O «anormal» FC Porto, o árbitro do Gil-Sporting e... Balakov: tudo o que disse Mourinho
— Que adversário está a contar receber no primeiro jogo de 2026? Qual é a importância de começar com o pé direito depois do deslize em Braga?
— A importância é a de sempre. O objetivo é ganhar todos os jogos e, quando não se consegue, o resultado é negativo para nós. Relativamente a isso, não muda absolutamente nada. O Estoril é uma boa equipa, já os vi ao vivo, para além do trabalho que fazemos de análise. E é uma equipa difícil, que joga bem, um futebol muito interessante, para não elogiar mais do que isso, mas podia. Uma equipa que, para como todas aquelas que não jogam competições europeias, cada semana significa uma semana de trabalho. Uma semana de trabalho com bons treinadores, como é o caso do Castro, são semanas de progressão na qualidade e na dinâmica de equipa. Uma equipa que está tranquila na classificação, não precisa de olhar para trás, não tem medo porque está tranquila. Não tem obrigação de olhar para cima, é uma equipa que não tem nada a perder e que certamente quererá fazer um grande jogo contra nós e, se possível, um bom resultado.
— Estamos em janeiro, mês dificil para o Benfica com muitas decisões. Como é que está a preparar e antever o que aí vem?
— Acho que para o Benfica é ainda mais difícil do que para todos os outros. As equipas que jogam um jogo por semana são equipas nesse aspeto, têm vantagens a todos os níveis. Têm vantagem pela possibilidade de trabalhar mais, pela não acumulação de fadiga. Das equipas que estão nas competições europeias, somos nós aquela que está em situação também mais complicada para janeiro, porque o FC Porto e o SC Braga classificaram-se, com mérito, obviamente, mas facilmente para a fase seguinte [play-off] da UEFA Europa League; o Sporting também já está classificado com mérito [na realidade, soma 10 pontos, mas ainda não garantiu a classificação]. O Benfica é que é aquela equipa que tem dois jogos decisivos e com esse maravilhoso calendário que teve na Champions, depois de Chelsea, Newcastle e companhia, vêm agora Real Madrid e Juventus, acumulado com jogos de campeonato, com um, esperemos dois, jogos na Taça da Liga, e mais um na Taça de Portugal... Obviamente que essa acumulação é difícil. Há equipas que têm plantéis que lhes permitem mudar muitos jogadores de jogo para jogo, descansar e controlar melhor o load [densidade de jogos] e os níveis de fadiga. No nosso caso, muitas alterações significam um decréscimo lógico no rendimento da equipa. Temos de pensar jogo a jogo. Se me perguntarem agora se vou fazer contra o Estoril, um pré-SC Braga na próxima quarta-feira? Não, não posso fazer isso. Temos que jogar contra o Estoril esquecendo que jogamos com o SC Braga na quarta-feira.
— Nos objetivos que tem para 2026 ainda está a luta pelo campeonato ou, olhando realisticamente para aquilo que é neste momento a classificação, considera que é praticamente impossível?
— Se calhar as pessoas não pensam como eu, mas para mim a transição do 31 de dezembro para o 1 de janeiro não é diferente do 1 para o 2 de janeiro, ou do 30 de novembro para o 1 de dezembro. Para mim é só mais um dia. O calendário não me diz absolutamente nada, o Réveillon não me diz absolutamente nada, as doze passas não me dizem nada, a roupa inter azulinha também não me diz absolutamente nada. A esse níve, não é por aí que eu vou. Relativamente ao campeonato, agarro-me duas coisas. Uma é à matemática. Faltam muitos mais do que dez pontos em disputa, se tivessem só nove em disputa, dizia que a matemática não nos permite. Agarro-me obviamente à matemática e ao facto de nós sermos a única equipa que nas competições portuguesas não perdeu. O Sporting já perdeu, o FC Porto já perdeu e o Benfica não perdeu. Agarro-me à nossa equipa que não é, obviamente, uma equipa do outro mundo, se fôssemos do outro mundo estávamos obviamente em primeiro lugar e já qualificados na Champions, etc. Mas com as suas forças e com as suas debilidades, somos uma boa equipa. Somos uma equipa a quem não é fácil conseguir resultados. Portanto, da mesma maneira que nos últimos 14 jogos temos uma única derrota — e ainda por cima num jogo em que massacrámos o adversário, que foi o Bayer Leverkusen, no jogo em que fizemos 31 remates à baliza do adversário. E depois temos 10 vitórias e 3 empates, com o SC Braga, com o Sporting e em casa com o Casa Pia. Uma equipa que em 14 jogos perde um da maneira como perdemos, também me dá força para acreditar que somos capazes de continuar a ganhar jogos. Há uma coisa que é muito óbvia, que às vezes as pessoas se esquecem, mas que ao longo da minha carreira nunca me esqueci, é que às vezes o teu sucesso depende dos outros também. A primeira volta do FC Porto é extraordinária e não dá possibilidade a quem está a fazer bem, de se aproximar. Se o FC Porto deste ano fosse igual ao do ano passado, obviamente que estaríamos numa posição extraordinária. Se o Sporting deste ano fosse igual ao do ano passado, que teve três treinadores e teve imensos problemas e imensas oscilações de forma, também estaríamos numa melhor posição relativamente ao Sporting e esquecendo também o que aconteceu noutros jogos pos aí. O sucesso de uns também depende muito do sucesso dos outros e, nesse aspeto, eu tenho que dizer que nós não estamos a fazer mal, de todo, mas ao nível do campeonato aquilo que o FC Porto está a fazer tem sido extraordinário ao nível dos resultados.
