivo maior da reconquista do campeonato nacional. É verdade que, no primeiro ano em que ocorrem tantas mudanças, aumenta-se exponencialmente o risco de as coisas não funcionarem logo, havendo ainda assim uma crença, e até evidências de outras equipas, que nem sempre esse vaticínio se confirma, bastando olhar para aquilo que sucedeu ao FC Porto o ano transato, quando optou por mudar muito, em particular no eixo defensivo, e não deixou de lograr a conquista do campeonato.
A renovação promovida pode também fazer desta época o ano da afirmação definitiva de Rui Borges, com a oportunidade concedida de construir um plantel mais próximo das ideias que preconiza, assumindo a responsabilidade dos resultados a final. Veremos se a versão melhorada do tiki-taska, expressão usada inicialmente com alguma ironia para caracterizar o futebol de Rui Borges no Sporting e, entretanto, adotada como reconhecimento de um futebol associativo, móvel e em posse, terá agora deixar de ser uma promessa estética para se transformar numa identidade competitiva vencedora.
Rui Borges não precisa de imitar ninguém. Precisa de assumir plenamente aquilo em que acredita, tornar a equipa reconhecível e convencer os jogadores de que o seu modelo lhes permite vencer títulos. Este é o momento para se libertar definitivamente da condição de sucessor e de outros estereótipos que lhe foram colados, afirmando-se como o líder atrás de quem os jogadores cerram fileiras, qualquer que seja o momento, o adversário ou o terreno de jogo.
Quando caminhamos a passos largos para voltar a ver a bola rolar, jornada atrás de jornada e semana após semana, o futebol português persiste em regressar aos seus vícios mais ancestrais. A polémica em torno da divulgação dos áudios atribuídos a Pedro Proença ensombra o início do campeonato. Conversas privadas e, aparentemente, gravadas sem o consentimento dos participantes, conservadas durante dois anos e vazadas oportunisticamente a breves dias de ser iniciada a temporada, indicia uma evidente operação oculta de desgaste e fragilização do Presidente da Federação Portuguesa de Futebol.
Importa, pois, perguntar quem gravou, sabendo-se que foi numa reunião com dirigentes do Benfica, quem guardou, quem selecionou os excertos, truncou o restante da conversa e, eventualmente, descontextualizou, quem escolheu o timing da sua divulgação, e, sobretudo, a quem aproveita esta manobra de enfraquecimento dos corpos dirigentes da FPF.
Esta emboscada premeditada a Pedro Proença não afasta a responsabilidade do próprio, devendo merecer censura a indignidade das palavras utilizadas e o à-vontade com que se referiu depreciativamente a outros agentes do futebol português.
Sem estabelecer qualquer nexo de causalidade entre estes factos, a verdade é que assistimos no primeiro jogo oficial, no jogo da Supertaça entre o FC Porto e o Torreense, a um erro claro e óbvio, num lance de grande penalidade com influência direta no resultado, com uma incorreta avaliação pelo árbitro André Narciso e sem que a mesma tivesse merecido uma intervenção para revisão pelo VAR Luís Ferreira.
No final do jogo André Villas-Boas nada disse, pelo que aguardemos pelo seu próximo editorial na revista dragões, estando em crer que, com a sua proclamada exigência, não se remeterá a um silêncio ensurdecedor.