José Mourinho voltou a mostrar um lado estratégico muito forte e parece novamente mais conectado com os seus jogadores - Foto: IMAGO
José Mourinho voltou a mostrar um lado estratégico muito forte e parece novamente mais conectado com os seus jogadores - Foto: IMAGO

Mourinho e uma metamorfose ainda incompleta

Durante anos, José Mourinho combateu tudo e todos. Agora, a luta parece ser interior. Entre arrojo renovado e influência recuperada, há ainda limitações por superar

E se José Mourinho for a solução para José Mourinho? E se o que estamos a ver é o técnico a contrariar finalmente a sua pior versão, a escrever ele mesmo a antítese para a tese que o tem deixado obcecado, por concluir, desde Madrid? Esse anti-guardiolismo que sempre lhe fez mal. Depois de talvez ter sempre precisado de um inimigo, funcionado melhor em confronto, pode ter-se reencontrado no conflito interno.

É Mou tão especial que só mesmo ele nos deixaria a argumentar com o nosso próprio intelecto. Advogado no hemisfério esquerdo a apontar para o do direito, ambos de preto e farta cabeleira branca, amarelada com o tempo, enquanto a datilógrafa escreve cada pró e cada contra que, no fim, possam validar uma opinião definitiva, o que quer que isso seja. Quase uma sentença.

Mourinho tem tantas dimensões que parece quase impossível não cair no mesmo erro dos que o idolatram. Porque pode ser o bom ou o mau, ambos ao mesmo tempo ou nenhum deles. Deixa-nos sempre na dúvida, mesmo que tenhamos a certeza. É tão genial, como às vezes parece vazio. Tão arrasador como às vezes se deixa arrasar. Mas nos últimos tempos, algo mudou.

Não são só dois ou três jogos na UEFA Champions League ou uma maior solidez na Liga, ainda que esteja por derrotar o primeiro grande rival. É, parece-me, a evolução. Talvez tenha sido rota de fuga diante de tantos lesionados, mas, mesmo assim, entre outras opções, mais conservadoras, escolheu a inesperada, a mais ofensiva, aquela em que o resto do mundo talvez mais acreditasse e tem-na mantido mesmo agora, quando poderia inverter novamente o sentido.

É isso, porém, não apenas isso. Havia algo que me parecia inevitavelmente perdido. A capacidade de elevar o estado mental dos seus jogadores a ponto de acreditarem ser de classe mundial, como fez no passado com tantos nomes. Talvez tenha exagerado com Otamendi e Tomás Araújo ainda precise de resolver os duelos à primeira para poder ser considerado como tal, mas o que se viu no Bernabéu foi uma equipa psicologicamente preparada. Ainda que tenha perdido. Que não se tenha conseguido transcender em toda a plenitude. A mensagem esteve sempre lá, como esteve no 4-2 na Luz e até na derrota da primeira mão do play-off. O técnico terá reencontrado a ligação direta para a cabeça dos seus jogadores.

Depois, estrategicamente, voltou a provar que ainda tem a leitura de um Kasparov se o relvado fosse um tabuleiro de xadrez. Richard Ríos nos meios-espaços interiores, baralhou os merengues a ponto de Arbeloa ter de reagir com a troca posicional de Carreras por Camavinga. O colombiano abriu o caminho para o primeiro golo e para o que poderia ter sido a remontada à portuguesa.

Será isso suficiente para Rui Costa deixar sair um «Mourinho continua na própria época»? Não sabemos quando o presidente tomou a decisão, até pode ter sido ali, naquele momento, quando questionado pelo jornalista espanhol. E, sobretudo, o racional. Como se costuma navegar à vista na Luz, calculo que não haja projeto. Mourinho é o Ho’dor que na Guerra dos Tronos bloqueia a porta aos inimigos até que o que lhe mandam fazer (Hold the Door) se torna o seu nome. E não espantará ninguém se for mesmo todo o projeto.

No entanto, sem um rumo e o apoio de uma liderança, que prima pela constante ausência, estará mais perto de ganhar do que este ano, mesmo se subtrairmos o tempo que levou a consolidar o modelo encarnado?

E mesmo com a recuperação desse tempo, será este Mourinho dos dois extremos e outros tantos avançados detentor da chave do sucesso para uma maratona como a Liga? Onde o metro quadrado se vende mais caro do que em Madrid. Onde o ataque posicional é fundamental para ultrapassar blocos baixos e nem sempre há espaço para as acelerações de Rafa e companhia. Onde dominar através da posse é, muitas vezes, fundamental para se ter sucesso.

Tatuou os últimos sucessos no ombro direito. Foram provas a eliminar – UEFA Europa League e UEFA Conference League — e, mesmo com maior pujança no último terço, o modelo que está a implementar até inclinou ainda mais recentemente para a transição ofensiva com a introdução de Rafa em vez de Sudakov. Falta, portanto, uma ou duas camadas a esta equipa.

É verdade que os adeptos podem levantar a ideia de que tanto o FC Porto de Francesco Farioli como o Sporting de Rui Borges não são igualmente grandes especialistas quando lhes tapam os caminhos para a baliza, mas têm resolvido melhor os problemas que lhes aparecem pela frente — basta olhar para a classificação — e é o Benfica quem tem de encurtar distâncias. E isso só se faz com outro tipo de jogadores no onze, seja na defesa, onde tudo começa quando se constrói a partir daí, ou no coração do meio-campo e até na alimentação do ataque e na forma como os mais adiantados se associam com os restantes.

O mercado de janeiro mostrou a todos que Mourinho quer aceleração (e também outro tipo de finalizadores e de extremos, mais verticais) em vez de pensamento e criatividade. Só que não basta correr mais rápido do que os adversários ou ter mais altura na área, com cruzamentos a saírem de ambos os flancos, para se vencer sempre.

É aqui que a antítese ainda continua a falhar. Mourinho já joga com um maior número de armas para ferir os rivais, porém, exceto quando ele próximo adiciona complexidade através da estratégia, e isso acontece sobretudo para aproveitar os erros do oponente, tudo parece demasiado linear e facilmente desconstruído no ataque, assim que falta o seu maior combustível, o espaço.

Vamos acreditar que ainda não deixou o estado de crisálida. Que ainda não completou a metamorfose. Que da luta entre tese e antítese ainda sairá a mais bela das sínteses, uma que reúna finalmente a equipa com a cultura do clube, ainda que não muito vencedora nos anos mais recentes. E se encontre em campo a organização defensiva, a voracidade na transição e a criatividade no ataque associativo. Se não o conseguir, temo que volte a falhar por insuficiente.