Benfica: São Bernabéu da coragem
O Bernabéu. Quem já lá jogou sabe que vira Adamastor quando vislumbra quem tenta virar o Cabo das Tormentas. A força do seu estádio é muito do poder de um clube que, embora já não viva há muito a era dos galáticos, ainda tem um ou dois num plantel recheado de talento e juventude. Talvez não equilibrado, talvez sem cola que una toda esta competência, como o foram anos a fio Kroos e Modric, e com um treinador sem aura e estatuto, ainda a perceber quem pode ser no banco. Ou que talvez até já tenha percebido que dificilmente virá a ser quem querem que seja.
O Real que ganhou na Luz, superiorizando-se ao Benfica, foi o mesmo que daí saiu derrotado ainda na fase de liga e aquele que capitulou diante do Osasuna, em Pamplona, permitindo ao Barcelona nova ultrapassagem para a liderança do campeonato. Continua instável, por vezes incoerente e desligado, ainda que ameaçador, com ou sem Mbappé, e definitivamente sem Rodrygo e Bellingham. Há Vinícius, Güler, Mastantuono, Valverde, Brahim, todos enormes jogadores, com pouco paralelismo em termos de qualidade no grupo dos portugueses.
José Mourinho, embora afastado do banco, tem aqui oportunidade para mexer com a cabeça dos jogadores. Pode jogar Prestianni castigado sem julgamento para a fogueira. A seguir, as duas expulsões perdoadas aos merengues na primeira mão e tudo o que se passou desde o embate em Lisboa. Enfim, lançar os jogadores para o encontro da sua vida. Esse é o seu toque, pode provar que não o perdeu. E, depois, com uns pozinhos de estratégia misturados com uma equipa feroz, tornar o jogo muito desconfortável para os espanhóis. Ainda há semanas, no rescaldo da saída de Xabi Alonso, Vinícius, Bellingham e outros eram assobiados de cada vez que tocavam na bola. Esse sentimento ainda não passou por completo, há que despertá-lo. Despertar o Bernabéu contra si próprio. Para isso, é preciso coragem. Atrevimento. O que nos faz outra vez regressar a Mourinho.
Os últimos resultados no campeonato aligeiraram um pouco o cenário negro do Benfica até final da época, porém Rui Costa não teve pudor em garantir a continuidade do técnico — palavras abafadas pela polémica Vinícius-Prestianni. Se já se percebeu que para o presidente pouco importa o que não foi feito ou não correu bem até aqui, mostrar em Madrid que o Benfica pode ser dele já no próximo ano pode ser o manifesto de Mourinho — e convencer os adeptos. Mas só se for com tudo. Como equipa grande.