FPF: Mais vale parecer do que ser
As competições nacionais estão de volta. Após um ano com muita pressão e alguma polémica, todos esperávamos que o período de pausa trouxesse um novo ambiente ao futebol português. Puro engano. Os acontecimentos das últimas semanas mostram que pouco ou nada mudou.
Falta de ética
A divulgação de áudios privados de Pedro Proença é algo que todos devemos condenar. O futebol, pela sua dimensão mediática, deve dar o exemplo em situações como esta. A sociedade deve perceber que este tipo de práticas não pode ser normalizado nem aceite. Alegadamente, estavam naquela reunião cinco pessoas: Pedro Proença e o seu assessor, Filipe Pais, Rui Costa, Fernando Seara e Nuno Costa. Uma dessas pessoas foi responsável pela gravação e divulgação daqueles áudios. As grandes instituições devem ser geridas por pessoas que representem os seus valores.
A grande questão que está em cima da mesa é simples: Pedro Proença ou Rui Costa sabem quem gravou aqueles áudios? Se o sabem, têm o dever de o dizer publicamente para que o responsável possa responder pelos seus atos. Se não o sabem, devem ser proativos e fazer tudo o que estiver ao seu alcance para esclarecer o sucedido.
No caso de Pedro Proença, Filipe Pais já não é funcionário da FPF e pouco poderá fazer, além de colaborar no esclarecimento dos factos.
No caso de Rui Costa, a responsabilidade é diferente. Não pode gerir um clube convivendo com a suspeita de que um dos seus funcionários possa estar associado a este tipo de práticas. Como Fernando Seara já não exerce funções no Benfica, entendo que Rui Costa deveria suspender preventivamente Nuno Costa até que toda a situação fosse esclarecida. Não como um juízo de culpa, mas como uma forma de proteger a credibilidade da instituição e garantir que nenhuma suspeita continua a pairar sobre o clube.
Futebol unido?
Apesar de condenar a divulgação dos áudios, não posso fugir ao seu conteúdo. Ao ouvi-los, parece que estamos perante uma conversa de café e não numa reunião de alguém que pretendia assumir a presidência da FPF.
A forma como o então candidato falou de Fontelas Gomes é demonstrativa de como Pedro Proença escolhe as pessoas para os cargos da FPF. As próprias palavras de Proença deixam a sensação de que a competência não foi o principal critério. Faço esta ressalva para deixar claro que não estou a avaliar a competência de Fontelas Gomes, mas sim as palavras de Pedro Proença.
Ter um presidente da FPF que olha para as pessoas pelo lugar onde nasceram e pela escolaridade que têm diz muito da forma como o futebol está a ser gerido. É preocupante ouvir este tipo de discurso precisamente no futebol, um espaço que tantas vezes se apresenta como um lugar onde a origem ou a condição social não deveriam fazer diferença.
O segundo tema impactante dos áudios foi a forma como, alegadamente, Pedro Proença falou com Fernando Seara e Rui Costa. Passou de uma aparente proteção concedida ao Benfica para um tom claramente ameaçador. Se aquelas palavras correspondem ao que foi dito, é difícil compreender que Rui Costa não tenha reagido de imediato. Se não o fez, então é legítimo questionar a forma como defende a instituição que preside.
Por outro lado, se tudo isto corresponde ao que aparenta, estamos perante um conteúdo muito grave em todos os aspetos.
Uma coisa é certa: quando Pedro Proença se candidatou anunciou que o futebol estava unido. Depois de ouvirmos estes áudios, percebemos que não só não está unido como continua a ser movido pelo medo, pelos interesses e pela falta de respeito entre os seus intervenientes.
Uma questão de credibilidade
Os períodos que antecedem uma nova época são importantes porque marcam o ritmo para o regresso da competição. O mínimo que se exige de quem organiza as competições é rigor, organização e credibilidade. Infelizmente, este ano aconteceu precisamente o contrário.
A demissão de Duarte Gomes abriu uma crise de confiança que Pedro Proença preferiu não enfrentar. Ao não agir, procurou afastar-se da polémica, mas não afastou o problema. O seu papel era precisamente o contrário: esclarecer os factos e retirar qualquer dúvida sobre a credibilidade da arbitragem. Não o fez porque pensa mais em si do que na função que desempenha.
O ego e a ambição acabam, demasiadas vezes, por sobrepor-se à missão do cargo. No meio de tanta turbulência e de tantos fogos para apagar, houve ainda mais um episódio revelador. A Supertaça é um jogo preparado com antecedência e, por isso, é fundamental que estejam reunidas todas as condições para a prática do futebol. A FPF, que organiza apenas alguns jogos por ano, não pode falhar num aspeto tão básico. A realidade, porém, foi outra. O relvado do Estádio Cidade de Coimbra apresentava-se em péssimas condições.
Custa ouvir, no final do encontro, o presidente da FPF afirmar que foram criadas todas as condições para que existisse um grande espetáculo. Pedro Proença parece viver numa realidade paralela e, pior do que isso, procura convencer-nos de que essa é a realidade.
Só assim se explica que, horas antes do jogo, tenham tentado pintar o relvado de verde, como se fosse possível esconder o estado em que realmente se encontrava. Pedro Proença apresentou-se com a promessa: «Vamos fazer o que ainda não foi feito.» A forma como foi gerida a questão do relvado mostra que, afinal, conseguiu cumprir essa promessa. Talvez fique uma sugestão para o próximo slogan eleitoral: «Mais vale parecer do que ser.»
No Chile, o estádio encheu para receber o guarda-redes internacional por Cabo Verde. O Mundial mudou a vida de Vozinha que aos 40 anos está a viver o seu melhor período.
A evolução na equipa é clara e notória. O ambiente começa a mudar na luz, sobretudo pela forma como Marco Silva quer por a sua equipa a jogar. No campeonato vai ter outras adversidades, mas os primeiros sinais são positivos.