Cristiano Ronaldo foi a imagem da deceção no jogo de Portugal frente à RD Congo - Foto: IMAGO

É difícil perceber como uma equipa com tanta qualidade individual consegue produzir tão pouco. A RD Congo foi a décima equipa africana a apurar-se para este Mundial, via play-off, e assumiu uma postura inicial condizente com a discrepância de qualidade entre as duas equipas. Expectante, deixando que o adversário se acercasse da sua baliza, mas sem conseguir impedir que Portugal desbloqueasse o jogo logo a abrir.

Este podia ter sido o mote para uma tarde tranquila em Houston. Contra um adversário defensivo, o primeiro golo é muitas vezes o tónico para abrir espaços. Não foi o caso: Portugal fez muitos mais passes que a RD Congo (724-197), mas rematou menos vezes (8-7). Justiça seja feita que alguns dos lances de perigo não redundaram em remate (recorde-se a incursão de Nuno Mendes, aos 18’), mas os números ilustram um jogo pastoso e previsível.

Faltaram, muitas vezes, movimentos complementares de rotura aos que foram feitos em apoio por parte dos jogadores mais adiantados. A circulação à largura encontrou solução frequente no cruzamento pouco produtivo, e poucas vezes foi capaz de rodar e encontrar espaço do lado contrário. As combinações pelos corredores também foram inexistentes ou lentas, permitindo que os médios congoleses resolvessem com coberturas próximas. Até à entrada de Francisco Conceição foram raras as vezes em que Portugal criou espaços pelo drible.

A falta de movimentos nas costas da linha defensiva foi dando confiança a um adversário que, através de transições ou de bolas paradas, podia ter criado problemas maiores. Ao expor-se, a RD Congo deu espaços nas costas dos médios que Portugal nunca aproveitou. Talvez Trincão e Félix pudessem ter ajudado. Por outro lado, com tanto jogo de corredor, por que razão Ramos só aos 83’?

Martínez mexeu, mas o problema não era só individual. Portugal não revela intencionalidade colectiva própria, não revela capacidade de criar espaços através de dinâmicas conjuntas e, em dias em que as individualidades jogam a dez à hora, é quase impossível desmontar um adversário bem organizado.

Portugal dificilmente falhará o apuramento. É difícil fazer pior frente ao Uzbequistão e, numa situação desastrosa, passam seis dos oito terceiros. Nesse sentido, a postura despreocupada que Martínez trouxe à conferência entende-se. Contudo, é difícil perceber como estar «satisfeito com a atitude» num jogo onde se jogou tão pouco, tão devagar, e onde a equipa foi tão poucas vezes capaz de agitar a estrutura defensiva adversária.

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