Marco Silva não basta
Os sinais não enganam, Marco Silva e Benfica estão cada vez mais próximos do entendimento e isso pode significar que as águias poderão finalmente começar a fazer o que se pede a qualquer clube de topo: planificar com antecedência e com as pessoas certas, mesmo que por linhas mal calculadas há um par de semanas, quando a SAD encarnada ainda acreditava (ingenuamente ou não) que seria com José Mourinho a bordo da nau.
A conseguir concretizar (e formalizar) a chegada de Marco Silva logo após as eleições do Real Madrid que, se nada de extraordinário ocorrer, irá ditar a continuidade de Florentino Pérez, ainda vai a SAD encarnada a tempo de recuperar o trabalho deixado para trás, nomeadamente na escolha de reforços e saídas.
O melhor exemplo recente foi o que ocorreu no FC Porto: em junho de 2025 ainda Martín Anselmi era o treinador em exercício, a ordem de saída foi dada no final do mês, Francesco Farioli foi anunciado a 6 de julho e os dragões foram mesmo a última equipa da Liga a apresentar reforços.
A diferença em todo este processo não esteve em escolher demasiado cedo, mas em saber muito bem o perfil de jogadores para a ideia de um treinador. Este foi o segredo para tudo o que aconteceu a seguir.
Esta talvez seja a maior lição que o Benfica e Rui Costa podem retirar do rival a Norte: todas as escolhas que se fizerem no próximo mês e meio ao nível de reforços terão de se submeter a um padrão muito mais concreto e que respondam a uma questão que tantas vezes parece ser esquecida – o que deve ser um jogador à Benfica, tanto do ponto de vista tático, técnico, mas também mental.
O que se viu no FC Porto, por exemplo, foi muito mais que acerto nos reforços: cada um deles, falando português, polaco ou espanhol, cedo se tornaram adeptos fervorosos do clube, como se todos tivessem nascido na Ribeira. É uma cultura que se cria e recria à base de muita exigência interna e esse é o maior elogio que se pode fazer a André Villas-Boas: precisou de muito pouco tempo para fazer a máquina funcionar.
Rui Costa não o conseguiu em muitos mais anos, mas a chegada de Marco Silva pode de alguma forma ajudar: sem estar a fazer comparações com o antecessor, o ainda treinador do Fulham tem algo que neste momento é fundamental para o Benfica – fome de ganhar. Os elogios, recebeu-os de todo o lado (de Guardiola, mais que uma vez), mas andou demasiado tempo a querer ganhar e a não poder.
Falta saber se consegue ter o que qualquer um no seu lugar e com o seu estatuto exigirá: a autonomia para evitar erros de mercado recentes na Luz. É bom recordar que o Benfica contratou em janeiro o alemão Patrick Dippel para diretor de scouting e este será o primeiro defeso sem Rui Pedro Braz. Se nada de diferente acontecer, então a surpresa será maior.