— Num mês determinante para o Benfica, pergunto se tem receio das arbitragens depois do que se passou em Braga?
— Nunca tenho receio das arbitragens. Se tu me perguntares agora quem é o nosso árbitro contra o Estoril [Anzhony Rodrigues], não sei. E estou a ser honesto, nem sei como é que se chama. Dá-me igual. Antes dos jogos, não tenho problema nenhum com nenhum árbitro. Podem dar-me qualquer árbitro que eu estou contente, podem dar-me qualquer um que fico contento, não tenho nenhum tipo de problema. Antes dos jogos. Depois dos jogos, obviamente que analiso determinado tipo de situações, seja nos jogos do Benfica, seja nos restantes jogos da primeira, mas também da segunda liga. Depois dos jogos, obviamente que às vezes há coisas para dizer, há coisas não se podem esconder e não se pode mandar areia para os olhos das pessoas porque são facilmente visíveis e lógicas. Mas antes do jogo, confiança total, aceitação total. Pessoalmente nunca vetaria um árbitro. Venha quem vier, bem-vindo e que tenha sorte. Não tenho medo porque tenho este feeling positivo que não me permite ter medo. Acredito que o árbitro que vem para o nosso jogo irá para fazer muito bem. Se tu me perguntares o árbitro que vai apitar o Sporting-Gil Vicente [Gustavo Correia]... já não te posso responder porque não jogo. Mas relativamente aos árbitros que apitam o Benfica, bem-vindo e boa sorte.
— Podemos então depreender que a autoavaliação que faz do trabalho no Benfica é positiva, mas os rivais têm sido mais fortes?
— Se o FC Porto tivesse empatado dois jogos que seria uma coisa normal em qualquer campeonato, em vez de dez pontos estávamos a seis. Aquilo que o FC Porto está a fazer é anormal. Se o Sporting não tivesse tido a maravilhosa sorte de se terem equivocado ocasionalmente num pontapé de canto no jogo com o Santa Clara (2-1), teria mais um empate eem vez de estarmos a cinco estaríamos a três. Também dependes daquilo que os teus adversários diretos fazem. Dizer que o Benfica tem feito mal nestes últimos dois meses onde não perdemos e deveríamos ter ganho em Braga, pronto, agora já não estou com o humor negro de Braga, e na objetividade. Em condições normais teria ganho em Braga, em condições normais teria ganho ao Casa Pia. Acho que o árbitro do Casa Pia é o que vai hoje ao Gil Vicente-Sporting [Gustavo Correia]. Teríamos quatro pontos a mais. Mas objetivamente, super parabéns ao Porto por aquilo que está a fazer, um campeonato fantástico. Estamos a fazer um bom trabalho. Ganhamos os jogos que temos à partida que ganhar. Não ganhámos ao Casa Pia já sabemos porquê. Empatar com o Sporting — vamos esquecer o merecer ganhar ou não merecer ganhar — é um resultado normal. Ganhar em Braga, voltando ao humor negro, da maneira como fizemos é brilhante, porque o SC Braga é uma excelente equipa. E depois ganhamos jogos que não são fáceis de ganhar, Vitória de Guimarães fora [3-0], Moreirense fora [4-0], Nacional fora [2-1]... A equipa não está a fazer mal de todo.
— Como avalia estes primeiros dias de Sidny, Já pode ser opção para amanhã?
— Vai estar no banco. Não penso que tenha condições para começar, seja do ponto de vista físico — porque já há bastante tempo que não treinava com a equipa no Estrela da Amadora, obviamente pela proteção à possível transferência, portanto já não treina nem joga há alguns dias. Esteve aqui connosco três dias, é pouco também para aprender a jogar connosco, mas estará no banco e é uma solução boa porque é daqueles jogadores que pode jogar em diferentes posições. Miúdo tranquilo, feliz de estar aqui, com fácil integração. O português não é o melhor, mas metade da equipa é fluente em inglês. Nenhum tipo de problema de adaptação, parece muito bom menino, com muita ilusão de estar aqui e de jogar no Benfica. Em princípio, penso que acabará por jogar, qualquer que seja a direção do jogo.
— Amanhã joga com o Estoril, uma equipa muito ofensiva, marca muitos golos. Nesta altura, o Benfica beneficia mais destas equipas que deixam os jogos mais abertos?
