O silêncio cruel do autocarro: como Portugal vai engolir a revolta antes do Uzbequistão

Entre a desilusão gravada nos rostos e a urgência física de uma maratona que não perdoa erros, a Seleção voltou à base de Palm Beach e regressa ao trabalho esta quinta-feira

HOUSTON — O futebol tem esta capacidade quase cruel de transformar noventa minutos numa eternidade de silêncio. No parque de estacionamento do Estádio de Houston, à medida que os jogadores portugueses caminhavam em direção ao autocarro após o apito final, o ambiente era de uma desolação palpável, pesada, quase tangível.

Imagens da desolação dos jogadores da Seleção:

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Os rostos, outrora confiantes, carregavam o esgazeado peso de um empate com sabor a derrota. Havia ali uma desilusão muda, um desalento que nem as palavras protocolares da zona mista conseguiam disfarçar. O escorregão diante da RD Congo doeu profunda e intensamente no seio do grupo.

Mas o espetáculo não espera pelas lágrimas. A Seleção Nacional regressou ontem mesmo ao seu quartel-general em Palm Beach, na Florida e regressa ao trabalho esta quinta-feira. Não há tempo a perder.

Para trás, fica o difícil e cinzento voo de regresso, consumado ontem à tarde, e que serviu para uma digestão lenta, ideal para isolar o grupo do ruído exterior e focar as atenções no diagnóstico urgente daquilo que falhou no relvado texano. O isolamento na base será o primeiro bálsamo para curar a alma de uma equipa que se viu subitamente confrontada com a sua própria vulnerabilidade.

Jogadores voltam a treinar-se esta quinta-feira em Palm Beach, na Flórida - Foto: MIGUEL NUNES

Para esta quinta-feira, Roberto Martínez reservou um treino de recuperação à porta fechada, uma sessão de muros altos onde as dores se tratam longe dos olhares públicos. Mais do que afinar a estratégia, o grande desafio da equipa técnica passa por decifrar o enigma físico que bloqueou a Seleção. Portugal foi lento, previsível e incapaz de aguentar o choque térmico e muscular imposto pelos africanos. É preciso mudar a velocidade de rotação do motor luso.

Colocar esta equipa na condição física ideal não se faz com um golpe de magia; é um processo evolutivo. O Mundial é uma maratona impiedosa e não um sprint de velocidade pura. A frescura tem de ser conquistada de jogo para jogo, crescendo à medida que a competição avança e os níveis de ansiedade estabilizam e o plano de cargas em Palm Beach terá de ser cirúrgico para que a Seleção não queime energias antes do tempo, mas ganhe, ao invés, a acutilância necessária na zona de decisão.

O relógio dita que o próximo exame está agendado para o dia 23 de junho. O adversário é o Uzbequistão e o palco será, novamente, o imponente NRG Stadium em Houston. O regresso ao mesmo cenário do crime exige uma forte higienização mental. É imperativo que o grupo dissipe o fantasma da estreia e perceba que nada está perdido. Na maratona das grandes competições, os campeões constroem-se na forma como reagem ao primeiro tropeço.

Curar a desolação e agitar as pernas: esta é a receita obrigatória para os próximos dias na Florida. Palm Beach será o laboratório onde Portugal terá de recuperar a alma, a velocidade e o sorriso, provando que Houston terá sido apenas uma falsa partida numa corrida que ainda tem muitas milhas para oferecer.

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