NA AMÉRICA DE EUSÉBIO* Portugal, dia 1+1
Reitero o que aqui escrevi ontem: a fase de grupos do Mundial, especialmente deste, com dezasseis-avos a seguir, só serve para aquecimento das melhores equipas. E, o Diabo seja cego, surdo e mudo, Portugal está no caminho do acesso à fase seguinte, essa sim de mata-mata, onde a tolerância zero ao erro aumenta a pressão sobre as equipas e ajuda a estabelecer as diferenças.
Confesso que não me agradou, e nem sequer se trata de superstição, o clima de mandar foguetes antes da festa que se apoderou dos adeptos portugueses. Estamos num Campeonato do Mundo, os ‘underdogs’ historicamente empertigam-se, especialmente na jornada inicial, e só por ingenuidade poderemos esperar jogos fáceis.
Como dizia António Guterres, é uma questão de fazer contas: quantos dos jogadores titulares das 48 equipas atuam na Europa? É no Velho Continente que reside o coração do futebol moderno, e este fenómeno propicia a padronização, baseada em princípios de jogo comuns.
Mas falemos de Portugal, que se apresentou muitos furos abaixo do que pode e sabe. Depois de um início promissor, a equipa caiu numa apatia feita de posse de bola inócua, que nem desgastava a RD Congo, a marcar à zona com um férreo 5x3x2, nem criava ocasiões de golo. Foi um futebol demasiado redondo, que nos levou a dar confiança ao adversário, e a verdade é que, no último quarto de hora, quando o jogo começou a partir-se, corremos riscos assinaláveis.
Estou obviamente desiludido, porque acreditava num início vitorioso de Portugal. Mas não esqueço o que disse anteriormente: ganhará, este Mundial a seleção que mais evoluir ao longo da competição. O nosso plantel tem qualidade e profundidade suficientes para apresentar várias opções até encontrar aquela que melhor se enquadre na competição. Quem gosta de procurar exemplos no passado pode ver, nas seleções campeãs do Mundo, as equipas que apresentaram na estreia e depois na final.
Segue-se o Uzebequistão, que deverá ser ultrapassado com nitidez, e deve ‘ajudar’ a turma nacional a recuperar a confiança que pode ter ficado abalada frente aos congoleses.
A procissão acaba de sair do adro, temos muito futebol pela frente, e continuamos a ter argumentos para acreditar numa boa participação da turma das quinas. Para já, não tomemos a nuvem por Juno.
*Eusébio da Silva Ferreira jogou no México (CF Monterrey), nos Estados Unidos (Boston Minuteman, Las Vegas Quicksilvers e New Jersey Americans) e no Canadá (Toronto Metros-Croatia). O Mundial de 2026 disputar-se-á por terras onde o ‘King’ espalhou o fulgor derradeiro da sua magia…