— Não sei se o Estoril deixa os jogos mais abertos. Se fizerem, por exemplo, aquilo que fizeram com o SC Braga [vitória por 1-0 na jornada 15], marcando ao homem, vindo à procura do adversário muito alto, não é fácil. Uma coisa é uma equipa que se acumula em bloco baixo, mas não sei se é mais fácil jogar contra um bloco baixo ou se é mais fácil jogar contra uma equipa que te aperta com tudo e que te vai buscar referências individuais. O Estoril é boa equipa, tem bons jogadores com bola, tem boas dinâmicas e é daquelas equipas que não precisam de olhar para baixo e que olham para cima com a tranquilidade de 'Ok, vamos tentar ir o mais alto possível, mas sem um objetivo completamente definido'. Entram numa daquelas fases de estabilidade onde jogam bem, onde jogam com níveis de confiança altos. É um jogo difícil para nós.
— Já tem Sidny e Cabral às suas ordens. Esperava já ter também um extremo?
— Ainda não temos e confesso que quando eu digo 'ainda não tenho' não é com nenhum sentido crítico, porque conheço perfeitamente as dificuldades. É com tranquilidade e com muita calma que espero que alguma coisa possa acontecer. Sei que o clube está a trabalhar, sei que o Mário Branco, o Presidente e o Simão são incansáveis no trabalho que fazem. Penso que irá chegar algum jogador com esse tipo de características, mas ainda não.
— Que tipo de jogador lhe faz mais falta? Um Wesley para a esquerda, um Rafa para o meio ou um André Luíz para a direita?
— Não vou falar de jogadores que não são nossos, não vou alimentar mercados. Iisso é trabalho dos agentes, dos clubes que querem ser vendedores, é trabalho dos PRs [relações públicas] e de alguns comentadores que também vivem de falar de mercado. Dos três nomes que falou, a única coisa que posso dizer é que os conheço. Porque agora tem saído um nome de um jogador, o Balakov ou Baltakov, que nem sequer conhecia, Obrigaram-me a ir à procura do Balakov. Eu sei como é que coisas funcionam, mas tentem ser um bocadinho mais equilibrados. Não gosto de falar de jogadores que não são nossos.
— Obrador ainda não somou qualquer minuto e Henrique Araújo desde que chegou somou 16. Qual é o papel que antecipa para estes jogadores até ao final da época. Espera alguma saída durante este mercado de inverno?
— Um dos jogadores que cresceu muito no período em que aqui estou foi o Dahl. Na minha modesta opinião, foi um dos jogadores que melhorou muito. Do Dahl lembro-me de dois erros em todos estes jogos: um contra o Bayer Leverkusen (0-1) e o penaltinho contra o SC Braga. E depois só me lembro de grandes jogos, de uma melhoria enorme ao nível ofensivo, porque ele defensivamente foi sempre muito certinho, muito regular. Já fez golos importantes, já fez assistências importantes, acabou de fazer o golo da vitória em Braga e é um jogador que não tem dado muitas hipóteses a quem está por trás de passar à frente. Neste caso, para o Rafa [Obrador], muito difícil ter uma oportunidade e ainda por cima o Dahl é muito regular fisicamente, recupera muito bem, é forte, não tem tido lesões. E depois, na hora de dar alguma oportunidade, fui na direção do Zé Neto, não só como prémio por aquilo que tem feito e por aquilo que fez no Mundial, mas também porque convictamente achamo que o Zé tem um enorme potencial e que este tipo de pequenas oportunidades são coisas que vão acelerando o processo. Da mesma maneira que para as equipas às vezes o sucesso e insucesso depende dos adversários, nos plantéis, às vezes o sucesso e o insucesso também depende muito daquilo que as principais figuras fazem. Se me perguntar se o Obradovic é bom ou mau jogador, digo sem problema absolutamente nenhum que é um bom jogador, tem coisas a melhorar, mas é um jogador com potencial. O Dahl até agora não lhe deu absolutamente hipótese nenhuma. Relativamente a Henrique é um bocadinho o mesmo em relação ao Pavlidis. O Pavlidis joga, joga bem, marca, assiste, é regular, a equipa está muito formatada a jogar com ele. E depois o Henrique também sofre um bocadinho com a situação do Ivanovic, que é um jogador que chegou este ano já com o comboio em andamento, mas que é um investimento importante do clube e o treinador tem que tentar ao máximo ajudá-lo a ir à procura das suas melhores qualidades, que sabemos que as tem, mas que até agora conseguiu aqui e ali mostrar o que pode fazer, mas não ainda de uma forma consistente. O Henrique também paga um bocadinho por isso. Relativamente a empréstimos, tudo isso está nas mãos do Mário Branco, do Presidente e do Simão. Há regras também a serem cumpridas, há um número restrito de empréstimos, seja para fora, seja no consumo nacional. Mas acredito que, até ao final de janeiro, há jogadores que têm obrigatoriamente que sair, até para o seu próprio bem, para jogar.