Mundial
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Obrigado por tudo, Cristiano. Agora é tempo de sair!
O Mundial começou mal para Portugal. Não apenas pelo resultado ou pela exibição diante do Congo, mas sobretudo pela sensação de que a Seleção Nacional entrou na competição sem uma ideia clara, sem capacidade de reação e sem a liderança que um palco desta dimensão exige. A convocatória de Roberto Martínez já tinha deixado dúvidas. A opção por levar um número excessivo de guarda-redes, a aparente descompensação entre laterais e centrais e a ausência de jogadores com características específicas para determinados momentos do jogo, como João Palhinha, suscitaram interrogações legítimas. O problema é que essas dúvidas não desapareceram com o primeiro encontro. Pelo contrário, ganharam força.
Portugal apresentou-se previsível, lento e incapaz de encontrar soluções perante um adversário organizado e competitivo. Mais preocupante do que o resultado foi a incapacidade demonstrada para interpretar aquilo que estava a acontecer em campo. Faltou leitura do jogo antes do apito inicial, durante os noventa minutos e até depois de o encontro terminar. Quando uma equipa repete erros sem que existam correções visíveis, o problema deixa de ser circunstancial e passa a ser estrutural.
A isso juntou-se a estranheza provocada pelas revelações sobre a saída do cargo do Selecionador na véspera do jogo com o Congo, alimentando discussões sobre o seu futuro num momento em que toda a atenção deveria estar concentrada exclusivamente no Mundial. Em vez de estabilidade e foco, instalou-se ruído. E em torneios desta dimensão, o ruído raramente ajuda quem pretende vencer.
Mas existe uma questão ainda mais delicada. Chama-se Cristiano Ronaldo. Escrevo estas linhas com profunda gratidão. Cristiano é, para mim, o maior futebolista da história de Portugal e um dos dois maiores jogadores da história do futebol mundial. Deu-nos títulos, recordes, momentos inesquecíveis e uma projeção internacional que nenhuma geração anterior conseguiu alcançar. O país inteiro está em dívida para com ele. Precisamente por isso, custa assistir a este final de ciclo. Aos 41 anos, Cristiano já não é o jogador que foi aos 31. Não poderia ser. O tempo, adversário imbatível, afeta-nos a todos e aos atletas profissionais mais ainda, independentemente da sua grandeza. E aquilo que durante duas décadas foi uma evidência — a condição de principal referência da Seleção — deixou de o ser.
O primeiro responsável por esta situação é o próprio Cristiano, por não reconhecer que, por mais duro que seja aceitá-lo, chegou o momento de se reformar da equipa de todos nós. O segundo é Roberto Martínez, que, subserviente, nunca demonstrou capacidade ou autoridade para gerir esta transição da forma que o interesse coletivo exigia. O condicionamento psicológico e tático provocado pela presença de Ronaldo continua a ser visível. Muitos jogadores procuram-no em excesso, muitas jogadas acabam por ser construídas em função dele e a equipa perde espontaneidade. O jogo de preparação com o Chile foi um exemplo esclarecedor. Após a saída de Cristiano, ao intervalo, Portugal tornou-se mais móvel, mais imprevisível e acabou por desbloquear o resultado. Não se trata de desrespeitar uma lenda. Trata-se de reconhecer uma realidade competitiva.
Há ainda uma terceira responsabilidade: a daqueles que rodeiam Cristiano Ronaldo e continuam a alimentá-lo com a ideia, falsa, de que ainda pode carregar sozinho a Seleção Nacional às costas, como tantas vezes aconteceu durante as últimas duas décadas. Não podem. Nem ele, nem ninguém.
Por tudo isto, deixo um apelo sincero. Cristiano Ronaldo já não tem nada a provar. Nem aos portugueses, nem ao futebol, nem a si próprio. A sua dimensão histórica está garantida para sempre. É chegado o momento de sair de cena com a mesma grandeza com que entrou. Por respeito a si próprio, aos seus colegas, à Seleção Nacional, ao Clube que o formou — o Grande Sporting Clube de Portugal —, para dar o exemplo aos milhares miúdos que dão os primeiros pontapés na bola e que, tal como este quase idoso, o têm como ídolo, e por respeito aos milhões de portugueses que cresceram a admirá-lo.
As lendas não deixam de o ser quando param. Pelo contrário. Muitas vezes, tornam-se ainda maiores quando sabem escolher o momento certo para dizer adeus.