O campeão e o recém-promovido: clube dividiu-se ao meio e ambos festejam
Passem os anos que passem há sempre histórias no futebol que parecem inventadas. E depois há o que está a acontecer no Chipre, onde uma equipa celebra o título de campeã nacional… ao mesmo tempo que outra equipa com o mesmo nome festeja a subida à mesma divisão.
Sim, leu bem. O Omonia conquistou este fim de semana o 22.º campeonato da sua história, ao vencer por 3-0 o rival APOEL e fechar a época no topo do futebol cipriota. Até aqui, tudo normal para um dos gigantes históricos do país.
O detalhe insólito chega da segunda divisão. É que o Omonia 29M garantiu também a promoção à primeira liga. Ou seja: na próxima temporada haverá dois Omonias no principal escalão cipriota. Um entra como campeão em título. O outro acabado de promover-se e provavelmente só à procura de sobreviver entre a elite.
Parece um erro. Mas é bem real. Para perceber esta história, é preciso recuar até 2018. Nesse ano, a direção do Omonia decidiu privatizar o clube e entregar a gestão da equipa de futebol ao empresário americano-cipriota Stavros Papastavrou. Uma decisão que caiu muito mal junto de uma parte dos adeptos, especialmente da Gate 9, o grupo ultra do clube.
Para esses adeptos, o Omonia tinha perdido a alma. No próprio dia do anúncio — 29 de maio de 2018 — nasceu um novo clube. Primeiro chamou-se Omonia 1948, mas acabou por mudar para Omonia 29M por razões legais. O 29M ficou como homenagem à data de fundação.
A ideia era simples: criar um clube totalmente dos adeptos, gerido democraticamente, fiel às raízes populares e à identidade histórica do antigo Omonia, que nasceu de uma história... semelhante.
O clube original nasceu em 1948 depois de vários jogadores terem sido expulsos do APOEL por se recusarem a assinar um manifesto anticomunista e pró-Grécia. Esses jogadores fundaram então o Omonia e transformaram-no num símbolo da esquerda cipriota.
70 anos depois, a história repetiu-se. O novo Omonia começou do zero. Ou quase. Teve dificuldades para encontrar uma liga que o aceitasse e acabou por arrancar nos campeonatos distritais do país. Foi subindo divisão após divisão, arrastando milhares de adeptos para estádios pequenos, crescendo praticamente sem dinheiro, sustentado por vendas de merchandising, donativos e receitas de jogo. Quase sem estrangeiros e com um orçamento minúsculo. E agora chegou à primeira divisão.
O mais curioso? Enquanto uma parte dos adeptos festeja títulos com o Omonia original, outra celebra subidas com o Omonia criado pelos ultras. Dois clubes. O mesmo nome. A mesma cidade. E uma história comum impossível de separar.
Artigos Relacionados: