Ivan Goncharuk morreu aos 10 anos, na academia do Benfica na Ucrânia (foto: Facebook/Svetlana Goncharuk)
Ivan Goncharuk morreu aos 10 anos, na academia do Benfica na Ucrânia (foto: Facebook/Svetlana Goncharuk)

O que se sabe sobre a morte de uma criança de 10 anos na academia do Benfica na Ucrânia

Mãe de Ivan revela que diretora da academia está a ser procurada pela Interpol

Ivan Goncharuk tinha apenas 10 anos de idade. Morreu a 3 de agosto de 2023, quando estava integrado no campo de férias da academia do Benfica na Ucrânia. A mãe, Svetlana, revela agora que a diretora da academia, Mariia Kryvopyshyna, foi adicionada à lista de pessoas procuradas pela Interpol.

O sonho do futebol e o medo da água

Ivan vivia em Balta, na região de Odessa. Ao verem a paixão do filho pelo futebol, Vyacheslav e Svetlana decidiram inscrevê-lo numa escola, preferencialmente longe dos principais focos do conflito militar entre Ucrânia e Rússia.

Escolheram então a academia do Benfica, instalada em Khodosivka, nos arredores da capital, Kiev. Chegaram a 30 de julho (de 2023), véspera do arranque do campo de férias, e pernoitaram num hotel próximo. No dia 31 lá foram levar Ivan à academia, e terão percebido que logo após o primeiro treino as crianças seriam conduzidas a uma piscina.

«Nós dissemos imediatamente que o Ivan não sabia nadar. O treinador respondeu que tinha ouvido. As crianças mudaram de roupa, o treinador abriu-lhes a porta da piscina, elas entraram a correr e começaram a saltar para a água. Ele deixou as crianças de 7 a 10 anos sozinhas e foi mudar de roupa. O Ivan estava connosco. Fui ter com o treinador e disse que era contra deixar o meu filho entrar na piscina grande. Ele respondeu que havia uma pequena e que o Ivan ficaria nela», recordou o pai, em 2025.

Vyacheslav  e Svetlana regressaram a casa depois de almoço, nesse último dia de julho, mas garantem que ainda pagaram aulas de natação para o filho, quando perceberam que o complexo oferecia essa possibilidade. A 2 de agosto foram informados de que Ivan tinha boa coordenação na natação, mas mostrava muito medo da água.

A criança falava diariamente com os pais, por telefone, mas o dia 3 de agosto revelou-se trágico.

«Naquele dia, como era habitual, o Ivan devia ter ligado de volta depois do almoço. Passou uma hora, duas, e o telemóvel em silêncio. Começámos a ligar nós próprios, mas não atendia. Pensámos que talvez tivessem vindo do almoço e ido dormir, por isso decidimos não incomodar. Até às 15h, ligámos mais algumas vezes, sem resposta. Começámos a ligar para o treinador, mas ele também não atendia. Escrevi-lhe uma mensagem, perguntei como tinha corrido o treino. Ele respondeu: 'Está tudo bem'. Depois liguei outra vez e ele não atendeu. Fui ao site da academia e marquei o número que lá estava publicado. Atenderam. Eu disse que ia ligar para a polícia se não descobrisse o que tinha acontecido. Disseram que não estavam lá, por isso iam confirmar com o gestor. Ninguém ligou de volta. Liguei outra vez e não atenderam», recorda o pai.

A responsabilidade do treinador

Os pais receberam uma chamada pelas 17 horas, da polícia, a informar do afogamento de Ivan no lago do complexo. A criança teria sido dada como desaparecida pelas 14 horas.

De acordo com a investigação, um treinador de 36 anos, Andriy Chornous, levou oito crianças para o lago e afastou-se 300 a 400 metros. Ivan afogou-se.

O lado em que Ivan morreu (foto: A BOLA)
O lado em que Ivan morreu (foto: A BOLA)

Chornous foi acusado criminalmente e colocado em prisão domiciliária na sequência do processo. Andriy Nebytov, antigo responsável policial na região de Kiev, referiu na altura que a academia do Benfica não preenchia os pressupostos legais necessários, mas, nesse sentido, falou também em alegada negligência dos pais, que rejeitaram essa versão.

Vyacheslav e Svetlana queixam-se de depoimentos (e documentos) alterados, por parte dos funcionários da academia e do complexo, e estranham que as câmaras de vigilância não estivessem a funcionar. Sentiram que havia uma obstrução à justiça e chegaram a revelar uma oferta de cinco mil dólares para encerrar o caso.

Mariia Kryvopyshyna associada a corrupção

Agora procurada pela Interpol, Mariia Kryvopyshyna já tem estado também associada a suspeitas de corrupção que envolvem o pai, Oleksiy Kryvopishyn, ex-diretor da empresa estatal de caminhos-de-ferro (South-Western Railway) entre 2002 e 2015. Em 2014 uma investigação jornalística revelou que várias empresas privadas controladas pela família Kryvopishyn prestavam serviços à transportadora estatal (como limpeza e fornecimento de roupa de cama), desviando mais de 758 milhões de hryvnias dos cofres públicos. Em 2019, o Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) acusou-o formalmente de desviar mais de 50 milhões de hryvnias através de abuso de poder e falsificação de documentos.

Relativamente ao próprio complexo hoteleiro e desportivo onde a academia do Benfica operava, e onde ocorreu a tragédia, também terá resultado de um esquema de corrupção em terrenos do Estado pertencentes aos caminhos-de-ferro.

«O Ivan era o nosso único filho. Eu nasci em 1987, a minha mulher é 10 anos mais velha. Não vamos conseguir ter mais filhos. A Sveta só cuidava do Ivan, não trabalhava. Depois da morte dele, perdemos o nosso rumo. Não fui trabalhar durante três meses porque não me conseguia motivar. A minha motivação é o meu filho. Quando o Ivan foi enterrado, chegámos a casa depois do funeral, sentámo-nos, olhei para a minha mulher e perguntei: 'Porque é que fizemos isto tudo? Porque é que construímos uma casa? Para que é que precisamos deste carro?' A vida parou para nós», desabafou Vyacheslav o ano passado.

A iniciar sessão com Google...